Crítica | Vidro (Glass, 2019)

Saber que Fragmentado fazia parte do mesmo universo de Corpo Fechado foi algo empolgante. Essa empolgação aumentou ainda mais após o anuncio de um filme em que todos esses personagens iriam aparecer juntos. Vidro é o encerramento de uma inesperada trilogia que teve inicio em 2000, numa época em que achávamos que M. Night Shyamalan se transformaria em um grande diretor.

Infelizmente, o indiano tem colecionado mais erros do que acertos em sua carreira e Vidro é mais um filme que se junta ao grupo das decepções. Não há dúvidas de que havia potencial, porém ele foi desperdiçado com tantas escolhas erradas.

David Dunn vai confrontar Kevin Wendell Crumb após este sequestrar quatro garotas e ambos acabam em um hospital psiquiátrico. Quem faz companhia aos dois no hospital é Elijah Price, o Mister Glass. A psiquiatra Ellie Staple vai tentar convencê-los de que eles não possuem qualquer tipo de superpoder.

Shyamalan tenta emular aquela atmosfera de thriller psicológico de Corpo Fechado e falha feio. Quase nada aqui parece autêntico. Os diálogos que comparam o que estamos assistindo com histórias em quadrinhos soam extremamente artificiais.

Falando em artificial, o que dizer da atuação de Bruce Willis? Parece que ele não via a hora das filmagens terminarem para poder aproveitar o seu generoso salário. Nem mesmo ele conseguiu capturar a essência do seu próprio personagem de 19 anos atrás.

Talvez o único ponto positivo em Vidro seja mesmo James McAvoy e seu personagem com inúmeras personalidades. A capacidade do ator em transitar entre elas em questão de segundos é louvável. Ele pode soar ameaçador e monstruoso em um momento e no outro ser tão perigoso como uma inocente criança de 9 anos.

É uma pena que Shyamalan tenha feito decisões reprováveis que vão desde o roteiro até ângulos de câmera. E é claro que há uma reviravolta no final, não é mesmo? Pena que é mais uma daquelas que não fazem muito sentido se analisarmos o contexto da história.

Sinais, Sexto Sentido, Corpo Fechado e até mesmo A Vila foram o ápice de um diretor que aparentemente nunca mais irá de fato nos impressionar.

Nota: 5

Sinais (Signs, 2002)

Mais do que um filme sobre invasão alienígena, Sinais é a história de um homem e sua fé. Após um acontecimento trágico, Graham Hess abandonou a batina e decidiu não perder mais tempo com orações. Ele levava uma vida tranquila com seus dois filhos e o irmão mais novo quando coisas misteriosas começam acontecer na sua fazenda e no mundo inteiro. Animais agem com agressividade e enormes círculos surgem em várias plantações. Quem ou o quê está por trás disso? As revelações são feitas aos poucos e com muito suspense. M. Night Shyamalan usa suas influências com sabedoria e constrói cenas que causam aflição. O diretor consegue criar uma atmosfera de medo quase palpável, quase sempre de um jeito mais sutil. São sons que ouvimos à distância, sombras passando pelo vão das janelas, videos caseiros de outro país e assim por diante. Acompanhamos essa situação apenas a partir da perspectiva da família de Graham Hess. O resto do mundo importa muito pouco aqui. Desde o início conseguimos nos conectar com os quatro. A qualidade dos atores obviamente colabora, mas os diálogos são muito bem escritos e a dinâmica entre eles propicia tanto momentos engraçados como situações com mais carga emocional. Em uma segunda assistida é possível notar pistas sobre quase tudo o que é visto no ato final. Tudo tem um porquê, desde o passado nos campos de basebol de Merrill, a asma de Morgan e a mania de Bo em relação a água. Seriam sinais ou coincidências? Ou como pergunta Graham para o irmão: estamos por nossa conta ou existe alguém nos ajudando?

Nota: 9

Crítica: Demônio (2010)

Demônio, escrito a partir de um texto de M. Night Shyamalan, contém mais erros do que acertos, mas pelo fato de ser curto e contar com alguns sustos eficientes, acaba tornando-se uma experiência tolerável.

Cinco pessoas se encontram presas em um elevador e com um detalhe: uma delas é o capiroto, o tinhoso, o demônio! Simples assim. Melhor deixar o bom senso um pouco de lado quando assistir ao filme.

A ideia de ficar preso em um claustrofóbico elevador já é assustadora por si só, agora imaginem quando pessoas começam a morrer de maneira violenta e a hipótese de que algo sobrenatural esteja acontecendo é levantada. Essa situação tinha tudo para se tornar algo aflitivo, mas o diretor John Erick Dowdle não se mostrou capacitado o suficiente para desenvolver uma atmosfera genuinamente tensa. Gostei do que ele fez em Quarentena (remake americano de [REC]), mas aqui, mesmo com todo o sangue, com a falta de luz e as mortes, faltou alguma coisa.

As atuações em alguns momentos comprometem pela artificialidade. Parece que alguns acham que para transmitir medo basta ficar tremendo a cabeça e abrindo e fechando a boca. Por favor!

Pelo menos existem algumas surpresas interessantes, ainda que em alguns casos sejam um tanto absurdas. A relação de uma das 5 pessoas do elevador com o passado do policial que trabalha no caso é uma coincidência exagerada, mas que proporciona um desfecho enraizado em uma moral cristã que pode funcionar muito bem para alguns.
5/10 

Crítica: A Vila (2004)

Os críticos e boa parte do público pegaram pesado com Shyamalan no lançamento de A Vila. O descontentamento foi grande, principalmente pela reviravolta final que se mostra forçada em uma segunda assistida. Concordo que existem furos no roteiro que comprometem nossa aceitação dos rumos da história, mas nada impede que relevemos algumas situações. Certamente, a jornada valerá muito mais a pena. Com um olhar menos crítico (ou menos ranzinza), é possível mergulhar nessa história que é ao mesmo tempo uma metáfora da política do medo e também uma historinha de bicho-papão em uma escala maior do que estávamos acostumados quando crianças. A maneira com que os anciões fazem todos acreditarem no perigo que representa o simples fato de entrar na floresta é assustadora. Shyamalan, mais uma vez, cria uma atmosfera de tensão utilizando-se de sutilezas, até o momento em que ele julga adequado mostrar um pouco mais. E o momento se mostra sempre correto. Ele é um grande contador de histórias e A Vila é mais uma prova. O diretor não se contenta só em criar um suspense de qualidade e também trabalha temas como o amor, violência e até humor. Para tudo isso funcionar ele conta com um elenco de primeira, encabeçado por Bryce Dallas Horward, Joaquin Phoenix, Adrien Brody e William Hurt. Sinceramente, A Vila oferece quase tudo o que eu espero de um bom filme.
7/10
IMDb 

Crítica: Corpo Fechado (2000)

Logo na primeira cena, M. Night Shyamalan demonstra sutileza e calma para contar uma história interessante. Sem esfregar na nossa cara, ele nos mostra que David Dunn tem problemas no relacionamento com a mulher e também um forte arrependimento de escolhas no passado.
Corpo Fechado é uma grande homenagem ao mundo das histórias em quadrinhos. Temos aqui um homem comum que vai descobrindo ter certos dons, cujo nome e sobrenome começam pela mesma letra (como Peter Parker e Bruce Banner), que quase sempre está de verde e que possui a sua própria “kryptonita”.
O diretor faz essa história absurda parecer algo real. Um dos motivos para isso é o forte apelo humano em cada diálogo e cada atitude dos personagens. Um diálogo específico que me chamou a atenção é aquele que David Dunn diz que a primeira vez que sentiu que o casamento não daria certo, foi quando teve um pesadelo e não quis acordar a mulher para ela dizer que estava tudo bem.
Um clima tenso e melancólico está presente durante quase todo o filme. Somos sugados para esse mundo graças a Shyamalan, que investe em tomadas longas e movimentos de câmera requintados para dar fluidez à história. Este é mais um filme do diretor que melhora com o tempo.

Nota: 9/10
IMDb

Crítica: Fim dos Tempos (2008)

Não quero ser aquele cara chato que procura chifre em cabeça de cavalo, mas o fato é que Fim dos Tempos não é apenas uma história sobre o fim do mundo. Shyamalan aborda o tema do ponto de vista do casal principal, deixando claro que as ações e atitudes deles é o que realmente importa.
Quando as pessoas começam a se suicidar sem motivo aparente desconfia-se de alguma toxina produzida por terroristas, mas logo essa teoria é abandonada e chega-se a conclusão de que as plantas é que estão por trás disso. Sim, é absurdo e até cômico ver os personagens fugindo do vento, mas se você conseguir se desapegar de explicações convincentes é possível fazer parte dessa viagem sentindo uma ansiedade imensa a cada rajada de vento que muda de direção.
Shyamalan soa um tanto panfletário nessa exagerada rebeldia verde. O bom é que isso permite que o cineasta crie cenas de morte chocantes e aflitivas, nos dando a entender que ninguém está imune.
É uma situação apocalíptica de proporções enormes, mas também é importante a crise de relacionamento pela qual o casal passa, algo que culmina com duas cenas de forte carga emocional e que funcionam como uma mensagem de esperança. Claro, se você não se envolveu com o filme até esse momento não vai estar nem aí pra isso e eu não te culpo. Na primeira vez que assisti considerei Fim dos Tempos uma grande bomba, mas essa opinião mudou drasticamente na segunda vez.

nota: 7/10
imdb 

Crítica: O Sexto Sentido (1999)

Mesmo sendo a reviravolta final o grande momento do filme, a impressionante qualidade dele se mantém não importa quantas vezes você o assista. M. Night Shyamalan constrói uma atmosfera de suspense que nos deixa angustiados em diversas cenas. O roteiro funciona tão bem nesse sentido graças ao trabalho inspirado de Bruce Willis, Toni Collette, Olivia Williams e do fantástico Haley Joel Osment.
O fato é que O Sexto Sentido não pode ser considerado apenas um filme de suspense. Shyamalan aproveita a história para mostrar as dificuldades que uma mãe tem para criar um filho sozinha, ainda mais quando ele sofre de um suposto distúrbio psiquiátrico inexplicável e é vítima de perseguições no colégio. Os sustos ocorrem e são sempre competentes, mas momentos mais intimistas como a conversa de Cole com a mãe dentro do carro emocionam e mostram uma faceta de Shyamalan que as vezes é esquecida pela crítica e pelo público.
Detalhes como o uso da cor vermelha em cenas de tensão e as pistas que o roteiro oferece em relação ao desfecho engrandecem ainda mais este filme, que está envelhecendo muito bem e que tem o direito de ser chamado de jovem clássico.

nota: 9/10
imdb 

O que esperar do novo filme de Shyamalan?

Dia 2 de julho estreia nos EUA “The Last Airbender”, o novo filme de M. Night Shyamalan.

O filme é uma adaptação de um desenho chamado Avatar (que nada tem a ver com o filme de James Cameron). Esse desenho parece ter um grande número de admiradores e eu nem sabia da existência dele.

Já fui um grande fã do diretor M. Night Shyamalan, afinal, ele é  o cara por trás de Sinais, O Sexto Sentido, Corpo Fechado e A Vila, que podem não ser obras-primas, mas me agradam profundamente. E aí ele criou A Dama na Água e O Fim dos Tempos. Convenhamos, são filmes que tiraram toda a credibilidade do diretor, nos fazendo duvidar de sua capacidade e até mesmo de sua sanidade mental.

Agora ele vem com este projeto, no mínimo, diferente.

Será que Shyamalan vai conseguir se sair bem num filme repleto de ação, magia, artes marciais e efeitos especiais? São aspectos que até então nunca fizeram parte do mundo do diretor, algo que pode ser uma boa, pois sua ânsia de tentar impressionar o público com histórias de suspense e grandes reviravoltas já está muito desgastada.

Talvez esteja seja a chance de redenção do diretor.

Será que podemos esperar algo minimanente divertido?

Me parece algo decente.

A resposta definitiva, só no meio do ano.