Aurora (Sunrise: A Song of Two Humans, 1927)

sunrise-poster-1927Na primeira cerimônia do Oscar, em 1929, haviam duas categorias principais: melhor filme – produção, que premiou Asas e melhor filme – produção única e artística, que teve como vencedor Aurora. Enquanto Asas envelheceu mal, Aurora nunca perdeu a força, sendo considerado por muitos como o filme mais bonito já feito.

O diretor alemão F.W. Murnau foi contratado por William Fox com total liberdade criativa para o seu primeiro trabalho em Hollywood. Ainda que Aurora tenha decepcionado nas bilheterias, ele continua agradando aos críticos a aos cinéfilos que não tem medo do cinema mudo. É curioso notar que Aurora foi lançado no ano que marca o auge e o declínio do cinema sem diálogos. A maturidade artística foi alcançada de maneira brilhante, mas o público preferia assistir aos filmes falados que começavam a surgir.

O que mais chama a atenção em Aurora é o seu espetacular visual, que conta com movimentos de câmera considerados quase impossíveis para época e que ajudam a deixar a fotografia ainda mais bela.

Temos aqui um homem que é influenciado pela amante para afogar a esposa. Na hora H ele se arrepende e passa um dia romântico com ela, com algumas surpresas pelo caminho. O roteiro pode parecer simples, mas ele trabalha com um assunto significativo de uma maneira que vai ganhando em emoção. É incrível também como Murnau muda o tom do filme em vários momentos: há um forte suspense na cena da barbearia e muito humor na sequência do porquinho bêbado, só para citar alguns exemplos.

Havia uma chance de tornar Aurora a maior tragédia do cinema, porém os roteiristas optaram por um previsível final feliz. Tudo bem, isso é o de menos. Eis aqui uma daquelas experiências grandiosas que só o cinema de qualidade pode oferecer.
9/10

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Uma Ponte Longe Demais (1977)

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Uma Ponte Longe Demais reconta uma tentativa frustrada dos aliados de tomar pontes na Holanda e Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Essa gigantesca campanha militar ficou conhecida como operação Market Garden. Vários atores de renome estão presentes, como James Caan, Michael Caine, Sean Connery, Gene Hackman, Anthony Hopkins, Robert Redford, Ryan O’Neal e Liv Ullmann. São tantos que falta tempo para todos se destacarem, mas James Caan possui uma cena particularmente intensa e emocional e Michael Caine demonstra bons exemplos do humor britânico. A duração de quase três horas é exagerada, afinal são muitas as cenas que se alongam demais sem que algo de relevante aconteça. De qualquer forma, os milhares de figurantes, os cenários, a violência nua e crua e os efeitos especiais competentes nos dão a sensação de que fazemos parte do conflito. Há bastante suspense também, principalmente na sequência em que o personagem de Sean Connery encontra-se preso atrás das linhas inimigas. É impressionante como o filme vai mudando de tom no decorrer de sua longa duração. A crueldade promovida pela guerra nunca é esquecida, mas são nas últimas cenas que a mensagem antibelicista se torna mais evidente. Uma Ponte Longe Demais é, sem dúvida, um excelente (e subestimado) filme de guerra.
8/10

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kinopoisk.ru

…E O Vento Levou (1939)

Finalmente pude assistir as quase quatro horas deste épico americano e devo dizer que foram horas muito bem empregadas. …E O Vento Levou é o maior exemplo de como um épico deve ser. A história se passa durante a Guerra da Secessão e ficamos no ponto de vista dos sulistas, mais especificamente, da grande personagem do filme: Scarlett O’Hara (Vivien Leigh). É difícil definir se Scarlett é heroína ou vilã, mas o fato é que trata-se de uma mulher que enfrenta uma drástica mudança no rumo da sua vida, demonstrando uma impressionante força de vontade para se adaptar as novas situações. A atuação de Vivien Leigh é daquelas para ser admirada eternamente. O filme levou 8 Oscar em 1940 e é claro que Leigh recebeu a merecida estatueta de melhor atriz. No filme podemos encontrar muita coisa, desde romance, guerra, mortes, até momentos de humor e muito mais. Impossível não celebrar também um dos maiores êxitos da obra, a belíssima fotografia. Não dá para discordar, não é?

O objetivo maior do post era mesmo demonstrar a beleza dessa fotografia, tão admirada pelos amantes do filme e do cinema em geral.

Crítica: Poder sem Limites (2012)

Não costumo me alongar muito nos comentários que faço aqui no blog, mas este Poder Sem Limites levanta questões que permitem discussões mais prolongadas, seja pelo lado ousado de sua técnica ou pela própria essência do seu roteiro.

Poder sem Limites traz ares de novidade para os muito explorados filmes de super-heróis e também para os filmes que tem um jeitão de documentário, em que a pessoa que está por trás da câmera faz parte da história, como A Bruxa de BlairCloverfield e [REC].

Aqui temos três jovens americanos típicos. Andrew é magrelo, sofre bullying na escola, convive com o pai alcoólatra que jamais hesita em desferir uma bofetada em sua orelha, por menor que seja o motivo, além de ter que enfrentar a tristeza da perda iminente da mãe doente. Matt é primo de Andrew, curte filosofia e tenta uma aproximação com AndrewSteve é o cara popular, descolado, bom em esportes e em se fazer admirado pelos outros.

Andrew compra uma câmera e resolve sair filmando qualquer coisa que lhe interesse, atitude que deixa o garoto ainda mais propenso a ser sacaneado pelos valentões da escola. Os três vão a uma festa rave, evento um tanto atípico na rotina de Andrew. Nos arredores do local eles descobrem uma passagem no chão que os deixa frente a frente com um cristal estranho e barulhento. Após entrarem em contato com esse objeto misterioso eles percebem que podem controlar objetos com a força do pensamento. Sim, estamos falando de um cristal luminoso que confere o poder da telecinésia para quem o toca.

Piração demais? Pode ser, mas de vez em quando é justamente isso que faz o cinema ser algo tão fascinante: oferecer uma oportunidade escaparmos das leis que regem nosso universo.

Esse estilo de nos mostrar o ponto de vista do personagem funciona muito bem em Poder sem Limites, afinal logo no começo do filme já somos capazes de nos sentir dentro dos acontecimentos, de uma maneira parecida com Cloverfield, mas com uma filmagem menos nauseante. Isso é possível e explicado pelo próprio roteiro, já que o poder da telecinésia permite que Andrew posicione a câmera no ângulo que quiser e sem tremedeiras.


O que também nos aproxima da história é o fato dos personagens serem pessoas reais e tomarem decisões verossímeis, pelo menos para a idade deles. Pensem, um adolescente que acaba de descobrir que possui poderes vai combater o crime ou se divertir? As cenas que mostram os três garotos usando a telecinésia para assustar crianças no mercado, levantar a saia de garotas e mudar um carro de posição para deixar a dona perdida são hilárias. Nesse momento de diversão com os poderes não há nada mais interessante do que voar. Essa sequência pode não ser tecnicamente um primor, mas consegue nos deixar nas nuvens com eles, sentindo toda a adrenalina da situação, algo que só é possível pela filmagem semi-documental.

Mas nem tudo são flores. É evidente que nem todos estão preparados para serem super-heróis. A angústia e a raiva interna de Andrew aos poucos vai ganhando contornos extremamente perigosos. A atuação de Dane DeHaan é um dos motivos do filme ser tão bom. Em menos de 85 minutos somos capazes de sentir pena dele, de rir de suas brincadeiras e de temer pelas suas atitudes.


Não há mais o que falar sem entregar spoilers. Só adianto que a medida que o desfecho se aproxima a ação aumenta em proporções épicas. Uma falha de Poder Sem Limites é a falta de explicações plausíveis para que todos os personagens estejam carregando uma câmera na hora certa, no lugar certo, como a garota que resolve filmar tudo por ter um blog. Sorte que a maioria das filmagens são feitas por Andrew e aí sim temos uma maneira original e orgânica de explicar as gravações.

Eis um filme original, cheio de energia e força. Apesar do final abrir espaço para continuações, existe uma resolução que fecha muito bem quase todas as arestas. O diretor Josh Trank certamente ganhou muita moral com este filme. Parece que ele estará por trás de O Quarteto Fantástico e tudo indica que ele vai realizar mais um grande trabalho.

                                                                                                                                     [ 8/10 ] 

 

 


Screencaps: O Artista

Uma experiência nostálgica e tocante. O Artista é prova de que o cinema ainda tem muito a nos oferecer. Quem diria que em pleno século 21 presenciaríamos a estreia de um filme mudo e em preto e branco de tanta qualidade? Tem tudo para levar o Oscar deste ano e para se transformar em um clássico atemporal, com justiça.

Andrei Tarkovsky

Desde quando criei o Cultura Intratecal faço perfis de diretores que admiro bastante. Os primeiros foram de Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick, agora chegou a vez do cineasta russo Andrei Tarkovsky. Aqui você poderá ler sobre a vida de Tarkovsky e também comentários meus sobre cada um dos seus filmes, que estão colocados em ordem de preferência. Não há dúvidas que Tarkovsky é um dos diretores mais importantes de todos os tempos. Para Ingmar Bergman, por exemplo, ele foi simplesmente o maior.

BIOGRAFIA
Nascido na vila de Zavrazhye em Ivanovo Oblast, Rússia, em 4 de abril de 1932, filho do peota russao Arseny Tarkovsky e de Maria Vishnyakova, formada em literatura. Foi descrito como uma criança ativa e popular, cheia de amigos. Em 1937 o pai deixou a família e em 41 foi para a guerra. Foi morar com a mãe em Moscou. Aprendeu a tocar piano e frequentava a escola de arte. Em 1947 sofreu de tuberculose. 
Em 1954 matriculou-se na VGIK para estudar cinema, local que conheceu a futura esposa, Irma Raush. Assistiu a vários filmes de Bergman, Kurosawa, Buñuel e Robert Bresson. Dirigiu o primeiro filme em 1956, uma adaptação de um conto de Ernest Hemingawt chamado The Killers. Morreu em 29 de dezembro de 1986 em Paris, devido a um câncer pulmonar.

ESTILO
Tarkovsky é um daqueles cineastas que tem um marca própria. Assim como acontece com os filmes de Kubrick, saber que você está assistindo a um filme de Tarkovsky é fácil. Ele era um diretor que não tinha pressa. Sempre utilizou longas tomadas, explorando a beleza da fotografia de uma maneira sem igual. Todos os seus filmes não terminam com a última cena, quer dizer, você inevitavelmente vai pensar sobre eles, vai tentar decifrar o que Tarkovsky quis dizer ou simplesmente vai discutir com alguém sobre os inúmeros temas vitais que ele aborda. Às vezes os seus filmes exigem um pouco de paciência, mas uma vez que você se acostuma com estilo dele, vai entender o porque de ele ser considerado um dos grandes mestres do cinema.

FILMOGRAFIA COMPLETA
O Sacrifício (Offret, 1986)
Nostalgia (Nostalghia, 1983)
Tempo di viaggio (documentário para TV, 1983)
Stalker (Сталкер, 1979)
O Espelho (Zerkalo, 1975)
Solaris (Solyaris, 1972)
Andrei Roublev – O Artista Maldito (Andrey Rublyov, 1966)
A Infância de Ivan (Ivanovo detstvo, 1962)
The Steamroller and the Violin (Katok i skripka, 1961)
There Will Be No Leave Today (curta-metragem, 1959)
The Killers (curta-metragem, 1956)

REVIEWS  (em ordem de preferência)
1 Stalker (Сталкер, 1979)

Tarkovsky faz da Zona um local com uma atmosfera opressiva, perigosa. Trata-se de uma área natural gigante, mas que possui alguns objetos que a tornam assustadora, como tanques enferrujados, seringas, símbolos religiosos na água e assim por diante. O diretor russo cria imagens de beleza extrema. É possível apertar o pause em qualquer cena que você terá uma verdadeira obra de arte. As longas tomadas e os movimentos de câmera peculiares de Tarkovsky nos passam a ideia de que estamos vendo um sonho. Somos hipnotizados por aquele mundo. Antes de tentar compreender o filme, devemos senti-lo, pois ele é nada mais nada menos do que poesia visual. É claro que existem várias discussões aqui, algumas filosóficas. Primeiro, o que é A Zona? O resultado de um meteorito? Algo feito por seres alienígenas? E o que leva as pessoas a se arriscarem lá dentro? Autoconhecimento, desejo de aventura ou a simples ambição de ter seus desejos realizados? As conversas dos personagens parecem sem propósito, mas na verdade estão cheias de significado. Um deles se pergunta sobre a arte, sobre a música, sobre o altruísmo e sobre a fé. Enfim, uma reflexão sobre o ser humano e sua relação com o mundo. Afinal, o que estamos fazendo aqui? Podem ser perguntas sem respostas, mas deve-se aplaudir um filme que faz esses questionamentos e nos deixa pensando sobre o assunto.
/mubi

2 O Sacrifício (Offret, 1986) 

Há um clima de melancolia por todo o filme que é reforçado pela fotografia espetacular do habitual colaborador de Bergman, Sven Nykvist e pelo local onde o filme foi filmado, a ilha de Gotland, próxima da famosa ilha Faro dos filmes de Bergman. O personagem principal tem longos monólogos em que ele fala sobre o medo da morte, sobre o fato de passar a vida esperando algo acontecer e sobre o sentimento de que existe algo errado com a civilização, tão errado que não há mais tempo para consertar. Assim como os personagens, somos surpreendidos pelo início de uma provável terceira Guerra Mundial e a única maneira de evitar o fim do mundo é o tal sacríficio do título, que não revelarei, apenas digo que envolve uma feiticeira local.  O filme nos faz pensar sobre o quão difícil é não fazer aquilo que realmente queremos e como somos impotentes perante a dura realidade da vida. De qualquer forma, há uma mensagem de esperança no fim de Sacríficio, o último filme de Tarkovsky.
/mubi 

3 Andrei Roublev – O Artista Maldito (Andrey Rublyov, 1966)

Talvez este seja o filme mais ambicioso do diretor. É a visão de Tarkovsky sobre a vida de Andrei Roublev, um pintor de ícones religiosos que viveu no fim da idade média. Trata-se de um verdadeiro épico mediavel com 3 horas e meia de duração, dividivo em 8 capítulos. Cada capítulo mostra situações e acontecimentos que influenciaram Roublev e que também são retratos da História da Russia. Por ser longo é natural que seja um pouco cansativo, mas é tão belo que não há como não se admirar. O preto e branco reforça ainda mais essa beleza única.
/mubi 

4  A Infância de Ivan (Ivanovo detstvo, 1962)

O filme mais acessível de Tarkovsky nos mostra a participação do garoto Ivan na Segunda Guerra. É uma reafirmação sobre a crueldade e imbecilidade da guerra, que serve apenas para destroçar famílias e sonhos pessoais. A Infância de Ivan é sobre a perda precoce da inocência, sobre uma criança que ao invés de brincar de esconde-esconde e admirar a beleza de uma borboleta, ajuda o exército a reconhecer o território inimigo. É um material bem forte, que ainda conta com uma cena extremamente tensa e cheia de suspense que envolve uma travessia de barco em uma escuridão sufocante.
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Solaris (Solyaris, 1972)

Considerado um filme preparatório para a realização de Stalker, Solaris é uma ficção científica contemplativa e de ritmo lento. O mistério está presente do começo ao fim. O que está por trás de Solaris? É algo feito por seres humanos, por aliens ou algo além disso? Ele levanta algumas questões filosóficas, mas não as responde. Um personagem fala que felizes são aqueles que não se questionam sobre coisas importantes, o que dá uma boa ideia sobre o clima do filme. De qualquer forma, ele exige bastante atenção, pois não é fácil de ser absorvido. Em alguns momentos, ele traz a mesma sensação de ler Dostoievski bêbado.
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6 O Espelho (Zerkalo, 1975)

Imagens fortes, poderosas e cheias de simbolismos são usadas para Tarkovsky contar a história de um homem que relembra toda a sua vida. Salta aos olhos o teor autobiográfico do filme, que muitas vezes é bem confuso  graças a uma mistura um tanto caótica de flashbacks, filmes históricos e poesias recitadas. Este é daqueles que pede mais do que uma assistida, mas o que dá para percerber e elogiar logo de cara é o poder de Tarkvosky de criar cenas poderosas, que ficam potencializadas por uma trilha sonora clássica e proporcionam uma experiência espiritual.  É considerado por muitos o trabalho mais impenetrável do diretor, algo que concordo.
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7 Nostalgia (Nostalghia, 1983)

Nostalgia também não é uma experiência fácil de ser compreendia. É sobre um poeta russo que viaja até a Itália para pesquisar a vida de um compositor russo do século 18. O destaque aqui também são as imagens e o grande teor metafórico de algumas cenas, mas é o único filme do diretor que não me comoveu tanto, apesar do trágico final.
/mubi 

 

CURIOSIDADES
– Em quase todos os seus filmes há uma cena com o som de água pingando.

– Segundo ele, crianças entendem seus filmes melhor do que adultos.

– Gostava dos filmes de Bergman e de Kurosawa.

– Foi membro do júri no festival de Veneza em 1982.

– Dos seus filmes, o que menos gostava era Solaris

QUOTES
“My purpose is to make films that will help people to live, even if they sometimes cause unhappiness”.

“The only condition of fighting for the right to create is faith in your own vocation, readiness to serve, and refusal to compromise”.

“An artist never works under ideal conditions. If they existed, his work wouldn’t exist, for the artist doesn’t live in a vacuum. Some sort of pressure must exist. The artist exists because the world is not perfect. Art would be useless if the world were perfect, as man wouldn’t look for harmony but would simply live in it. Art is born out of an ill-designed world”.

PRÊMIOS
1988: 
BAFTA de melhor filme estrangeiro, por O Sacríficio.
1986: FIPRESCI, grande prêmio do júri, prêmio do júri ecumênico no Festival de Cannes, por O Sacríficio.
1983: Melhor diretor, prêmio FIPRESCI, prêmio do júri ecumênico no Festival de Cannes, por Nostalgia.
1980: Prêmio do júri ecumênico no Festival de Cannes, por Stalker.
1972: Prêmio FIPRESCI, grande prêmio do júri no Festival de Cannes, por Solaris.
1969: Prêmio FIPRESCI no Festival de Cannes, por Andrei Roublev – O Artista Maldito.
1962:
Prêmio Golden Gate, no festival de São Francisco por A Infância de Ivan

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/Qual o seu Tarkovsky favorito e por quê?

Crítica: Deixe-me Entrar (2010)


Me assustei quando li que um remake do sueco Deixe Ela Entrar seria feito. Eu pensava que a empreitada serviria apenas para arrecadar uns dólares e, inevitavelmente, estragar algo que já era excelente. Que surpresa! O resultado é quase tão bom quanto o original. Bom saber que um excelente filme sobre vampiros ainda pode ser feito nos Estados Unidos.

Deixe-me Entrar nos apresenta a Owen (Smith-McPhee), um garoto magrelo e sensível, vítima de um forte bullying no colégio. Sem muitos amigos, ele se aproxima de Abby, uma garota que acaba de se mudar para o mesmo prédio em que ele vive. Owen aos poucos percebe que Abby não é uma garota comum. A verdadeira identidade dela é desvendada aos poucos, sem pressa, com algum mistério, suspense e muito sangue. O diretor Matt Reeves impõe ao filme um clima melancólico e perigoso, investindo em uma fotografia escura e cenas fortes, que colaboram para a dramaticidade da história.

É um remake que captura a essência do original, copiando algumas cenas, mas também trabalhando novos aspectos que lhe dão vida própria. Como exemplo, cito a aterrorizante sequência do banheiro. Reeves oferece um suspense digno de alguém que sabe o que faz atrás da câmera. O diretor também soube, de maneira exemplar, apresentar muitas características que fazem parte da mitologia do vampiro. Prato cheio para quem gosta do tema. Claro que Chloe Moretz e Kodi Smith-McPhee também foram muito importantes para que o filme funcionasse, principalmente Moretz, que só com o olhar consegue revelar toda a tristeza e experiência de Abby. Até agora você só leu elogios, certo? A única falha que posso encontrar é o fato de Deixe-me Entrar não ter um ar poético tão eficiente como tem o filme sueco. A diferença pode ser vista na cena da piscina. Enquanto no americano ela é competente e merecedora de elogios, no sueco ela é uma mistura de violência e arte raramente vista no cinema. Mas aí era pedir demais…

Título original: Let Me In
Ano: 2010
País: USA
Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves
Duração: 116 minutos
Elenco: Chloe Moretz, Kodi Smith-McPhee, Richard Jenkins, Cara Buono, Elias Koteas,

/ deixe-me entrar (2010) –
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Crítica: Inverno da Alma (2010)


Inverno da Alma é daqueles filmes que não tem um grande orçamento, mas que tem resultados acima da média. A história é simples, mas com bastante potencial para a personagem principal se destacar, que é o que ocorre. Ree (Lawrence) é uma garota que vive no sul dos Estados Unidos e está cheia de problemas e obrigações. Ela cuida de uma irmã e um irmão pequeno, além da mãe debilitada. O pai de Ree não cumpre com suas obrigações judicias, desaparecendo do mapa. Se continuar sumido, a família perderá a casa penhorada por ele. Agora Ree tem mais uma tarefa: encontrar o pai.

A busca fica cada vez mais complicada. Ree aborda algumas pessoas da região e logo descobre que está mexendo em um vespeiro. Um violento interior dos Estados Unidos é mostrado. Um lugar desolador, que não permite fraqueza e que parece ter uma lei própria. Um deslize pode custar muito caro, coisa que Ree percebe rapidamente. Jennifer Lawrence está brilhante, demonstrando toda a força interior da personagem, não esquecendo do seu lado mais frágil. Inverno da Alma cria uma personagem incomum e memorável. Ao mesmo tempo que demonstra uma vontande irredutível de encontrar o pai e resolver toda a situação, ela ainda ensina coisas imporantes aos irmãos, como se quisesse prepará-los para o mundo nada amistoso que os aguarda.

Com um ritmo desacelerado, o filme trabalha muito bem a atmosfera brutal em que os personagens estão envolvidos. O resultado tem ar de thriller, ainda que seja de um jeito mais silencioso e frio do que o que estamos acostumados a ver por aí. Outro trunfo de Inverno da Alma é a capacidade de manter imprevisível o resultado da busca. Pode não ser um trabalho tão bom como uma indicação ao Oscar teoricamente deveria sugerir, mas é sempre reconfortante saber que filmes que investem bastante em seus personagens continuam sendo feitos.

Título original: Winter’s Bone
Ano: 2010
País: USA
Direção: Debra Granik
Roteiro: Debra Granik, Anne Rosellini
Duração: 100 minutos
Elenco: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Lauren Sweetser, Garret Dillahunt

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Crítica: 127 Horas (2010)


O aventureiro Aron Ralston (James Franco) pega seu carro e dirige para fora da cidade, indo em direção da natureza composta por Canyons e um clima árido. No caminho, ele fala para a própria câmera: Apenas eu, a noite e a música. Amo isso! Já podemos ter uma noção sobre o personagem. Danny Boyle filma os primeiros minutos do filme empregando muita energia, sempre acompanhado pela trilha sonora de A.R. Rahman. Ver Aron voando baixo com sua bicicleta em meio a uma paisagem tão bonita e se sentindo livre é um antagonismo gritante com o que vem a seguir.

O filme é baseado em uma história real. Ele mostra como Aron ficou com o braço preso em uma enorme rocha, no meio de uma fenda. Com a quantidade de água que ele tem, restam apenas 127 horas de vida. E é isso. O que poderia ser algo cansativo, torna-se uma experiência memorável nas mãos de Danny Boyle. Com um excelente trabalho de fotografia e, claro, uma atuação soberba de James Franco, nos colocamos no lugar do personagem e compartilhamos todos os sentimentos e aflições dele.

James Franco poderia ter desandado para um overacting, mas ele soube muito bem o que fazer. Durante o tempo que fica com o braço preso, Aron relembra certos aspectos da vida que poderia ter feito diferente e pensa sobre alguns erros que cometeu, como não dizer para onde ia e esquecer uma garrafa de gatorade no carro. O monólogo em que ele cria um tipo de talk show para se manter são é uma das grandes cenas do ano. Apesar do clímax gráfico e macabro, 127 Horas é um filme que afirma a vida a todo custo. A superação de Aron Ralston pode servir como motivação para vencermos nossos próprios problemas, que esperamos que não sejam tão complicados como o dele foi.

Título original: 127 Hours
Ano: 2010
País: USA / UK
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Danny Boyle, Simon Beaufoy
Duração: 94 minutos
Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn

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* Fui presenteado com um selo pela Amanda, do blog CinePipocaCult, fato que me ajuda a manter a motivação de ter um blog sobre cinema. Obrigado.

Nome: Bruno Knott
Uma música: Edmonton (Rural Alberta Advantage).
Humor: Autodepreciativo.
Estação: Carandiru.
Como prefere viajar: THC.
Um seriado: Six Feet Under.
Uma frase dita por você: Quero a capacidade de fugir do óbvio.
O que achou do selo: Sinto-me honrado por ter recebido e feliz por indicar esses ÓTIMOS blogs:

O Brado Retumbante

By Star Filmes

Fred Burle no Cinema

Pós.Première

Cine Capsulas

Crítica: Cisne Negro (2010)


Quando você for assistir a Cisne Negro prepare-se! Não é um filme comum. É uma viagem perigosa e eletrizante. É daquele tipo de filme que te hipnotiza, que faz o teu coração palpitar, que te assusta, que te enche de adrenalina e te comove até o instante final. O tempo voa, mas você quer permanecer o máximo de tempo possível na frente da tela, mesmo com a aflição que a história causa. O mais incrível é que o diretor Darren Aronofsky transmite essas sensações a partir de um roteiro cujo assunto principal é o ballet.

Para interpretar os papéis principais de Swan Lake é necessário uma atriz que transmita pureza quando está em cena o cisne branco e ousadia, quando é o cisne negro que toma conta do palco. Nina (Portman) é perfeita quando personifica o cisne branco, mas tem dificuldades quando chega o momento do cisne negro. Todo o sacrifício que uma bailarina enfrenta para tentar alcançar a perfeição é mostrado. Nina é consumida pela ideia de ser a atriz principal do ballet e sua transformação é conduzida sem censuras por Darren Aronofsky. Ela não come direito, treina incessantemente e segue alguns conselhos não muito ortodóxos do diretor da peça, Thomas.

Nina não enfrenta apenas mudanças físicas. A peça vira uma obsessão para ela, que ainda tem que enfrentar ciúmes das outras bailarinas e também o controle que a mãe ainda exerce sobre ela. Nina é uma mulher de 28 anos, mas praticamente não tem liberdade. A mãe não permite que ela se tranque no quarto, quarto esse que é bem infantil, cheio de bichos de pelúcia e que abusa da cor rosa. Para interpretar o cisne negro ela deve mudar muitos aspectos. Natalie Portman se entrega ao papel como poucas atrizes conseguiriam. É uma atuação para ser lembrada por muito tempo. Não bastasse a exemplar direção de Aronofsky, a música clássica tocada com mais vigor em momentos importantes deixa tudo mais vibrande e pulsante. Há quem reclame de alguns excessos do diretor e de uma certa visceralidade, mas são fatores essenciais para representar tudo o que se passa com Nina. Perfeição é utopia? Talvez não para Aronofsky e para Natalie Portman.

Título original: Black Swan
Ano: 2010
País: USA
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz
Duração: 108 minutos
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Winona Ryder

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Crítica: Bravura Indômita (2010)




Os irmãos Coen já se estabeleceram como cineastas extremamente sólidos. A filmografia deles é algo invejável, sempre com ótimos trabalhos (excluindo Matadores de Velhinha) e às vezes com obras-primas, como Fargo e Onde os Fracos Não Tem VezBravura Indômita pode não merecer o epíteto de obra-prima, mas sem dúvida representa toda a qualidade e estilo do cinema dos irmãos.

Aqui temos a primeira real incursão dos Coen no western e o resultado não poderia ter sido melhor. A madura garota Matie Ross (Steinfeld) só tem uma ideia na cabeça: caçar o homem que matou o pai dela, em qualquer lugar em que ele esteja. Ela contrata um marshal para ajudá-la nessa empreitada, apesar do mesmo passar tempo demais com alcool no sangue. Claro, falo de Rooster Cogburn, interpretado com todos os atributos que podemos esperar de um ator tão bom como Jeff Bridges. O elenco é excelente, assim como o roteiro e a fotografia de Roger Deakins, que com facilidade transmite o clima do velho oeste.

Bravura Indômita também contém o humor peculiar dos irmãos, dessa vez numa intensidade maior do que o normal, principalmente nos primeiros trinta minutos. Diálogos um tanto cínicos são pronunciados de maneira natural pelos atores, garantindo nosso riso. Como exemplos, lembro-me de quando Rooster fala que não paga por whisky, já que confisca tudo como homem da lei e também quando o personagem de Matt Damon diz que no Texas ele ficou tantos dias sem água que bebeu água suja de uma pegada de cavalo e ficou feliz por isso. Quando o assunto é violência, as coisas ficam bem sérias e rapidamente voltamos a sentir o perigo do ambiente hostil. Os Coen conseguem fazer essa transição com naturalidade. Como ponto negativo, acredito que o filme perde um pouco da força quando tenta buscar um certo sentimentalismo nos personagens, mas nada que incomode de fato.

Título original: True Grit
Ano: 2010
País: USA
Direção: Ethan Coen, Joel Coen
Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen
Duração: 110 minutos
Elenco: Jeff Bridges, Matt Damon, Hailee Steinfeld, Josh Brolin, Barry Pepper

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