Game of Thrones 8×06: The Iron Throne – Crítica

Fui assistir ao series finale de Game of Thrones com as expectativas moderadas e me surpreendi positivamente. Com cerca de 1 hora e 20 minutos, o episódio ofereceu muito daquilo que nos acostumamos ao longo dessas oito temporadas. Teve política, violência, humor e surpresas.

Muitos estão condenando as escolhas dos roteiristas. Há quem diga que personagens foram desconstruídos e que alguns tiveram atitudes que não condizem com o seu passado.

Não podem estar mais enganados.

A reclamação principal é obviamente a transformação de Daenerys em Rainha Louca. Os fãs da Mãe dos Dragões acham que isso surgiu do nada e portanto consideraram o episódio e a temporada uma merda colossal. Parece piada.

Indícios de que Daenerys poderia seguir por esse caminho estão em várias atitudes dela ao longo dos anos. Os roteiristas fizeram questão de colocar Tyrion falando com Jon sobre os atos condenáveis dela. Foi uma maneira
de fazer o público também entender. Pelo jeito, sem muito sucesso.

O fato é que Daenerys era uma tirana por natureza e uma sucessão de acontecimentos fizeram com que ela finalmente explodisse. E uma cidade inteira teve que sofrer as consequências de tamanha fúria. Ela sempre foi do sangue do dragão, no mau sentido.

As primeiras cenas de The Iron Throne revelam o tamanho da destruição perpetrada por ela e pelo dragão. A fotografia cinza realça o caos e a melancolia. A atmosfera é pesada demais. Tyrion, Jon e Arya ficam basicamente sem reação diante de tamanha barbárie.

Tyrion tinha uma pequena esperança de que Jaime tivesse sobrevivido, mas ele logo encontrou os seus dois irmãos unidos sem vida de baixo dos escombros. Uma cena tocante e grandiosa muito por causa da atuação de Peter Dinkalage.

Confesso que não esperava que Jon fosse o responsável por botar um fim na loucura de Daenerys. Parecia que Arya faria o serviço. Se pensarmos de maneira lógica, dificilmente Jon ficaria a sós com Daenerys, mas de qualquer forma, a cena foi bem executada e tanto Emilia Clarke como Kit Harington – sempre tão criticados – fizeram um bom trabalho.

E como foi triste ver Drogon diante do que estava acontecendo. Na sequência, a reação dele não poderia ser mais simbólica: destruir o trono
que impulsionou tudo isso. Espetacular.

A partir dai ficou a dúvida sobre quem comandaria os sete reinos. As coisas foram obviamente apressadas, mas interessantes. Sobrou tempo para uma inspirada piada sobre o sistema político de Westeros. Sam estava inventando a democracia e virou motivo de chacota. Coitado.

Bran, o Quebrado como o rei foi surpreendente de fato. Pelo menos dessa forma justifica-se toda a importância que era dada a ele ao longo das temporadas e faz com que o sacrifício de Hodor de segurar a porta tenha sido essencial. É uma pena que  o ator é bem fraco. E ele parecia promissor quando era um gurizinho.

E que belo final tiveram os Starks. Sansa evoluiu muito e jamais dobraria o joelho. Ela é a pessoa certa para  comandar o Norte. Eu esperava mais de Jon Snow, mas ele é o que é. Um homem justo e com poucas pretensões. No final das contas,ele escolheu um caminho semelhante ao do Meistre Aemon. Arya salvou Westeros do Rei da Noite e agora irá explorar o mundo. Acho que no final das contas, ela é a minha personagem favorita de Game of Thrones.

Vários epílogos para encerrar uma história e deixar claro que as coisas irão continuar.

Game of Thrones contou uma história extremamente ambiciosa, misturando política e fantasia e nos entregou episódios maravilhosos. As últimas duas temporadas foram apressadas e tiveram seus deslizes, mas no geral concluíram de maneira mais do que satisfatória tudo o que foi feito. É impossível agradar a todos. Temos que aceitar que nem todos os personagens terão finais felizes ou grandiosos. Isso está dentro do realismo que a série sempre buscou.

Sou do grupo de quem aprova o que foi feito e agora me despeço
de um dos melhores seriados de todos os tempos com uma salva de palmas e já com um ar nostálgico.

Nota: 9

Crítica | Vidro (Glass, 2019)

Saber que Fragmentado fazia parte do mesmo universo de Corpo Fechado foi algo empolgante. Essa empolgação aumentou ainda mais após o anuncio de um filme em que todos esses personagens iriam aparecer juntos. Vidro é o encerramento de uma inesperada trilogia que teve inicio em 2000, numa época em que achávamos que M. Night Shyamalan se transformaria em um grande diretor.

Infelizmente, o indiano tem colecionado mais erros do que acertos em sua carreira e Vidro é mais um filme que se junta ao grupo das decepções. Não há dúvidas de que havia potencial, porém ele foi desperdiçado com tantas escolhas erradas.

David Dunn vai confrontar Kevin Wendell Crumb após este sequestrar quatro garotas e ambos acabam em um hospital psiquiátrico. Quem faz companhia aos dois no hospital é Elijah Price, o Mister Glass. A psiquiatra Ellie Staple vai tentar convencê-los de que eles não possuem qualquer tipo de superpoder.

Shyamalan tenta emular aquela atmosfera de thriller psicológico de Corpo Fechado e falha feio. Quase nada aqui parece autêntico. Os diálogos que comparam o que estamos assistindo com histórias em quadrinhos soam extremamente artificiais.

Falando em artificial, o que dizer da atuação de Bruce Willis? Parece que ele não via a hora das filmagens terminarem para poder aproveitar o seu generoso salário. Nem mesmo ele conseguiu capturar a essência do seu próprio personagem de 19 anos atrás.

Talvez o único ponto positivo em Vidro seja mesmo James McAvoy e seu personagem com inúmeras personalidades. A capacidade do ator em transitar entre elas em questão de segundos é louvável. Ele pode soar ameaçador e monstruoso em um momento e no outro ser tão perigoso como uma inocente criança de 9 anos.

É uma pena que Shyamalan tenha feito decisões reprováveis que vão desde o roteiro até ângulos de câmera. E é claro que há uma reviravolta no final, não é mesmo? Pena que é mais uma daquelas que não fazem muito sentido se analisarmos o contexto da história.

Sinais, Sexto Sentido, Corpo Fechado e até mesmo A Vila foram o ápice de um diretor que aparentemente nunca mais irá de fato nos impressionar.

Nota: 5

Crítica | Game of Thrones – 8×04: The Last of the Starks

Fazia tempo que Game of Thrones não entregava um episódio tão intenso como este The Last of the Starks. Aqui a trama nos fez lembrar de grandes momentos do seriado ao investir em intriga, humor, diálogos inteligentes, reviravoltas e mortes realmente chocantes.

No final das contas a guerra contra o Rei da Noite e os Outros foi um mero empecilho para o que realmente importa: a guerra dos tronos. Nem os mortos conseguem ser mais cruéis que os seres humanos. Cersei já ultrapassou todos os limites e talvez justamente por isso esteja viva e com uma coroa na cabeça e uma taça de vinho na mão. Será que vai ser assim no final? Tudo é possível agora.

O povo em Winterfell soube aproveitar a vitória contra o Rei da Noite. Houve tempo para honrar os mortos, brindar e discutir o futuro.

Finalmente o modus operandi de Daenerys é questionado. A rainha dos dragões sempre foi arrogante, mas libertou escravos, matou vilões e trouxe justiça para o outro lado do Mar Estreito. Mas será ela a pessoa ideal para se sentar no trono de ferro? Por que ela quer tanto ser a Rainha dos Sete Reinos?

Varys sempre disse que busca servir o reino da melhor maneira possível e temos que levar em conta quando ele chega a conclusão de que Daenerys não é a melhor opção. Particularmente, gostei quando ele disse que talvez o melhor governante seja aquele não quer governar.

Há quem esteja criticando o episódio pela suposta desconstrução de Daenerys. Bom. Já haviam indícios de que isso seria possível e mesmo se não houvessem, qual o problema? Então todos os personagens precisam sempre evoluir e tomar as atitudes mais corretas? É assim na vida real? Não. Daenerys seguir os passos do Rei Louco não faz Game of Thrones ser ruim. E de qualquer forma, pode ser que isso nem aconteça.

O que aconteceu em The Last of Starks e chamou a atenção foi Brienne com Jaime. Deixem a Cavaleira dos Sete Reinos ser feliz e sofrer em paz. Ela sempre gostou de Jaime e agora que os dois se aproximaram é natural que sofra com a partida dele. Ou quer dizer que a mulher não pode chorar porque é desconstrução da personagem? Me poupem.

O episódio estava bom e aí ele melhorou absurdamente quando testemunhamos duas mortes difíceis de encarar. Que crueldade com o dragão Rhaegal. Confesso que eu não esperava essa morte antes da batalha que está para acontecer. E foi pesado, hein?

E quem achou por um segundo que Cersei aceitaria a proposta de paz? É óbvio que a resposta seria não e quando isso foi ficando cada vez mais evidente tememos por Missandei. Esses 10 minutos finais foram de extrema aflição, no melhor estilo Game of Thrones.

Triste saber que Verme Cinzento e Missandei não vão mais realizar o sonho de viverem juntos longe de Westeros.

O bicho vai pegar no próximo episódio. Será que Daenerys vai incorporar o Rei Louco e queimar tudo em Porto Real? Quero ver passar por aquelas bestas gigantes com flechas sedentas pelo couro do dragão.

E Jon… por quê diabos você não se despediu do Fantasma de maneira decente?

A expectativa para esses últimos episódios está enorme.

Nota: 9.8

Crítica | Game of Thrones – 8×03: The Long Night

Game of Thrones – 8×03: The Long Night

A batalha contra o Rei da Noite e o exército das mortos prometia bastante. O diretor Miguel Sapochnik já havia mostrado sua qualidade com os épicos ‘Hardhome’ e ‘Battle of the Bastards’, então nossa empolgação era compreensível.

Tudo começou da melhor maneira possível: uma trilha sonora espetacular adicionando tensão a cada nota, a disposição dos soldados e os rostos temerosos de nossos personagens preferidos. Aí tivemos a primeira investida com os dothraki e suas espadas flamejantes. Ouvir os gritos cada vez mais baixos e as espadas se apagando a uma a uma foram indícios de que sobreviver a Batalha de Winterfell seria basicamente um milagre.

Infelizmente, minha empolgação foi diminuindo graças a péssima qualidade da imagem da HBO HD. Minha nossa senhora. Por alguns momentos eu achava que estava assistindo a uma fita VHS em minha antiga televisão Sanyo de 20 polegadas. Foi extremamente frustrante me sentir perdido em várias cenas. A noite foi realmente escura e cheia de terrores. Onde estava o Senhor da Luz para nos ajudar um pouco?

Ainda bem que Melissandre e os dragões conseguiram iluminar um pouco o céu de Westeros.

Quando os mortos começaram a subir pelo muro tudo melhorou. A fotografia se revelou extremamente bonita e finalmente pude entender o que ocorria. A carnifica comeu solta. Alguns personagens foram se despedindo, quase sempre após algum sacrifício pessoal. A Lady Mormont levou um gigante junto com ela, Beric ajudou Arya e Edd ajudou Sam.

The Long Night não foi ‘apenas’ ação. Ver o povo escondido mas criptas de Winterfell remeteu a uma situação parecida vivida por Cersei e sua corte no episódio Blackwater. A coitada da Sansa esteve presente nas duas. O pavor era palpável ali dentro.

A intensidade da batalha foi aumentando. É claro que tudo foi bem grandioso, com uma porrada de figurantes, dragões, mortos, gigantes e todo o resto, mas os momentos mais épicos foram reservados para os minutos finais.

Novamente a trilha sonora embalou uma sequência que ganhou contornos grandiosos. Theon! Acho que agora podemos dizer que ele conseguiu sua redenção. Ele precisava disso mais do que ninguém.

E que tal o final? Era óbvio que o Rei da Noite não iria vencer a batalha, mas por um momento tudo pareceu perdido. Nada como um bom Deus Ex Machina para resolver tudo, não é mesmo? Não há outro nome para o que aconteceu. Arya surgiu do nada, matou o vilão e todo o exército morreu em definitivo. Isso me fez lembrar do exército dos mortos resolvendo a batalha em Senhor dos Aneis.

De qualquer forma, o caminho de Arya começou a ser trilhado para isso desde quando empunhou a Agulha pela primeira vez. As lições de Syrio Forel, o tempo que passou com o Cão e o treinamento em Braavos fizeram dela a pessoa certa para evitar o fim do mundo. Que belo arco narrativo, hein?

Agora são apenas mais três episódios e tudo pode acontecer.

Nota: 9.5

Crítica: Sonhos Imperiais (2014)

Após passar um tempo considerável na cadeia, Bambi terá pela frente o desafio de se reinserir em uma sociedade que tem pouco espaço para pessoas como ele. É no lado nada romantizado de Los Angeles onde Bambi tentará alcançar o sonho de publicar um livro. Esse objetivo parece ficar cada vez mais distante a medida que novos problemas surgem na sua frente. O dinheiro inexiste, a família pouco pode ajudar e um emprego está bem difícil de conseguir sem uma carteira de motorista. Para tirar a carteira ele tem que pagar 15 mil dólares de pensão, mas como conseguir isso sem um trabalho? E não é apenas de si próprio que ele tem cuidar, mas também do filho pequeno. Isso sem falar da violência por todos os lados. Pois é. Parece que todo o sistema quer empurrar Bambi para a vida do crime novamente. Sonhos Imperiais é um retrato honesto e emotivo sobre uma parcela marginalizada da sociedade. O diferencial de Bambi é que ele é capaz de transformar em palavras contundentes tudo aquilo que já viveu. Será o bastante para garantir um futuro para ele e para o filho? Além de um roteiro bem escrito que foca em um tema relevante, temos aqui uma performance extremamente competente de John Boyega. Vale a pena uma sessão dupla com Fruitvale Station.

Nota: 8

Game of Thrones – 8×02: A Knight of The Seven Kingdoms

A Knight of the Seven Kingdoms, segundo episódio da oitava temporada, foi basicamente perfeito ao que se propôs. Trata-se de um episódio de preparação extremamente eficiente. Além de trabalhar a tensão que antecede uma batalha com maestria, ele ainda colocou frente a frente diversos personagens e nos brindou com diálogos inteligentes e emocionantes. Houve tempo também para várias referências a acontecimentos passados, o que não deixa de ser uma bem vinda recompensa para os fãs.

Para quê acelerar as coisas? Outros seriados provavelmente nem se dariam ao trabalho de ter um episódio destes, mas isso é Game of Thrones.

Todos os 58 minutos se passam em Winterfell. Vemos os soldados treinando, as armas com vidro de dragão em fabricação, armadilhas preparadas e estratégias debatidas. Tudo muito verossímil. Não poderia ser diferente quando há um imenso exército de mortos chegando nos portões. Até quem nunca empunhou uma espada irá contribuir de alguma forma. Mesmo com o medo estampado nos olhos.

Eu achava que Jaime sofreria um pouco mais ao retornar a Winterfell, mas não foi bem assim. Graças a Brienne ele foi aceito por Daenerys. Como disse Jon, não dá para desperdiçar um soldado nessas horas.

Daenerys tem o costume de soar irritante quando questiona Tyrion. Todos sabemos do potencial do anão e ela parece esquecer disso às vezes. A Rainha dos Dragões dificilmente assume que cometeu um erro e prefere jogar a culpa na sua Mão. Jorah e Sansa talvez tenham a convencido a acreditar nele em definitivo.

Quando parecia que Sansa e Daenerys iriam se acertar de uma vez, eis que surge a dúvida sobre o que será feito com o Norte depois das batalhas que virão. Claro, essa discussão só existirá mais para frente se as batalhas forem vencidas, mas é algo a se pensar, ainda mais agora que Jon descobriu quem ele é.

Confesso que ainda não sei o que pensar sobre Arya e Gendry. Isso veio meio que do nada. De qualquer forma, é natural alguém buscar conforto (e prazer) em uma noite que antecede uma batalha.

Minha teoria sobre Theon provavelmente irá se concretizar. Gostei de vê-lo ser bem recebido por Sansa e ter o aval de Bran para protegê-lo. Duvido que ele sobreviverá ao próximo episódio e imagino que ele irá se despedir com um ato de bravura. Tomara. Ele merece a rendição agora.

Os melhores momentos de A Knight of the Seven Kingdoms se passaram na roda de conversa em frente da lareira. Brienne, Podrick, Tyrion, Davos, Jaime e Tormund. E vinho. Bastante vinho. Finalmente descobrimos como o selvagem Tormund ficou tão forte: ele mamou nos seios de uma gigante por três meses, óbvio. Atenção marombeiros! Isso é melhor que Whey Protein. Essa inesperada resenha não foi apenas de diálogos engraçados. Apreciamos o prodígio Podrick cantando uma bela canção e testemunhamos Brienne de Tarth receber o título de Cavaleira de Jaime Lannister e ser efusivamente aplaudida por Tormund. A quase sempre impassível Brienne sorriu e ficou com os olhos umedecidos. Nós também.

Este foi um episódio de preparação que beirou a perfeição e o cliffhanger não poderia ter sido melhor executado. Em meio a revelação que Jon fez para Daenerys a trombeta soou três vezes e agora não há mais como adiar: O INVERNO CHEGOU.

Nota: 9.8

Música | Resumo da Semana

Beyoncé na Netflix

Estreou na Netflix o documentário Homecoming. Podemos conferir aqui todo o contexto do elogiado show da cantora no Coachella 2018. Este é um dos maiores festivais de música do mundo e existe desde 1999. Beyoncé foi a primeira mulher negra a ser headliner do festival.

Repercussão do álbum do Fontaines DC

Fazia tempo que não havia tanta repercussão para um álbum de uma banda indie/alternativa. Dogrel vem dando o que falar. Vários sites especializados tem feitos generosos elogios e avaliando com nota máxima. Sugiro um pouco de calma com essa banda irlandesa. Espero que eles invistam mais no post/punk melódico de músicas como Television Screens, Roy’s Tune e Liberty Belle do que em músicas que eles mais falam do que cantam.

60 anos de Robert Smith

O frontman do The Cure está fazendo 60 anos hoje. O tempo passa, não é mesmo? Será que quem vai receber o presente somos nós com a confirmação de show deles no Brasil em 2019? Estamos aguardando ansiosamente.

Novo álbum do Cage The Elephant

Os americanos do Cage the Elephant já disponibilizaram o sexto álbum de estúdio deles. Você pode conferir Social Clues no Spotify.

Música da semana

Fontaines D.C – Roy’s Tune

Crítica | Ele Está de Volta (2015)

Imaginem o que poderia acontecer se Hitler se materializa-se na época atual e visitasse diversas cidades da Alemanha. Essa é a instigante premissa de Ele Está de Volta, filme alemão lançado em 2015 que deu muito o que falar.

Investindo na história do peixe fora d’água, Ele Está do Volta cria situações extremamente eficientes de humor. Um humor politicamente incorreto, é claro. Outro ponto positivo está na forte crítica social. Muitas cenas são reais e improvisadas e é um tanto perturbador ver tanta gente endeusando uma figura responsável pela morte de milhões.

É uma pena que Ele Está de Volta perde a força e aos poucos se transforma em uma verdadeira bagunça. A piada fica sem graça depois de uns 30 minutos e a crítica se torna repetitiva. Para piorar, há um exagero na quantidade de temas que o roteiro tenta abordar. A longa duração é outro problema.

No final das contas, trata-se de uma boa ideia que aos poucos foi sendo desperdiçada. Pelo menos, fiquei curioso para ir atrás do material original.

Nota: 6

 

Crítica: Cargo (2009)

Inspirando-se em vários filmes do gênero, Cargo tenta ser uma ficção científica de qualidade e não consegue. Muito do que vemos aqui já vimos em trabalhos bem melhores do passado.

No ano de 2667 a Terra deixou de ser habitável. Quem tem condições financeiras segue para Rhea, um planeta semelhante a Terra. Laura faz parte dos tripulantes de uma nave que irá levar uma carga até uma estação próxima a Rhea. São quatro anos de viagem, mas a equipe irá dormir na maior parte do tempo.

Coisas misteriosas começam a acontecer durante a jornada e segredos são revelados. O duro é conseguir entender quem é quem e acreditar nas reviravoltas absurdas. Graças a um roteiro mal elaborado, vemos situações surgindo do nada. Para piorar, somos incapazes de criar qualquer vínculo com os personagens. Entender as motivações deles beira o impossível.

A artificialidade de Cargo é evidente. Talvez o pior exemplo disso seja no romance mais forçado que vi no cinema nos últimos tempos. O único ponto positivo está nos razoáveis efeitos especiais, principalmente se considerarmos o orçamento enxuto.

Arrastado, derivativo e sem inspiração, Cargo tem quase tudo o que eu não quero ver em um filme do gênero.

Nota: 4

Crítica: A Prayer Before Dawn

Baseado em uma história real, A Prayer Before Dawn até o momento não recebeu a atenção que merece. O filme conta a história de Billy Moore, um boxeador inglês que acaba preso na Tailândia, onde irá lutar muay thai para tentar ganhar sua liberdade.

Mais do que desenvolver o personagem principal, o filme está preocupado em nos colocar na pele dele e isso é feito com contundência. Compartilhamos com Billy a aflição de estar em um lugar completamente hostil e de não compreender o idioma falado. A prisão em que Billy é levado é uma precisa definição de inferno na terra.

A superlotação é evidente e a noções de higiene são desconhecidas. Os detentos dormem literalmente com o ombro encostado no ombro do outro. As doenças proliferam. As brigas são corriqueiras e os estupros também. Para piorar a situação de Billy, ele está no fundo do poço em relação ao vício em ya ba (um tipo de metanfetamina).

A deterioração psicológica de Billy chega a um nível perigoso. Em uma sequência forte e visceral, ele mostra aos outros presos que ele não vai aceitar ser explorado. Uma maneira de conquistar respeito e diminuir seu tempo de cadeia está em um campeonato de muay thai, mas ele terá que treinar pesado se quiser se manter de pé.

A Prayer Before Dawn é praticamente dois filmes em um. Existe o drama de prisão e o filme de luta. A boa notícia é que ele se sai bem em ambos. As lutas são filmadas com uma câmera fechada que deixa nossa adrenalina lá em cima. O diretor Jean-Stéphane Sauvaire em nenhum momento quis deixar as sequências de pancadaria bonitas de se ver. Ele consegue transmitir a realidade brutal daquelas lutas e nos deixa exaustos no processo.

Este é um filme difícil, inquietante e imprevisível. As lutas que vemos em A Prayer Before Dawn acontecem em doses moderadas, portanto não é necessário ser fã de artes marciais para gostar do filme. Mas prepare-se para algumas cenas dignas de embrulhar o mais forte estômago.

The Americans – 5×13: The Soviet Division

Um season finale que prepara o terreno em grande estilo para a próxima e derradeira temporada.

O episódio anterior acabou com um cliffhanger intenso, aumentando ainda mais as expectativas para esse season finale. The Soviet Division cumpriu bem o papel de preparar as coisas para a última temporada e ainda investiu nos arcos de alguns personagens secundários, mas que gostamos bastante.

SPOILERS! 

Tuan é um garoto frio, calculista e totalmente doutrinado pela ideologia que defende. Ele não esteva nem aí para a possível morte de Pasha. Para ele, só importava completar a missão. Já Phillip correu o risco de levantar suspeitas quando foi até a casa de Pasha, mas ele claramente não está mais aguentando o peso na consciência. Talvez ele chegasse no limite se o suicídio de Pasha se consumasse.

Que momento fantástico foi a conversa entre Elizabeth e Tuan. Tuan provavelmente faz Elizabeth lembrar de como ela era antes. O diálogo dos dois mostra mais uma vez a qualidade dos roteiristas de The Americans e claro, de Keri Russell. Aposto que Tuan ficou um tanto assustado ao ver Elizabeth profetizando que um dia ele irá falhar se continuar sozinho.

No final das contas, o pai de Pasha parece irredutível em não voltar para a Russia.

Falando em Russia, a grande questão do episódio era a possibilidade de Phillip e Elizabeth encerrarem suas atividades nos Estados Unidos e partirem. Eles levam uma vida praticamente impossível, sempre atentos, sempre vigilantes e ainda criando dois filhos. Mas nos Estados Unidos eles jamais vão passar fome, eles podem jogar uma partida de squash, podem ter um armário repleto de roupas e um futuro promissor para os filhos. Será que vale a pena abandonar tudo isso para viver uma vida incerta na Russia?

Henry provavelmente não terá condições alguma de iniciar uma vida nova em um país tão diferente, ainda mais depois de saber que foi aceito na escola que tanto almejava entrar.

O fato é que a descoberta de que Breland (o pai de Kimmy) vai virar um chefão da divisão soviética da CIA faz com que Liz e Philip repensem tudo. Particularmente, acho estranho esse ser um motivo para fazer com que eles permaneçam nos Estados Unidos. Se eles querem mesmo abandonar o serviço era só passar a informação adiante e a Central arranjar outra pessoa para investir em Kimmy.

Paciência.

The Soviet Divsion teve mais duas coisas bem interessantes.

Foi muito bom ver Martha na Russia aprendendo essa língua tão difícil. E ainda melhor foi ela adotar uma órfã. Martha ficou visivelmente emocionada nessa cena trabalhada com muita sensibilidade. É bom ver que The Americans não esquece de seus personagens, mesmo aqueles que não são tão importantes no momento.

E para finalizar, parece que as suspeitas de Phillip se confirmaram: Renee provavelmente é uma espiã. Coitado de Stan. Essa historinha da casa ser inundada já foi estranha, mas ela dizendo que Stan não deve abandonar o seu trabalho na divisão da contrainteligência foi demais. Mas eu notei que Stan suspeitou de algo. Essa vai ser mais uma questão bem relevante para a próxima temporada.

Enfim, tivemos um episódio digno da qualidade do seriado. Aparou algumas arestas, levantou hipóteses e nos deixou empolgados para a conclusão que se aproxima.

 

Beasts of No Nation

A infância destruída por uma Guerra Civil em algum lugar da África.

feras de lugar nenhum 1

Em alguma nação africana cujo nome não nos é revelado, Agu é só mais uma criança que corre, brinca e apronta. Ele e sua família possuem dificuldades econômicas óbvias, mas o amor está presente e eles se viram da melhor forma possível.

Tudo muda quando irrompe uma Guerra Civil na região. Soldados armados ignoram qualquer resquício de decência e em um piscar de olhos o menino Agu tem sua infância roubada.

Agu foge pela floresta, mas logo é capturado por um grupo de soldados que tem como líder um homem mais velho chamado O Comandante. Se quiser sobreviver, Agu terá que ele mesmo se transformar em um soldado. Passado algum tempo, ele já não é mais o mesmo. Cigarro na boca, álcool no sangue, uma metralhadora na mão e um olhar que demonstra que inocência não faz mais parte dele.

Beasts of No Nation faz um bom trabalho ao adaptar para o cinema o material original. O diretor Cari Joji Fukunaga consegue criar cenas esteticamente belas, mas essencialmente brutais. Várias são as sequências em que sentimos necessidade de desviar o olhar. Isso acontece não por elas serem exageradamente gráficas ou viscerais, mas por vermos crianças e jovens cometendo as atrocidades.

Crianças? Não mais.

O meio fez com que as crianças se transformassem em assassinos. Beasts of No Nation, além de funcionar como obra cinematográfica, é um importante lembrete de uma situação tão triste como essa.

Não bastasse a violência dos conflitos e o vício em drogas, elas ainda acabam sendo vítimas de abuso sexual.

Como vocês podem ver, este é um filme difícil. Mas apesar de tudo, existe sempre um pouco de esperança e conforto em sinceros laços de amizade.

Como a história é contada pelo ponto de vista do garoto Agu, ficamos ainda mais investidos neste personagem. A atuação de Abraham Atta é memorável. Felizmente, ele foi lembrado em importantes premiações como o Film Independent Spirit Awards.

Além disso, o público está aí para enaltecer esse jovem ator e esse filme pesado, mas extremamente relevante.
IMDb