A Caixa (2009)

Cotação: 6

A Caixa, cujo roteiro é inspirado em uma obra de Richard Matheson (autor de Eu Sou a Lenda), mostra vários pontos positivos de Richard Kelly, mas está bem longe de ter a qualidade de Donnie Darko. Muito se espera dos lançamentos do diretor, afinal ele é o criador do clássico cult Donnie Darko. Infelizmente, a cada novo filme temos uma nova decepção. Aqui temos um casal de classe média vivendo na Virgínia dos anos 70. Norma (Diaz) é uma professora e Arthur (Marsden) trabalha na NASA. Eles vivem tranquilamente as suas vidas até que recebem uma estranha caixa na porta de casa. A caixa não apresenta nada de anormal, a não ser um botão na superfície. Na sequência, eles são visitados por Arlington Steward, (Langella) que faz uma proposta nada usual: se eles apertarem o botão, ganharão 1 milhão de dólares, mas uma pessoa que eles não conhecem irá morrer. O casal tem 24 horas para tomar uma decisão.

É um enredo bastante interessante que propicia várias discussões relacionadas a moralidade e também nos permite fazer reflexões sobre a vida em sociedade. Me coloquei no lugar do casal e tentei imaginar o que faria em uma situação dessas. É uma situação sombria por si só, mas Richard Kelly deixa tudo com uma atmosfera mais sinistra ainda. Ele sabe como adicionar suspense e um ar bizarro nos seus filmes. Um exemplo é uma cena envolvendo um papai-noel no meio de uma estrada deserta. Estranha e assustadora. Apesar da ótima atmosfera e da boa ideia do roteiro, Richard Kelly se perde um pouco em sua ambição e desenvolve o filme de uma maneira absurda, fugindo de qualquer bom senso tangível, mesmo para uma ficção.

Não acho que tudo precisava ser explicado, já que um mistério sempre vai bem, mas há um excesso de pontas soltas que atrapalha o resultado final. De qualquer forma, me senti recompensado. Não é sempre que vemos um filme que estimule reflexões filosóficas e que faça analogias bacanas com a mitologia e com a bíblia. Em A Caixa vemos algumas mulheres apertando o botão e isso pode significar várias coisas: uma referência a Eva, a Pandora ou até mesmo uma suposta misoginia do diretor. Cabe a nós interpretar e decidir. Richard Kelly é ótimo para criar thrillers de suspense inteligentes, mas espero que o seu próximo trabalho tenha menos ficção e menos ambição. Quem sabe assim ele realize outra grande obra.



Título original: The Box
Ano: 2009
País: EUA
Direção: Richard Kelly
Roteiro: Richard Kelly
Duração: 115 minutos
Elenco: Cameron Diaz, James Marsden, Frank Langella, Sam Oz Stone

/bruno knott

A Origem (2010)


Cotação: 7

Desde quando iniciei o Cultura Intratecal sempre optei por escrever posts com textos curtos e objetivos, afinal vivemos em um mundo cada vez mais dinâmico e todos sabemos que o tempo tornou-se uma preciosidade. Além disso, eu penso: quem diabos sou eu pra escrever linhas e linhas sobre algo que não é minha especialidade? Sim, eu amo o cinema, procuro aprender sobre tudo que envolve a realização de um filme e vejo o maior número de filmes possíveis, mas isso não me torna uma autoridade no assunto. Textos grandes e de qualidade comprovada eu deixo para os críticos de verdade, como o Pablo Villaça, Roger Ebert e o James Berardinelli, por exemplo. Sou um mero apreciador que gosta de fazer comentários a respeito do que assiste, por isso escrevo texto curtos e diretos.

Fiz esse parágrafo para que vocês saibam que eu escrevo sobre filmes sem pretensão alguma.

E sem pretensões de estar certo (esse conceito de certo e errado existe mesmo?) preciso escrever sobre A Origem, o filme do momento. Peço paciência (e coragem), pois é impossível esse texto não ser mais longo do que o habitual.

Primeiro devo dizer que gostei do filme. É um blockbuster com conteúdo e que sem dúvida vale o ingresso do cinema, mas ele está longe de ser uma obra-prima. O próprio Nolan já fez trabalhos bem melhores do que esse, como The Dark Knight e Memento. A ideia principal de A Origem é extremamente criativa e empolgante, mas Nolan errou ao transformar um belo exemplar de ficção científica em um filme de ação cansativo.

Não entendo esse endeusamento. Será que eu sou o único que teve dificuldades em suportar as cenas de ação pra lá de longas? Li um crítico que disse que os sonhos de Nolan parecem ser dirigidos pelo Michael Bay e ele não está longe da verdade. Aquelas cenas na neve mais parecem um filme do James Bond, só que sem a classe e qualidade do mesmo.

Nolan merece aplausos por transformar uma ideia complicada em algo bem acessível. Se você prestar atenção na tela não terá dificuldades em entender toda a ideia dos 3 níveis de sonho (mais o limbo) e essa é a parte que merece aplausos. Agora, 90% do filme é ação, tiros e explosões para todo o lado. Tirando a sequência no hotel sem gravidade, as outras podem levar qualquer um a um sono profundo.

Mas e a história?

Cobb (Leonardo DiCaprio) é o líder de um grupo que invade os sonhos das outras pessoas em busca de seus segredos. Arthur (Joseph Gordon-Levitt) é o seu principal parceiro nessas atividades. Nas cenas iniciais do filme aprendemos como funciona todo esse procedimento e é algo bem estimulante.

Eles recebem uma proposta de Saito (Ken Watanabe). Em vez de roubar, Saito quer que eles plantem uma ideia na mente de Robert Fischer (Cillian Murphy), filho de um bilionário que está prestes a morrer. O que Saito quer é que Fischer decida dividir o império do próprio pai.

Para realizar essa tarefa complicada, Cobb pede auxílio a Eames (Tom Hardy), Yusuf (Dileep Rao), um químico capaz de fazer um sedativo extremamente potente e Ariadne (Ellen Page), a nova arquiteta do mundo dos sonhos.

Não me perguntem qual a importância de que Fischer divida o império do pai, Nolan realmente não faz questão que saibamos o motivo disso. Na realidade, é apenas uma desculpa para que a concepão do sonho dentro do sonho dentro do sonho comece. Sem problemas.

Cobb mostra para Ariadne o trabalho que ela vai ter que executar. Ver a garota explorando todas as possibilidades dos sonhos é um dos grandes momentos do filme e é algo que faz falta no resto da projeção.

Ok. O próprio roteiro faz questão de nos informar que, para que o roubo de segredos e a inserção funcionem, o mundo dos sonhos deve ser o mais parecido possível com o mundo real. Mas caramba. Qual a graça de ver um sonho quase 100% igual ao mundo real?

Queria ser brindado com mais cenas, como aquela em que Ariadne literalmente coloca a cidade de cabeça para baixo. Isso sim é um sonho de verdade, isso sim é empolgante.

Mas não. Nolan preferiu criar essa regra do sonho mais real possível e acabou com minha alegria.

De qualquer forma, há algo de extrema genialidade em A Origem (além da ideia original), tanto da direção, como da montagem. A maneira como os três sonhos são sincronizados desde a metade do filme até o clímax é de uma beleza única. A trilha sonora de Hans Zimmer e a entrega desses excelentes atores contribui para que tudo funcione direitinho, só que, infelizmente, não houve possibilidade de criarmos uma conexão emocional com esses personagens. Se um deles morresse não iria fazer diferença pra mim.

Cada nível de sonho dura um tempo específico no tempo real e a forma como conseguiram deixar tudo isso compreensível para o público é digno de nota. Alguém já viu algo tão ambicioso assim antes? Por isso que A Origem merece reconhecimento, mas deve-se ter calma.

Ele não é tão complexo como alguns fazem questão de afirmar e a ação é extremamente cansativa. Eu poderia passar umas 4 horas assistindo as cenas de ação de Matrix, mas foi difícil aguentar as duas horas e meia de tiros, perseguições e explosões em A Origem.

Se Nolan explorasse melhor os seus personagens (só Cobb é satisfatoriamente desenvolvido), se adicionasse um pouco de humor e cortasse uns 20 minutos de ação estafante, aí sim eu concardaria em chamar A Origem de obra-prima.

Ano passado houve um excesso em relação a Avatar e está acontecendo agora com A Origem. É óbvio que o filme de Cristopher Nolan é umas 10x melhor que o filme de James Cameron, mas isso não fez dele a última coca-cola do deserto, se é que vocês me entendem.


Título original:
Inception
Ano: 2010
País: EUA
Direção: Cristopher Nolan
Roteiro: Cristopher Nolan
Duração: 148 minutos
Elenco: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dlieep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Marion Cotillard, Pete Postletwaite, Michael Caine

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/bruno knott

O Dorminhoco (1973)


Cotação: 8

Se você está a fim de assistir a um filme com bastante humor, ficção e uma boa dose de bizarrice, eis uma bela opção. Woody Allen, além de dirigir, é o personagem principal do filme. Ele interpreta Miles Monroe, um cara que foi ao hospital para operar uma úlcera e acaba acordando 200 anos depois, exatamente no ano de 2173. Nessa época, os EUA está dominado por um Líder, no melhor estilo 1984. A população é controlada e para a diversão existe uma máquina chamada orgasmotron e uma bola metálica que deixa as pessoas chapadas, o orb.

O humor está presente das mais variadas formas nesse futuro concebido pelo diretor. Por exemplo, algumas coisas que hoje em dia são consideradas maléficas a saúde tornaram-se benéficas, como o cigarro e as comidas gordurosas. Woody Allen também oferece diálogos cheios de ironia, principalmente em relação a personalidades e fatos dos anos 70. Em um momento, Miles Monroe precisa se disfarçar de robô para não ser pego pela polícia e aí temos gags visuais no maior estilo Chaplin, com uma trilha sonora bem característica de filmes mudos de comédia.

Acredito que a históra em si não seja tão importante aqui, mas devo dizer que Miles entra para o grupo da resistência que tenta acabar com o Líder. A maneira pela qual eles tentam isso é surreal e torna-se um dos momentos mais engraçados de O Dorminhoco. É uma ótima comédia do diretor, repleta de risadas fáceis e algumas que precisam de um certo conhecimento histórico. São 90 minutos de entretenimento puro.

Título original: Sleeper
Ano: 1973
País: EUA
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen e Marshall Brickman
Duração: 89 minutos
Elenco: Woody Allen, Diane Keaton

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/bruno knott