Crítica: Magnólia (1999)

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Spoilers!

Êxodo 8:2 – Se recusares deixá-lo ir, eis que castigarei com rãs todos os teus territórios.

Não foram poucos os que condenaram Magnólia pela “absurda” chuva de sapos que ocorre no ato final, mas se nos atentarmos para algumas pistas deixadas ao longo do filme, percebemos que ela faz todo o sentido dentro do contexto da trama.

É possível notar a combinação dos números 8 e 2 nas mais diversas cenas de Magnólia, principalmente na hora inicial: o número do avião, as cartas do baralho, a identificação de Marcy na prisão e assim por diante. Mais revelador ainda é ver “exodus 8:2” em dois momentos: na plateia do programa de TV de Jimmy Gator e em uma propaganda de um ponto de ônibus.

Como já fiz questão de escrever no início do post, o êxodo 8:2 fala sobre uma chuva de rãs que vai castigar todos os territórios se alguém não deixar alguém ir.

Sem forçar muito na interpretação, podemos aplicar isso na cena em que o personagem de Tom Cruise fala para o pai moribundo: “Don’t go away, you fucking asshole, don’t go away.”

E aí uma aterrorizante tempestade de anfíbios começa a cair.

Incrível, não?

Paul Thomas Anderson demonstrou estar a altura de sua ambição ao nos entregar Magnólia. São 9 personagens que enfrentam situações decisivas em suas vidas e que estão conectados de alguma forma. É impressionante como passamos a nos importar com os dilemas e o destino de cada um deles. Como não se comover com o garotinho Stanley, explorado e pressionado pelo pai para vencer o jogo de perguntas e respostas? Como não compartilhar o sofrimento de Donnie por não saber onde colocar todo o amor que guarda no coração? E a relação de Frank com o seu pai à beira da morte? São muitos os detalhes que fazem Magnólia ser o que é: uma obra-prima.

Também deve-se aplaudir de pé a direção de PTA, que conduz tudo com maestria. A técnica do diretor se mostra em franca evolução, com direito a movimentos de câmera dos mais inspirados, como aquele que nos revela o alvo do amor de Donnie ao som de Supertramp. Falando em música, outro ponto essencial de Magnólia é a trilha sonora, composta principalmente pelos trabalhos de Aimee Mann, que literalmente fazem parte da trama. A sequência com os personagens cantando juntos a bela “Wise Up” é um exemplo disso.

Não se assuste com a duração do filme. São três horas, é verdade, mas a sensação é de que não ficamos nem uma hora na frente da tela.

Se me fosse dada a difícil tarefa de escolher apenas 10 filmes para levar para uma ilha deserta, certamente Magnólia seria um dos escolhidos. Eis aqui algo genial.
10/10

 

2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968)

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Título original: 2001: A Space Odyssey
Ano: 1968
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Arthur C. Clarke

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Ao longo dos anos muitos já tentaram explicar 2001 – Uma Odisseia no Espaço, mas não devemos nos esquecer dessas importantes palavras de Arthur C. Clarke: “Se você entender 2001 por inteiro, nós falhamos. Queremos levantar mais questões do que respondê-las”. Portanto, podemos nos sentir livres para interpretar esta verdadeira obra-prima do cinema.

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Antes de comentar o filme propriamente dito, vale a pena dizer que na época do seu lançamento ele foi bem recebido pelo público hippie e mal recebido pela crítica. Com o passar dos anos, os críticos mudaram de opinião em relação a 2001 e ele foi ganhando cada vez mais fervorosos admiradores.  Como um exemplo desses fãs cito o diretor John Boorman (Amargo Pesadelo), que afirmou que 2001 – Uma Odisseia no Espaço mudou a vida dele e também sua maneira de fazer cinema.

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Quem acompanha o Cultura Intratecal sabe que Stanley Kubrick é o meu diretor favorito. Kubrick realizou 13 filmes ao longo da carreira e podemos dizer que pelo menos 7 são obras-primas. Apesar de cada um deles nos oferecer muito tanto em termos técnicos como em suas histórias, nenhum consegue atingir o nível de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, pelo menos para mim e para muitos outros fãs do diretor.

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2001 – Uma Odisseia no Espaço esbanja qualidade em termos técnicos e é extremamente ambicioso no que se propõe a discutir. A maravilhosa trilha sonora de Danúbio Azul embala o ballet tecnológico de Stanley Kubrick. É um filme sobre a evolução da raça humana e sobre os rumos que ela pode vir a tomar. Em pouco mais de duas horas ele discute a vida extra-terrestre, a utilização de ferramentas para sobrevivência, a inteligência artificial e o maior tabu do homem: sua própria morte. Uma experiência transcendental, antropológica e filosófica que fascina do começo ao fim.

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O monólito observa e influencia o progresso do homem. O primeiro monólito aparece para nossos não muito simpáticos ancestrais há milhões de anos, que logo descobrem o uso da ferramenta. Numa das cenas mais geniais do cinema, vemos o osso jogado pelo símio se transformar em um satélite no espaço. O segundo monólito é encontrado na lua. Nele, existe um sinal de Júpiter e a confirmação de vida extra-terrestre. Em alguns anos, os seres humanos conseguem desenvolver a tecnologia para fazer a viagem até Júpiter. O terceiro monólito representa a maior dificuldade de interpretação do filme, mas podemos dizer que a importante questão aqui levantada é sobre qual é o próximo passo após a morte. O starchild no fim pode representar um anjo, o renascimento do homem ou qualquer outra coisa que foge da minha capacidade de abstração.

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Como não se impressionar com tantas discussões levantadas por 2001? Como não se encantar com uma sucessão de imagens e sons sem precedentes no cinema? Ao que tudo indica, 2001 – Uma Odisseia no Espaço jamais vai deixar de ser admirado.
10/10

– B.K.