Crítica: O Lobo de Wall Street (2013)

the-wolf-of-wall-street-2013Martin Scorsese já alcançou um nível de excelência no qual não precisa provar mais nada, mas mesmo assim ele nos entrega trabalhos primorosos em curtos intervalos de tempo. O Lobo de Wall Street é mais um feito memorável de um diretor que sabe contar histórias de maneira hipnotizante, além de extrair o máximo de seus atores, que o diga Leonardo DiCaprio, dono de uma atuação monstruosa aqui.

A trama é baseada na história real de Jordan Belfort, um corretor da bolsa de Nova Iorque que desprezava as leis e pisava nos clientes para conseguir cada vez mais dinheiro. Tudo começa com Jordan perdendo o emprego devido a crise de 1987. Após o baque, ele decide fundar a própria empresa, escolhendo pessoas pouco ortodoxas como aprendizes. Rapidamente, a grana começa a entrar e seus dias se resumem a usar os mais variados tipos de drogas, beber e participar de orgias dantescas. Aos poucos, o FBI passa a olhar com mais atenção para Jordan e seus métodos.

O Lobo de Wall Street tem três horas de duração que passam como se fosse duas. Nosso interesse jamais diminuiu. São várias as cenas inusitadas que garantem risadas, seja pelo humor negro ou pelo politicamente incorreto. Vi coisas aqui que nunca vi antes no cinema e me diverti muito. Fica uma dica: o humor é trabalhado de uma maneira pesada e pode chocar os mais facilmente impressionáveis.

E o que dizer de Leonardo DiCaprio? Alguém poderia dar uma estatueta para ele de uma vez? A atuação do rapaz é intensa e corajosa. Seu personagem profere discursos motivacionais tão autênticos que até o público consegue sentir a energia. Como se isso fosse pouco, o ator mostra também muita competência no humor físico quando Jordan sofre os efeitos colaterais de uma droga potente.

Temos aqui uma rara espécie de filme que funciona em todas as frentes, com destaque para as atuações, o roteiro inteligente e crítico e a direção envolvente de Scorsese, que ainda encontra tempo para fazer referência a obras como Monstros (1931), Mágico de Oz, A Primeira noite de Um Homem, A Fantástica Fábrica de Chocolate e Fogo Contra Fogo.

Só não leva 10 por perder o ritmo por um breve período. De qualquer forma, eis aqui um exemplo grandioso de como o cinema pode ser tão fascinante.
9/10

A Origem (2010)


Cotação: 7

Desde quando iniciei o Cultura Intratecal sempre optei por escrever posts com textos curtos e objetivos, afinal vivemos em um mundo cada vez mais dinâmico e todos sabemos que o tempo tornou-se uma preciosidade. Além disso, eu penso: quem diabos sou eu pra escrever linhas e linhas sobre algo que não é minha especialidade? Sim, eu amo o cinema, procuro aprender sobre tudo que envolve a realização de um filme e vejo o maior número de filmes possíveis, mas isso não me torna uma autoridade no assunto. Textos grandes e de qualidade comprovada eu deixo para os críticos de verdade, como o Pablo Villaça, Roger Ebert e o James Berardinelli, por exemplo. Sou um mero apreciador que gosta de fazer comentários a respeito do que assiste, por isso escrevo texto curtos e diretos.

Fiz esse parágrafo para que vocês saibam que eu escrevo sobre filmes sem pretensão alguma.

E sem pretensões de estar certo (esse conceito de certo e errado existe mesmo?) preciso escrever sobre A Origem, o filme do momento. Peço paciência (e coragem), pois é impossível esse texto não ser mais longo do que o habitual.

Primeiro devo dizer que gostei do filme. É um blockbuster com conteúdo e que sem dúvida vale o ingresso do cinema, mas ele está longe de ser uma obra-prima. O próprio Nolan já fez trabalhos bem melhores do que esse, como The Dark Knight e Memento. A ideia principal de A Origem é extremamente criativa e empolgante, mas Nolan errou ao transformar um belo exemplar de ficção científica em um filme de ação cansativo.

Não entendo esse endeusamento. Será que eu sou o único que teve dificuldades em suportar as cenas de ação pra lá de longas? Li um crítico que disse que os sonhos de Nolan parecem ser dirigidos pelo Michael Bay e ele não está longe da verdade. Aquelas cenas na neve mais parecem um filme do James Bond, só que sem a classe e qualidade do mesmo.

Nolan merece aplausos por transformar uma ideia complicada em algo bem acessível. Se você prestar atenção na tela não terá dificuldades em entender toda a ideia dos 3 níveis de sonho (mais o limbo) e essa é a parte que merece aplausos. Agora, 90% do filme é ação, tiros e explosões para todo o lado. Tirando a sequência no hotel sem gravidade, as outras podem levar qualquer um a um sono profundo.

Mas e a história?

Cobb (Leonardo DiCaprio) é o líder de um grupo que invade os sonhos das outras pessoas em busca de seus segredos. Arthur (Joseph Gordon-Levitt) é o seu principal parceiro nessas atividades. Nas cenas iniciais do filme aprendemos como funciona todo esse procedimento e é algo bem estimulante.

Eles recebem uma proposta de Saito (Ken Watanabe). Em vez de roubar, Saito quer que eles plantem uma ideia na mente de Robert Fischer (Cillian Murphy), filho de um bilionário que está prestes a morrer. O que Saito quer é que Fischer decida dividir o império do próprio pai.

Para realizar essa tarefa complicada, Cobb pede auxílio a Eames (Tom Hardy), Yusuf (Dileep Rao), um químico capaz de fazer um sedativo extremamente potente e Ariadne (Ellen Page), a nova arquiteta do mundo dos sonhos.

Não me perguntem qual a importância de que Fischer divida o império do pai, Nolan realmente não faz questão que saibamos o motivo disso. Na realidade, é apenas uma desculpa para que a concepão do sonho dentro do sonho dentro do sonho comece. Sem problemas.

Cobb mostra para Ariadne o trabalho que ela vai ter que executar. Ver a garota explorando todas as possibilidades dos sonhos é um dos grandes momentos do filme e é algo que faz falta no resto da projeção.

Ok. O próprio roteiro faz questão de nos informar que, para que o roubo de segredos e a inserção funcionem, o mundo dos sonhos deve ser o mais parecido possível com o mundo real. Mas caramba. Qual a graça de ver um sonho quase 100% igual ao mundo real?

Queria ser brindado com mais cenas, como aquela em que Ariadne literalmente coloca a cidade de cabeça para baixo. Isso sim é um sonho de verdade, isso sim é empolgante.

Mas não. Nolan preferiu criar essa regra do sonho mais real possível e acabou com minha alegria.

De qualquer forma, há algo de extrema genialidade em A Origem (além da ideia original), tanto da direção, como da montagem. A maneira como os três sonhos são sincronizados desde a metade do filme até o clímax é de uma beleza única. A trilha sonora de Hans Zimmer e a entrega desses excelentes atores contribui para que tudo funcione direitinho, só que, infelizmente, não houve possibilidade de criarmos uma conexão emocional com esses personagens. Se um deles morresse não iria fazer diferença pra mim.

Cada nível de sonho dura um tempo específico no tempo real e a forma como conseguiram deixar tudo isso compreensível para o público é digno de nota. Alguém já viu algo tão ambicioso assim antes? Por isso que A Origem merece reconhecimento, mas deve-se ter calma.

Ele não é tão complexo como alguns fazem questão de afirmar e a ação é extremamente cansativa. Eu poderia passar umas 4 horas assistindo as cenas de ação de Matrix, mas foi difícil aguentar as duas horas e meia de tiros, perseguições e explosões em A Origem.

Se Nolan explorasse melhor os seus personagens (só Cobb é satisfatoriamente desenvolvido), se adicionasse um pouco de humor e cortasse uns 20 minutos de ação estafante, aí sim eu concardaria em chamar A Origem de obra-prima.

Ano passado houve um excesso em relação a Avatar e está acontecendo agora com A Origem. É óbvio que o filme de Cristopher Nolan é umas 10x melhor que o filme de James Cameron, mas isso não fez dele a última coca-cola do deserto, se é que vocês me entendem.


Título original:
Inception
Ano: 2010
País: EUA
Direção: Cristopher Nolan
Roteiro: Cristopher Nolan
Duração: 148 minutos
Elenco: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dlieep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Marion Cotillard, Pete Postletwaite, Michael Caine

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/bruno knott