Crítica: Os Descendentes (2011)

Em um dado momento de Os Descendentes Matt King (George Clooney), em uma narração em off, nos diz que a família é como um arquipélago: os membros fazem parte de um mesmo todo, mas individualmente, cada um é uma ilha isolada se afastando cada vez mais.

Não é segredo para ninguém que existe um ar novelesco em Os Descendentes, mas no melhor sentido possível.

Aqui temos um homem enfrentando as dificuldades de cuidar das duas filhas, após a esposa sofrer um acidente de barco que a levou ao coma. Paralelo a isso, ele deve decidir a venda de um grande pedaço de terra do Havai, que está na sua família há séculos.

Assisti ao filme sem ter lido nada sobre ele e acredito que ele fica mais interessante quando somos pegos de surpresa por algumas reviravoltas. Portanto, não estragarei a experiência de ninguém com spoilers.

Este é um drama familiar dirigido com bastante segurança por Alexander Payne. A ideia de um pai distante que deve agora se aproximar das filhas pode não ser original, mas a maneira como essa situação é retratada aqui é das mais comoventes. Simplesmente entrei na história e me importei com as ações de cada personagem, algo que é favorecido pela ótima atuação de Clooney e de Shailene Woodley. Até mesmo o personagem Sid, que a princípio parece uma tentativa frustrada de se fazer humor, acaba nos conquistando de uma maneira misteriosa.

Apesar da família muito rica vivendo no Havaí, a essência do filme é algo que se aproxima de todos nós. É doloroso demais ter um familiar em uma situação dessas, ainda mais quando muita coisa ficou sem ser resolvida, tanto da parte do marido como da filha mais velha. Além disso, a venda ou não das terras permite a Matt King pensar sobre suas raízes, sobre toda uma história da família que está por trás das terras, mesmo que o ponto de partida para isso seja uma simples vingança.

Os Descendentes oferece boas doses de emoção, sem nunca ser melancólico. É um daqueles filmes que você torce para durar mais, mesmo não sendo tão curto.
9/10

RECOMENDADO PARA QUEM… está a procura de um drama familiar de qualidade, com um pouco de humor.

Além da Linha Vermelha

Título original: The Thin Red Line
Ano: 1998
Diretor: Terrence Mallick

O diretor Terrence Mallick tem praticamente 40 anos de carreira, mas apenas 5 filmes realizados. Isso mostra que ele não faz filmes apenas por fazer. Quando inicia um trabalho, Mallick se dedica completamente a ele, criando obras que sempre trazem um significado. Em Além da Linha Vermelha ele utilizou vários atores importantes do cinema para mostrar um pouco do que foi a campanha do Pacífico na Segunda Guerra Mundial. John Travolta, Sean Penn, Jim Caviezel, Adrien Brody, John Cusack, George Clooney e Woody Harrelson são alguns dos nomes que fazem parte deste elenco de respeito.

É um filme de guerra, mas a abordagem é um pouco diferente do que estamos acostumados. O ritmo é peculiar. Mallick nos conduz pela história de cada soldado sem pressa alguma. Existem narrações em off de vários personagens. Elas mostram o sentimento deles em relação a guerra, ao inimigo e a raça humana como um todo.. Fui completamente absorvido por este filme de guerra intimista, que tem um trabalho fantástico de fotografia de John Toll. Ele explora muito bem os cenários naturais, concebendo imagens belíssimas com um ar poético.

As batalhas são poucas, mas quando acontecem mostram toda a habilidade de criação de Terrence Mallick. Ele as filma de uma maneira elegante e empolgante, como um ballet de tiros e sangue. Além da Linha Vermelha tem suas falhas, como o roteiro que basicamente vai do nada a lugar nenhum, mas é uma experiência única e arrebatadora, se você entrar no clima.

Nota: 9

Amor Sem Escalas

Título original: Up In The Air
Ano: 2009
Diretor: Jason Reitman

Ryan Bingham (George Clooney) tem um emprego complicado. Ele é contratado para fazer demissões. Quando um chefe não tem coragem suficiente para demitir seus próprios empregados ele recorre a pessoas como Ryan. Acompanhamos várias demissões realizadas por ele e percebemos que não é fácil. A reação dos demitidos varia, mas todas são passadas de uma maneira extremamente convincente, mesmo porque alguns não são atores de verdade, são pessoas comuns compartilhando um dos piores momentos da vida.  No mínimo, tocante. Ter esse emprego faz de Ryan um viajante. Ele é um colecionador de milhas aéreas e é muito interessante acompanhar a rotina dele nos aeroportos e nos hoteis. Isso tudo faz Ryan ser como é. Um cara que quase não para em casa e que não tem tempo para criar conexões fortes com alguém. Ele não tem mulher, não tem filhos e está feliz assim.

Sua rotina tão amada está prestes a virar passado, pois Natalie Keener – uma nova funcionária da empresa – tem uma ideia que vai aumentar os lucros: ao invés de viajar até uma cidade distante para demitir alguém, porque não fazer isso via internet, por uma video conferência? O Chefe gosta da ideia e está irredutível. Mas antes, ele pede para Ryan treinar a moça da maneira antiga, isto é, frente a frente com demitido.

Vamos lá. Primeiramente quero dizer que aproveitei cada minuto desse filme. Sabe quando nem vemos o tempo passar? Aconteceu comigo aqui. Ele é tão agradável, feito com tanta inteligência e habilidade que você tem que se render a ele. Muitas coisas são abordadas, desde ironias relacionadss a ambição sem limites que temos no trabalho, como situações que nos fazem pensar sobre a nossa própria vida. Será que fazemos o que gostamos? Estamos felizes? É importante ter alguém ao seu lado para compartilhar experiências? Ele consegue nos fazer rir e nos emocionar de uma maneira sincera.

George Clooney merece ser indicado ao Oscar, pois o que ele conseguiu em Amor Sem Escalas é algo espetacular. Um exemplo é a cena em que ele tem que incentivar o seu cunhado a casar, mesmo indo contra a sua filosofia de vida. Percebam as discretas reações do Clooney quando o cunhando fala do que o aguarda após um casamento. Excelente. As músicas ajudam a aumentar a qualidade das cenas, pois foram colocadas de maneira precisa, nos momentos certos.

É um feel good movie? Não exatamente, mas é difícil não sair com um sorriso da sessão.

Nota: 9

– Por B. Knott