Crítica | The Post – A Guerra Secreta

Ninguém em sã consciência pode duvidar da capacidade de Steven Spielberg de contar boas histórias. The Post é mais um exemplo recente de que o diretor ainda tem lenha para queimar. Apesar da trama se passar nos anos 1970, sua essência é algo que jamais deixará de ser relevante.

Baseado em acontecimentos reais, o filme retrata o emblemático caso dos “papeis do pentágono”, um documento que comprovava que os Estados Unidos não tinham a menor chance de vencerem a Guerra do Vietnã. Esse documento caiu nas mãos do The Washington Post, que enfrentou um verdadeiro dilema antes de publicá-lo. A pressão vinda da Casa Branca era muito forte, inclusive com promessas de um processo judicial que poderia levar os responsáveis pela publicação para a cadeia. É claro que a imprensa muitas vezes é responsável por um desserviço à sociedade ao impulsionar noticias falsas – principalmente nos tempos atuais -, mas aquele caso mostrou como uma matéria certa no momento certo pode colaborar para trazer a verdade a tona.

The Post é um tanto arrastado no seu primeiro ato, mas a medida que as coisas avançam a tensão aumenta. Mesmo sabendo os rumos do roteiro, não há como não se envolver com uma situação tão relevante, ainda mais com um Spielberg inspirado. Meryl Streep e Tom Hanks oferecem boas atuações e o resto do elenco é extremamente sólido, inclusive com atores que se destacaram em seriados recentemente.

Além da questão dos “papeis do pentágono” o outro tema de destaque é a quebra de barreiras por parte de Kay Graham, a primeira mulher a comandar uma empresa que ficou na lista das 500 mais importantes da revista Fortune. Ela possui o único arco do filme, já que aos poucos vai ganhando a confiança necessária para fazer o que acha certo. É justamente em alguns momentos com Kay que Spielberg dá uma exagerada na pieguice, mas o que importa é que ele conseguiu eternizar essa editora americana que foi essencial para a imprensa como um todo.

Junto com Ponte de Espiões, The Post é uma prova de que Steven Spielberg não perdeu a mão. Temos que aceitar o fato de que deslizes como Jogador Número 1 podem acontecer.

Nota: 7

Crítica: Lincoln (2012)

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Engana-se quem acha que Lincoln é algum tipo de cinebiografia tradicional, daquelas que exploram as mais diversas fases da vida do personagem principal. O que o filme nos mostra é um período específico da História americana, algo que dura poucos meses e que basicamente só trata de uma coisa: a luta verbal para que a 13ª emenda (abolição da escravatura) fosse aprovada.
Tudo é muito bem recriado. Cada detalhe ganha grande importância para Spielberg, que faz deste filme uma experiência impecável em termos técnicos. A escolha dos atores também foi muito feliz, com nomes respeitadíssimos e em ótima forma, como Tommy Lee JonesJoseph Gordon-Levitt, isso sem falar no incrível Daniel Day-Lewis, que parece trazer Lincoln de volta a vida.
Apesar de todos esses acertos digo que me decepcionei bastante. Sou um admirador da história americana, mas me faltou uma conexão afetiva com o que eu estava vendo para relevar o excesso de diálogos cansativos e até maçantes. Claro que existem momentos inspirados, afinal estamos diante de grandes atores fazendo seus trabalhos, mas claramente falta algo. Durante quase duas horas vemos políticos tentando convencer outros políticos utilizando os mais diversos meios para tal e só. Fiquei torcendo para mais alguma cena de batalha e para mais momentos intimistas com Lincoln e sua família, mas o roteiro prefere mesmo focar nos debates políticos sem fim.
É de se espantar o fato de Spielberg não aproveitar esta intrigante figura histórica para nos emocionar de alguma forma. Achei que isso aconteceria pelo menos no ato final, mas o diretor toma uma estranha escolha ao retratar a morte do personagem, eliminando qualquer esperança que eu tinha de me comover. Pena.
É perfeitamente possível entender os motivos que levaram os americanos a amarem tanto este filme, mas a verdade é que ele dificilmente vai ter o mesmo impacto para o público de outros países. Convenhamos, se levar o Oscar não vai ser nada merecido, afinal concorrentes como Argo, As Aventuras de Pi, Amor e A Indomável Sonhadora são bem superiores.
7/10

Minority Report – A Nova Lei (2002)

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Minority Report é o tipo de filme que exige um pouco mais da nossa massa cinzenta, mas que também oferece cenas de ação de alta qualidade. Não são muitos os diretores com a capacidade de conduzir um projeto ambicioso como esse, sorte que nesse caso a tarefa ficou com Steven Spielberg.
Dono de um roteiro inteligente, Minority Report nos apresenta a um futuro não tão distante, no qual os criminosos são presos antes de cometerem seus crimes. As primeiras cenas explicam esse processo sem nos deixar confusos, o que não deixa de ser um feito respeitável dada a complexidade da coisa. John Anderton (Cruise) é um dos principais policiais que utilizam essa tecnologia, mas as coisas ficam complicadas para ele quando o sistema o acusa de assassinato.
A parte de ação se concentra basicamente na fuga de Anderton, em cenas que demonstram como os efeitos especiais podem colaborar para uma história. A criatividade de Spielberg parece não ter limites aqui, por isso podemos ver perseguições com carros voadores, aranhas mecânicas que farão de tudo para identificar seus alvos e mais.
E é claro que um dos aspectos mais interessantes de Minority Report reside nas discussões éticas que ele levanta, já que, na realidade, as pessoas acabam presas sem cometer crime algum.
O filme nos reserva reviravoltas surpreendentes ao longo de suas quase duas horas e meia, sem perder o ritmo, além de possuir um final bem costurado e imprevisível. Mais um grande acerto de Spielberg.
8/10

Crítica: Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977)

Roy Neary (Richard Dreyfuss) é um homem comum que avista um OVNI em sua cidade. Desde então, ele vive de maneira obsessiva em busca dos aliens que ele tem certeza que estão por perto, algo que é representado pela forma de uma montanha que ele constrói tanto com purê de batata, como com barro e pedras. Suas ações causam estranhamento para sua esposa e seus filhos, mas ele encontra uma companhia em Jillian, que parece ter a mesma vontade de fazer contato.
O filme tem um ar de aventura muito grande, além de uma boa dose de teoria da conspiração. É impossível não compartilhar com Roy Neary o desejo de ver de perto os seres de outro planeta e descobrir se eles tem algo bom a nos oferecer. É com surpresa que presenciamos uma mudança de tom. Inicialmente, há um grande mistério e um receio de que os aliens possam ser violentos, mas aos poucos vamos compreendendo a verdadeira natureza deles, culminando naquela inesquecível sequência em que ocorre a comunicação através da música. Existe ali uma leveza e ar um de esperança comoventes, que se contrapõe às tensões da época, como a Guerra do Vietnã e a  Guerra Fria. Steven Spielberg estava em uma forma incrível nesta época, com trabalhos do nível de Contatos Imediatos, além de Os Caçadores da Arca Perdida, E.T. – O Extraterrestre e Tubarão. Difícil dizer qual é o melhor.
8/10

Crítica: Jurassic Park – Parque dos Dinossauros (1993)

Não há como negar que os dinossauros são os destaques do filme. Até existem personagens interessantes, alguns vivendo conflitos razoavelmente desenvolvidos pelo roteiro, como o Dr. Alan Grant e sua aversão por crianças e seu amor pelo trabalho de paleontólogo, John Hammond e sua esperança de criar um parque capaz de impressionar a todos e o Dr. Malcom com sua teoria do caos, mas eles ficam em segundo plano. Várias espécies de dinossauros são mostradas aqui, desde o poderoso T-Rex, passando pelos bandidos Velociraptores e o angustiante Dilophosaurus com seu veneno, até o pacífico, quase angelical, Braquissauro. A explicação dada para que os dinos ganhem vida é absurda, mas ao menos é baseada na engenharia genética. De qualquer forma, nenhum expectador de bom senso quer ser convencido de que tal coisa é possível. O que importa é se divertir com o que é visto na tela, algo que acontece desde o primeiro minuto.
Os efeitos especiais nos permitem esquecer o absurdo encontro entre seres humanos e dinossauros e geram sequências de ação empolgantes, executadas com a qualidade e criatividade que se espera de um diretor como Spielberg. Sobra um tempinho para que os personagens discutam sobre o fato do homem dar vida a uma espécie extinta há milhões de anos, uma espécie que já foi escolhida pela seleção natural para deixar esse planeta. Como todo blockbuster que se preze, o humor também não fica esquecido.
É daquele raro tipo de filme capaz de agradar crianças e adultos, homens e mulheres. Jurassic Park empurra o cinema de puro entretenimento para um patamar mais elevado, da mesma forma que Spielberg fez com Tubarão e Indiana Jones, o que não é pouco.
8/10 

Crítica: Cavalo de Guerra (2011)

Há quem diga que Cavalo de Guerra é artificial nas suas tentativas de fazer o público chorar. Agora, eu pergunto: é possível assistir a uma bela história como essa sem se emocionar pelo menos um pouco? Nem o mais frio dos corações é capaz de acompanhar os desafios enfrentados por um cavalo que foi tirado de seu dono durante a Primeira Guerra Mundial sem demonstrar alguma reação genuína.
O roteiro do filme é bem simples. O personagem principal é o cavalo Joey, que acompanhamos desde os primeiros anos de vida. Ele é o fio condutor de tudo o que vemos. Durante a guerra Joey passa pelas mãos de diferentes donos e enfrenta vários tipos de situações. Essa maneira de contar a história praticamente impossibilita que criemos empatia com os personagens humanos, mesmo com a presença de bons atores como Niels Arestrup, Tom Hiddleston, Emily Watson e Peter Mullan, mas quando se trata do cavalo a coisa é bem diferente. Você não quer que nada de mal aconteça com Joey, você vibra com os seus avanços no treinamento, você se emociona com a amizade dele com o dono e com um outro cavalo e você sofre quando ele sofre. Isso tudo já faz a experiência valer a pena, mas o trabalho técnico de recriação dos horrores da Primeira Guerra também impressiona. Spielberg nos coloca dentro do front quase que da mesma forma que em O Resgate do Soldado Ryan. A violência das trincheiras é retratada de uma maneira realista e intensa, o que não deixa de ser uma homenagem aos combatentes daquele conflito pouco retratado no cinema e também a filmes como Sem Novidade no Front e Glória Feita de Sangue.
Infelizmente não dá para relevar algumas forçadas de barra do roteiro, como o fato de um cavalo ser capaz de fazer um médico (e aparentemente boa parte dos seus pacientes) dedicarem total atenção a ele. Isso sem falar no ganso arisco que garante algumas boas risadas, mas que parece deslocado dentro do contexto do filme.
Mesmo com essas demonstrações de irregularidade, Cavalo de Guerra nos oferece ótimos momentos na frente da tela e ainda transmite positividade. Perceber que todos os donos de Joey, sejam eles ingleses, franceses ou alemães, fazem de tudo para proteger o cavalo é um sinal de que Spielberg está longe de perder as esperanças em relação a humanidade.
7/10 

Crítica: Guerra dos Mundos (2005)

A tendência de Spielberg de maquiar a violência pode ser percebida em várias cenas de Guerra dos Mundos, mas isso não diminui o perigo enfrentado pelos seres humanos durante a invasão alienígena. Os acontecimentos são vistos pelo ponto de vista de Ray e seus dois filhos que moram com a mãe. O roteiro se mostra atual ao explorar o medo dos americanos após o 11 de Setembro. Demora até eles compreenderem que não se trata de um ataque terrorista, mas sim de algo ainda mais fatal.
As cenas de ação são dirigidas de maneira empolgante por Spielberg, que usa os efeitos especiais com eficiência e nos faz acreditar que não há lugar seguro para ninguém. Em certos momentos, a tensão é tão grande que não dá para imaginar um final feliz. Ter esse sentimento comprova que não é necessário mostrar litros de sangue para tornar violenta a essência de um filme.
Não só a luta pela sobrevivência importa, mas também a aproximação de Ray e seus filhos. Esse lado sentimental não pode ficar ausente nos trabalhos de Spielberg. Não vejo nenhum problema nisso.
Mas nem tudo são flores. A escassez de ideias dos roteiristas é percebida em sequências que não agregam muita coisa para história, como aquela envolvendo o personagem de Tim Robbins e também pelo final abrupto e um tanto forçado. São vários os argumentos óbvios que fazem do desfecho algo difícil de engolir, um deles é o seguinte: Se os alienígenas nos estudaram por tanto tempo, como foram vencidos por algo tão banal e tão comum?

7/10
IMDb 

O Resgate do Soldado Ryan

Título original: Saving Private Ryan
Ano: 1998
Diretor: Steven Spielberg

Esta incursão de Steven Spielberg na Segunda Guerra Mundial proporcionou uma verdadeira revolução do gênero. A sequência mais marcante do filme é, sem dúvida, a invasão da Normandia. Ela foi filmada de maneira realista e frenética, mas nunca confusa. Spielberg consegue transmitir toda a violência do conflito nestes 20 e poucos minutos iniciais.

No meio desse caos, o capitão Miller (Tom Hanks) recebe a missão de encontrar o soldado Ryan e levá-lo para casa. O soldado ganhou este direito após seus três irmãos morrerem no conflito.

Apesar do roteiro não ser dos melhores, ele conta com momentos interessantes que retratam o sofrimento dos soldados em meio a guerra e a saudade que eles sentem de casa. Spielberg mostra sensibilidade para lidar com esses momentos intimistas, como exemplo, destaco a cena em que o médico se arrepende de algumas atitudes anteriores ao conflito e aquela em que Upham tenta salvar um soldado alemão do fuzilamento.

Enfim, é um filme muito bem equilibrado, com um ritmo que sempre nos deixa interessados no que está acontecendo. Em 1998 fomos presenteados com dois excelentes filmes de guerra, este e o Além da Linha Vermelha. Como ambos perderam o Oscar para Shakespeare Apaixonado é algo difícil de explicar.

Nota: 8