Andrei Tarkovsky

Desde quando criei o Cultura Intratecal faço perfis de diretores que admiro bastante. Os primeiros foram de Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick, agora chegou a vez do cineasta russo Andrei Tarkovsky. Aqui você poderá ler sobre a vida de Tarkovsky e também comentários meus sobre cada um dos seus filmes, que estão colocados em ordem de preferência. Não há dúvidas que Tarkovsky é um dos diretores mais importantes de todos os tempos. Para Ingmar Bergman, por exemplo, ele foi simplesmente o maior.

BIOGRAFIA
Nascido na vila de Zavrazhye em Ivanovo Oblast, Rússia, em 4 de abril de 1932, filho do peota russao Arseny Tarkovsky e de Maria Vishnyakova, formada em literatura. Foi descrito como uma criança ativa e popular, cheia de amigos. Em 1937 o pai deixou a família e em 41 foi para a guerra. Foi morar com a mãe em Moscou. Aprendeu a tocar piano e frequentava a escola de arte. Em 1947 sofreu de tuberculose. 
Em 1954 matriculou-se na VGIK para estudar cinema, local que conheceu a futura esposa, Irma Raush. Assistiu a vários filmes de Bergman, Kurosawa, Buñuel e Robert Bresson. Dirigiu o primeiro filme em 1956, uma adaptação de um conto de Ernest Hemingawt chamado The Killers. Morreu em 29 de dezembro de 1986 em Paris, devido a um câncer pulmonar.

ESTILO
Tarkovsky é um daqueles cineastas que tem um marca própria. Assim como acontece com os filmes de Kubrick, saber que você está assistindo a um filme de Tarkovsky é fácil. Ele era um diretor que não tinha pressa. Sempre utilizou longas tomadas, explorando a beleza da fotografia de uma maneira sem igual. Todos os seus filmes não terminam com a última cena, quer dizer, você inevitavelmente vai pensar sobre eles, vai tentar decifrar o que Tarkovsky quis dizer ou simplesmente vai discutir com alguém sobre os inúmeros temas vitais que ele aborda. Às vezes os seus filmes exigem um pouco de paciência, mas uma vez que você se acostuma com estilo dele, vai entender o porque de ele ser considerado um dos grandes mestres do cinema.

FILMOGRAFIA COMPLETA
O Sacrifício (Offret, 1986)
Nostalgia (Nostalghia, 1983)
Tempo di viaggio (documentário para TV, 1983)
Stalker (Сталкер, 1979)
O Espelho (Zerkalo, 1975)
Solaris (Solyaris, 1972)
Andrei Roublev – O Artista Maldito (Andrey Rublyov, 1966)
A Infância de Ivan (Ivanovo detstvo, 1962)
The Steamroller and the Violin (Katok i skripka, 1961)
There Will Be No Leave Today (curta-metragem, 1959)
The Killers (curta-metragem, 1956)

REVIEWS  (em ordem de preferência)
1 Stalker (Сталкер, 1979)

Tarkovsky faz da Zona um local com uma atmosfera opressiva, perigosa. Trata-se de uma área natural gigante, mas que possui alguns objetos que a tornam assustadora, como tanques enferrujados, seringas, símbolos religiosos na água e assim por diante. O diretor russo cria imagens de beleza extrema. É possível apertar o pause em qualquer cena que você terá uma verdadeira obra de arte. As longas tomadas e os movimentos de câmera peculiares de Tarkovsky nos passam a ideia de que estamos vendo um sonho. Somos hipnotizados por aquele mundo. Antes de tentar compreender o filme, devemos senti-lo, pois ele é nada mais nada menos do que poesia visual. É claro que existem várias discussões aqui, algumas filosóficas. Primeiro, o que é A Zona? O resultado de um meteorito? Algo feito por seres alienígenas? E o que leva as pessoas a se arriscarem lá dentro? Autoconhecimento, desejo de aventura ou a simples ambição de ter seus desejos realizados? As conversas dos personagens parecem sem propósito, mas na verdade estão cheias de significado. Um deles se pergunta sobre a arte, sobre a música, sobre o altruísmo e sobre a fé. Enfim, uma reflexão sobre o ser humano e sua relação com o mundo. Afinal, o que estamos fazendo aqui? Podem ser perguntas sem respostas, mas deve-se aplaudir um filme que faz esses questionamentos e nos deixa pensando sobre o assunto.
/mubi

2 O Sacrifício (Offret, 1986) 

Há um clima de melancolia por todo o filme que é reforçado pela fotografia espetacular do habitual colaborador de Bergman, Sven Nykvist e pelo local onde o filme foi filmado, a ilha de Gotland, próxima da famosa ilha Faro dos filmes de Bergman. O personagem principal tem longos monólogos em que ele fala sobre o medo da morte, sobre o fato de passar a vida esperando algo acontecer e sobre o sentimento de que existe algo errado com a civilização, tão errado que não há mais tempo para consertar. Assim como os personagens, somos surpreendidos pelo início de uma provável terceira Guerra Mundial e a única maneira de evitar o fim do mundo é o tal sacríficio do título, que não revelarei, apenas digo que envolve uma feiticeira local.  O filme nos faz pensar sobre o quão difícil é não fazer aquilo que realmente queremos e como somos impotentes perante a dura realidade da vida. De qualquer forma, há uma mensagem de esperança no fim de Sacríficio, o último filme de Tarkovsky.
/mubi 

3 Andrei Roublev – O Artista Maldito (Andrey Rublyov, 1966)

Talvez este seja o filme mais ambicioso do diretor. É a visão de Tarkovsky sobre a vida de Andrei Roublev, um pintor de ícones religiosos que viveu no fim da idade média. Trata-se de um verdadeiro épico mediavel com 3 horas e meia de duração, dividivo em 8 capítulos. Cada capítulo mostra situações e acontecimentos que influenciaram Roublev e que também são retratos da História da Russia. Por ser longo é natural que seja um pouco cansativo, mas é tão belo que não há como não se admirar. O preto e branco reforça ainda mais essa beleza única.
/mubi 

4  A Infância de Ivan (Ivanovo detstvo, 1962)

O filme mais acessível de Tarkovsky nos mostra a participação do garoto Ivan na Segunda Guerra. É uma reafirmação sobre a crueldade e imbecilidade da guerra, que serve apenas para destroçar famílias e sonhos pessoais. A Infância de Ivan é sobre a perda precoce da inocência, sobre uma criança que ao invés de brincar de esconde-esconde e admirar a beleza de uma borboleta, ajuda o exército a reconhecer o território inimigo. É um material bem forte, que ainda conta com uma cena extremamente tensa e cheia de suspense que envolve uma travessia de barco em uma escuridão sufocante.
/mubi 

Solaris (Solyaris, 1972)

Considerado um filme preparatório para a realização de Stalker, Solaris é uma ficção científica contemplativa e de ritmo lento. O mistério está presente do começo ao fim. O que está por trás de Solaris? É algo feito por seres humanos, por aliens ou algo além disso? Ele levanta algumas questões filosóficas, mas não as responde. Um personagem fala que felizes são aqueles que não se questionam sobre coisas importantes, o que dá uma boa ideia sobre o clima do filme. De qualquer forma, ele exige bastante atenção, pois não é fácil de ser absorvido. Em alguns momentos, ele traz a mesma sensação de ler Dostoievski bêbado.
/mubi 

6 O Espelho (Zerkalo, 1975)

Imagens fortes, poderosas e cheias de simbolismos são usadas para Tarkovsky contar a história de um homem que relembra toda a sua vida. Salta aos olhos o teor autobiográfico do filme, que muitas vezes é bem confuso  graças a uma mistura um tanto caótica de flashbacks, filmes históricos e poesias recitadas. Este é daqueles que pede mais do que uma assistida, mas o que dá para percerber e elogiar logo de cara é o poder de Tarkvosky de criar cenas poderosas, que ficam potencializadas por uma trilha sonora clássica e proporcionam uma experiência espiritual.  É considerado por muitos o trabalho mais impenetrável do diretor, algo que concordo.
/mubi 

 

7 Nostalgia (Nostalghia, 1983)

Nostalgia também não é uma experiência fácil de ser compreendia. É sobre um poeta russo que viaja até a Itália para pesquisar a vida de um compositor russo do século 18. O destaque aqui também são as imagens e o grande teor metafórico de algumas cenas, mas é o único filme do diretor que não me comoveu tanto, apesar do trágico final.
/mubi 

 

CURIOSIDADES
– Em quase todos os seus filmes há uma cena com o som de água pingando.

– Segundo ele, crianças entendem seus filmes melhor do que adultos.

– Gostava dos filmes de Bergman e de Kurosawa.

– Foi membro do júri no festival de Veneza em 1982.

– Dos seus filmes, o que menos gostava era Solaris

QUOTES
“My purpose is to make films that will help people to live, even if they sometimes cause unhappiness”.

“The only condition of fighting for the right to create is faith in your own vocation, readiness to serve, and refusal to compromise”.

“An artist never works under ideal conditions. If they existed, his work wouldn’t exist, for the artist doesn’t live in a vacuum. Some sort of pressure must exist. The artist exists because the world is not perfect. Art would be useless if the world were perfect, as man wouldn’t look for harmony but would simply live in it. Art is born out of an ill-designed world”.

PRÊMIOS
1988: 
BAFTA de melhor filme estrangeiro, por O Sacríficio.
1986: FIPRESCI, grande prêmio do júri, prêmio do júri ecumênico no Festival de Cannes, por O Sacríficio.
1983: Melhor diretor, prêmio FIPRESCI, prêmio do júri ecumênico no Festival de Cannes, por Nostalgia.
1980: Prêmio do júri ecumênico no Festival de Cannes, por Stalker.
1972: Prêmio FIPRESCI, grande prêmio do júri no Festival de Cannes, por Solaris.
1969: Prêmio FIPRESCI no Festival de Cannes, por Andrei Roublev – O Artista Maldito.
1962:
Prêmio Golden Gate, no festival de São Francisco por A Infância de Ivan

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/Qual o seu Tarkovsky favorito e por quê?

Crítica: Dead Snow (2009)


Demorei um certo tempo para descobrir qual era a deste filme Norueguês. Durante a primeira meia hora eu o estava achando extremamente chato. O suspense e a tensão eram praticamente inexistentes e as tentativas de assustar eram as mais manjadas possíveis. O excesso de clichês estava me incomodando bastante, assim como algumas referências estranhas a Evil Dead, Braindead e O Exterminador do Futuro. Depois de um tempo eu finalmente percebi que Dead Snow não é exatamente um filme para ser levado a sério. As pistas estavam por todos os lados, eu que demorei para entender. O objetivo do diretor é fazer rir e também impressionar com cenas de um gore muito bem feito. Tudo melhora quando os zumbis nazistas aparecem para atormentar a vida dos estudantes de medicina que resolvem passar um tempo em uma casa no meio do nada. Zumbis já são seres violentos por natureza, agora imagine o poder de destruição de um exército de zumbis nazistas sedentos por carne humana. As cenas de batalha são repletas de criatividade e sangue, e as vezes até de vísceras. Você se lembra de algum filme em que uma pessoa se dependura em uma porção de intestinos de zumbis? Não, né?

É mais ou menos isso que dá para esperar de Dead Snow: muito sangue, clichês premeditados, humor, atuações de razoáveis para ruins e um roteiro pífio. O resultado é algo descartável, porém com bons momentos de diversão.
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Indicados ao Oscar 2011 (ranking)

Enquanto a premiação não chega, resolvi organizar uma lista dos indicados a melhor filme de acordo com minha  preferência e fazer alguns comentários.

Coisa simples e objetiva.

A de filme estrangeiro fica para a próxima.

1 Cisne Negro (Darren Aronofsky)


Para mim, o melhor dos 10 que concorrem ao prêmio. Sem dúvida a atuação de Natalie Portman é o grande destaque, mas a direção de Aronofsky merece todo o reconhecimento também. Ele consegue imprimir um ritmo frenético quando o roteiro necessita e também cria uma atmosfera de tensão e urgência que nos deixa em um suspense tremendo. Do começo ao fim, o filme exala perfeição.
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2 127 Horas (Danny Boyle)


Uma história real que te faz pensar na vida. Ver um cara que ama aventura e o ar livre preso em uma rocha é de cortar o coração. James Franco oferece uma atuação magnífica, digna de ser lembrada por muito tempo. Os momentos mais marcantes são aqueles em que ele decide fazer um monólogo para se manter são e relembra de alguns erros que cometeu, como o de não dizer para onde ia e de não ligar de volta para a própria mãe. O trabalho de fotografia é excelente, assim como a direção de Danny Boyle. Dividir a tela em várias partes é sempre um recurso interessante quando aplicado do jeito certo, que é o que acontece aqui.
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3 A Rede Social (David Fincher)

Ótimo retrato da geração atual, que passa mais tempo no Facebook, Orkut e Twitter do que em qualquer outra coisa. Jesse Eisenberg está ótimo, mas para mim o destaque em termos de atuação é Andrew Garfield, injustamente desprezado pelo Oscar. David Fincher resolveu não aparecer mais do que o roteiro (não que isso seja sempre ruim, ele é um grande diretor) e deixou os atores darem vida à história, sempre embalados pela bela trilha sonora de Trent Reznor. Zuckerberg se mostra um ótimo observador ao colocar coisas banais do dia a dia dentro do seu projeto do Facebook. Ver sua mente trabalhando é algo estimulante, apesar do seu jeito meio babaca de ser.
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4 Bravura Indomita (Ethan Coen, Joel Coen)


Finalmente temos uma oportunidade de ver os irmãos Coen em um autêntico western, gênero que combina tão bem com o estilo deles. Os irmãos se saem muito bem aqui. Bravura Indômita é um filme tecnicamente empolgante e que conta com o bom trabalho de Jeff Bridges e a excelente, magnética e marcante atuação da garota Hailee Steinfeld. Durante os trinta primeiro minutos o humor negro característico dos Coen é bem empregado, talvez como nunca antes em seus outros filmes. A história perde um pouco da força em algumas cenas intimistas entre o trio que está procurando o bandido, mas nada que incomode, pois sempre temos aquela sensação de  que alguma coisa interessante (e violenta) está para acontecer.
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5 Toy Story 3 (Lee Unkrich)


Este terceiro filme da franquia Toy Story é capaz de deixar emocionado o ser-humano mais sangue frio do universo, pelo menos um pouquinho. Nem preciso comentar sobre a perfeição técnica da animação, mas devo dizer que o roteiro é excelente. A história proporciona momentos de ação eletrizantes e outros momentos mais emotivos. É impossível não nos colocar no lugar de Andy e lembrar da época em que fomos deixando de ser crianças. Claro, quando você é criança você quer virar adulto o quanto antes, mas quando você é adulto não tem como não ser tomado por uma forte nostalgia em relação àquela época de vez em quando . Toy Story 3 mexe com nossos sentimentos de uma maneira agradável e sincera, coisa que muito filme “adulto” está longe de conseguir fazer.
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6 A Origem (Cristopher Nolan)


É digno de aplausos quando aparece um filme que te tira do conforto habitual e te faz usar o cérebro. A maneira como Cristopher Nolan consegue deixar acessível um roteiro complicado é fantástica. A Origem é uma ficção científica original e ambiciosa, que mostra que o cinema ainda tem muito a nos oferecer. A escolha por um final ambíguo é mais uma prova de que a intenção não era mastigar tudo para o público, algo não muito comum no cinema americano. Minha reclamação é pelo excesso de cenas de ação barulhentas e cansativas. Não estou sozinho quando digo que o filme poderia ter menos tiros e explosões e explorar mais a incrível ideia de invadir os sonhos de outra pessoa. Se  todas as cenas de ação fossem verdadeiramente empolgantes, como aquelas sem gravidade, tudo bem… mas não foi o caso. O tédio em alguns momentos é enorme. Um filme bacana e original. Obra-prima? Realmente, não.
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7 Inverno da Alma (Debra Granik)


Não fosse a atriz Jennifer Lawrence e sua personagem, Inverno da Alma não seria a metade do que é. Acompanhar Ree em busca do pai é uma experiência perigosa, mas fascinante. A coragem e autocontrole da garota são impressionantes, mesmo quando se coloca em situações extremas, com pessoas que não ligariam se tivessem que adicionar mais um crime em suas fichas. A diretora Debra Granik simplesmente deixa a história rolar, não sem antes criar uma atmosfera fria, melancólica e com poucas esperanças.
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8 O Vencedor (David O. Russel)


Merece ser visto pelas fantásticas atuações. Mark Wahlberg, Amy Adams, Melissa Leo e Christian Bale nos transportam para dentro da história com facilidade, pena que ela não nos emociona como deveria. Para mim, o maior culpado do filme não ser realmente memorável é o diretor David O. Russel. Ele acertou ao filmar as cenas de boxe como se as vissemos em uma TV nos anos 90, mas errou feio no momento em que mais precisava triunfar: no desfecho. Filmes como Rocky e Menina de Ouro, apesar de não serem perfeitos, são donos de finais marcantes. O clímax em O Vencedor parece ter sido trabalhado de uma maneira aborrecida e apressada, o que impede alguma vibração de nossa parte.
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9 O Discurso do Rei (Tom Hooper)


É um good movie com contexto histórico. A química entre Colin Firth e Geoffrey Rush é mantida durante todo o filme. Ambos estão excelentes, mas Firth acaba se destacando por ter interpretado uma figura histórica, que ainda por cima era dona de uma gagueira épica. O objetivo do filme é te deixar com um sorriso no rosto, algo que é sempre positivo quando o roteiro é de qualidade. O diretor Tom Hooper mostra muita habilidade na construção do clímax, quando o tal discurso do título deve ser proferido. Aquele microfone mais parece uma arma para o Rei George, sensação que é muito bem passada por Firth e registrada por Tom Hooper. No mais, acho que é um filme que foi feito pensando-se em angariar prêmios, o que dá uma certa artificialidade para ele. Também me causa estranheza o fato dos personagens se sentirem felizes após saberem que o país acaba de entrar na guerra. O rei conseguiu falar, bacana… mas milhares estão prestes a morrer. O que é mais importante?
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10 Minhas Mães e Meu Pai (Lisa Chodolenko)


Dos indicados é o mais fraco, mas está longe de ser ruim. É um filme que se mantém interessante graças ao elenco extremamente competente. Não vejo porque reclamar da falta de ousadia do roteiro, como alguns tem feito. A intenção não era chocar ou algo do tipo. Tem espaço para momentos de humor e outros mais sérios. Basicamente, é um retrato do cotidiano de muitas famílias, só que esta não é convencional em sua composição. Finalmente Mark Rufallo foi reconhecido pelo Oscar. Já não era sem tempo.
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/b. knott

Stanley Kubrick

Segundo Martin Scorsese, um filme de Kubrick vale por 10 de outros diretores. Quem sou eu para contradizer um mestre falando de outro mestre?

Aqui você poderá ler sobre aspectos da vida de Kubrick, além de minhas impressões sobre todos os filmes lançados por ele, inclusive os três documentários do início da carreira.

É um post para se ler com calma, a não ser que você tenha um tempinho livre.

Em breve, farei um post discutindo apenas 2001 – Uma Odisseia no Espaço, possivelmente o melhor filme já feito.

PEQUENA BIOGRAFIA
Filho de um médico, Stanley Kubrick nasceu em Nova York, em 26/07/1928. Nunca se destacou na escola. Não que ele fosse preguiçoso ou burro, mas ele simplesmente não se interessava pelas coisas que os alunos deveriam aprender. Para Kubrick, a escola deveria ensinar a resolver os problemas do dia a dia e não a decorar coisas em livros.

Durante o ensino médio queria se tornar um baterista de jazz e desenvolveu sua notória habilidade no jogo de xadrez. Aos 17, foi contratado como fotógrafo da revista Look. Por 4 anos trabalhou na revista e isso o ajudou a aprender cada vez mais sobre técnicas de fotografia. A capacidade de Kubrick de capturar cenas marcantes pode ser encontrada em todos os seus filmes. Certamente, essa experiência como fotógrafo profissional foi essencial para ele se tornar uma referência em termos visuais e estéticos.

Enquanto isso, fez três documentários, além dos filmes Medo e Desejo e A Morte Passou Perto. Kubrick fez quase tudo sozinho, tanto em termos financeiros como em termos técnicos.

Apesar desses filmes não serem aquela maravilha toda, foram bons o suficiente para chamar a atenção do produtor James Harris. Juntos, produziram O Grande Golpe, excelente filme que fez o nome de Kubrick ganhar reconhecimento em Hollywood. Ele só tinha 28 anos na época.

Novamente com James Harris, produziu o maravilhoso Glória Feita de Sangue, filme que elevou Kubrick ao grupo dos bons diretores do cinema, com apenas 29 anos.

Em Spartacus ele não pôde ter um domínio artístico completo da obra por questões de contrato, mas deste filme em diante ele decidiu cuidar de maneira obsessiva de todos os aspectos dos seus filmes. Com o tempo, foi se transformando em um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos.

Kubrick era um cara recluso, mas sempre demonstrou muito amor e carinho com a família e amigos próximos. Alguns jornalistas tentaram criar uma imagem de Kubrick que não correspondia a verdade, como se ele fosse um tipo de monstro. Graças aos depoimentos de suas filhas e de documentários como Stanley Kubrick: A Life in Pictures, tivemos a chance de descobrir quem ele realmente era.

Nunca venceu o Oscar de melhor diretor, mas foi indicado para este prêmio em 4 oportunidades, com os filmes: Dr. Fantástico, 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Laranja Mecânica e Barry Lyndon. Ganhou o Oscar de melhor efeitos especiais por 2001 – Uma Odisseia no Espaço.

Kubrick trabalhou muito no filme De Olhos Bem Fechados, talvez mais até do que deveria. Quatro dias após mostrar a edição final do filme para os familiares, Tom Cruise, Nicole Kidman e executivos da Warner Bross, ele morreu na cama, em consequência de um ataque cardíaco.

Ele está enterrado em Hertfordshire, Inglaterra, mas está vivo em cada frame de seus filmes e em cada discussão acerca deles.

ESTILO
Kubrick era extremamente meticuloso e exigia ter controle absoluto sobre seus filmes. Ele era um perfeccionista. Se entregava ao máximo na produção e esperava que os atores e os outros membros da equipe estivessem tão comprometidos e empenhados quanto ele.

A concepção de suas cenas acontecia após muito tempo de planejamento e estudos. Tudo deveria estar no lugar certo, na hora certa. Era muito detalhista, algo que pode ser visto em todos os filmes dele.

Kubrick criava sequências absolutamente belas em termos estéticos. Barry Lyndon talvez seja o maior exemplo de como ele fazia cada cena ter uma beleza autêntica, de encher os olhos.

Com o passar do tempo, desenvolveu um estilo próprio. Reconhecer um filme de Kubrick é fácil. Ele costumava investir em ótimas narrações em off e em sequências que acompanham um exército ou um grupo de pessoas em movimento, sempre em ângulos interessantes.

A frieza e distanciamento também não podem ser esquecidos. Uma das poucas cenas realmente emotivas do diretor está no final de Glória Feita de Sangue, quando uma alemã canta para um grupo de soldados cujos olhos ficam cada vez mais marejados.

Seus filmes proporcionam inúmeras discussões. O ápice foi com 2001 – Uma Odisseia no Espaço, filme que permite várias interpretações diferentes.

Ironias, humor, guerra, críticas sociais, ultra-violência, pedofilia, erotismo, duelos, batalhas, humor negro. Uma abrangência de temas invejável.

A cena final de Barry Lyndon mostra a frase: “Os personagens desse filme viveram na época do rei George. Ricos ou pobres, bonitos ou feios, todos são iguais agora”, demonstrando o fatalismo inerente a qualquer ser vivo, algo que Kubrick apontava muito bem.

Muitos falam de um ar pessimista do diretor, mas Joker, o personagem principal e narrador de Nascido para Matar fala: “Sim. Estamos em um mundo de merda. Mas estou vivo! E eu não tenho medo!” Para mim, isso é uma frase otimista, apesar de tudo.

FILMOGRAFIA COMPLETA

1 De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999)
2 Nascido Para Matar (Full Metal Jacket, 1987)
3 O Iluminado (The Shining, 1980)
4 Barry Lyndon (Barry Lyndon, 1975)
5 Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)
6 2001 – Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968)
7 Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964)
8 Lolita (Lolita, 1962)
9 Spartacus (Spartacus, 1960)
10 Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957)
11 O Grande Golpe (The Killing, 1956)
12 A Morte Passou Perto (Killer’s Kiss, 1955)
13 The Seafarers (documentário curta-metragem)
14 Medo e Desejo (Fear and Desire, 1953)
15 Day of the Fight (documentário curta-metragem)
16 Flying Padre (documentário curta-metragem)

LISTA PESSOAL DE PREFERÊNCIA e CRÍTICAS

1. 2001 – Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968)


Um milagre cinematográfico. Um dos melhores filmes já feitos. 2001 – Uma Odisseia no Espaço esbanja qualidade em termos técnicos e é extremamente ambicioso no que se propõe a discutir. A maravilhosa trilha sonora de Danúbio Azul embala o ballet tecnológico de Stanley Kubrick. É um filme sobre a evolução da raça humana e sobre os rumos que ela pode vir a tomar. Em pouco mais de duas horas, ele discute a vida extra-terrestre, a utilização de ferramentas para sobrevivência, a inteligência artificial e o maior tabu do homem: sua própria morte. Uma experiência transcendental, antropológica e filosófica que fascina do começo ao fim. Não existe uma interpretação definitiva. Todas podem e merecem ser discutidas. A única certeza que temos é de que nenhum outro diretor poderia fazer o que Kubrick fez aqui.
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2. Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957)


Considerado por muitos como o melhor filme sobre a Primeira Guerra Mundial. Claramente ele é anti-belicista, apesar de Kubrick, com ângulos e movimentos de câmera diferenciados, tornar uma ofensiva algo esteticamente belo. Kirk Douglas é um oficial que comanda um ataque ineficiente. O general decide punir a companhia de maneira exemplar ao escolher 3 soldados para serem fuzilados por covardia. O filme de guerra se transforma em um filme de tribunal, devido a corte marcial que é instalada. As duas partes são excelentes. Kubrick filma o oficial andando pelas trincheiras no ponto de vista dele, como se quisesse mostrar para nós como ele realmente se importava com os soldados que comandava. Isso também fica claro na maneira em que o oficial tenta defendê-los antes da execução. Durante o filme, há um diálogo em que soldados discutem  sobre qual a maneira menos pior de morrer. Um pouquinho do bom e velho humor negro. Glória Feita de Sangue contém a cena mais emotiva de toda a carreira de Kubrick. Ela está no desfecho, e mostra uma alemã cantando para vários soldados franceses que choram até não poderem mais. Um sinal de que a arte e o lirismo conseguem atingir qualquer um, em qualquer momento.
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3. Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964)


Dr. Strangelove é um dos filmes mais engraçados que já assisti. Os diálogos são cheios de ironia e presença de espírito. As atuações são muito eficientes. George C. Scott, Sterling Hayden e, principalmente, Peter Selles (que interpreta três personagens diferentes) estão ótimos em cada cena em que aparecem. O tema é a guerra-fria. A loucura que atinge um oficial pode levar a um desastre nuclear de proporções mundiais. Ver o general Jack Ripper falando sobre como os russos estão estragando os preciosos fluidos corporais dos americanos com água fluoretada é hilário. É uma sátira política que sobreviveu ao tempo.  Kubrick brincou com o medo da época de maneira perigosa. Como esquecer a cena em que o piloto de avião monta uma bomba atômica lançada do avião ou as improvisações extremamente engraçadas de Peter Selles? Uma obra-prima.
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4. Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)


Como informa o narrador, Laranja Mecânica mostra um pouco da boa e velha ultraviolência. Alex e seus amigos saem pelas ruas de Londres tocando o terror. Eles tomam uma bebida chamada Moloko Plus, que é um tipo de leite em que certas drogas são adicionadas e serve como combústivel para o desejo de violência sem explicação desses rapazes. A frieza da obra é impressionante, assim como o controle absoluto demonstrado por Stanley Kubrick. É um filme forte, corajoso e intenso. A trilha sonora clássica é mais um detalhe que deixa tudo mais marcante. Algumas cenas se tornaram ícones do cinema, como aquela em que Alex canta Singing in the Rain e desfere chutes na boca do estômago de um senhor de idade. A discussão que o filme proporciona é em relação ao tratamento feito em Alex. É justo retirar a liberdade de escolha de uma pessoa para que ela não mais faça o mal? Malcom McDowell está ótimo no papel e eu também destaco o ator Michael Bates, que interpreta um guardinha extremamente empenhado, dono de um bigodinho à la Hitler. Clássico.
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5. O Grande Golpe (The Killing, 1956)


Dono de uma estrutura narrativa criativa, que foge da linearilidade e apresenta diferentes pontos de vista para a mesma situação, O Grande Golpe é um excelente filme de crime. Johnny Clay conta com a ajuda de alguns companheiros para assaltar o jóquei da cidade em um dia de muitas apostas. A preparação dos bandidos para o dia é incrível, assim como o ato em si. O tom de urgência imposto por Kubrick em algumas cenas é quase insuportável, como aquela em que vemos Johnny apontando uma arma para um funcionário, enquanto este coloca a grana na sacola. Parece que logo ele vai ser descoberto e o roubo chegará ao fim. Os movimentos de câmera de Kubrick são muito originais, demonstrando uma notória evolução em relação ao trabalho anterior (A Morte Passou Perto). Foi com este filme que ele finalmente fez o seu nome ficar conhecido em Hollywood. Interessante ressaltar que Quentin Tarantino provavelmente bebeu desta fonte ao idealizar Cães de Aluguel.
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6. Nascido Para Matar (Full Metal Jacket, 1987)


Nascido Para Matar é dividido em duas partes. Na primeira, o ator R. Lee Ermey oferece uma metralhadora de xingamentos e piadas ao discursar para os futuros fuzileiros navais. O sargento Hartman deve prepará-los para a guerra, algo que faz com muita intensidade. As cenas do treinamento passam voando. É digno de pena ver o soldado Pyle sofrendo nas mãos do sargento Hartman e dos outros soldados. Na segunda parte, o cenário é a guerra do Vietnã propriamente dita. Assim como na primeira parte, acompanhamos o soldado Joker (Matthew Modine). O personagem se torna um mistério tanto para os outros soldados, como para o público. Ele utiliza um símbolo da paz, ao mesmo tempo em que pinta no capacete a frase: Nascido Para Matar. Ele explica para um oficial que isso se deve a dualidade do homem, mas nunca o compreendemos realmente. Ao contrário do que muitos pensam, não considero este um filme anti-belicista. Kubrick simplesmente mostra a guerra como ela é. Claro, o final extremamente forte é um sinal de como a guerra é ruim, mas como diz Joker: Sim, estamos em um mundo de merda. Mas estou vivo e eu não tenho medo!
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7. O Iluminado (The Shining, 1980)

Esta adaptação do livro de Stephen King é um terror psicológico de qualidade. Jack aceita o emprego de zelador do hotel Overlook durante o inverno. Vai passar 5 meses lá com a mulher e o filho e ninguém mais por perto. O clima de suspense é muito forte, pois além do isolamento em que eles se encontram, aos poucos percebemos que o Overlook não é um simples hotel. A atmosfera do local é muito carregada, afetando o já perturbado Jack cada vez mais. Jack Nicholson compõe o personagem de um jeito até exagerado, mas eficiente. Kubrick nos dá alguns sustos, mas o que realmente dá medo é a sensação de pavor e estranhamento que o local proporciona. Algumas cenas surreais e outras muito gráficas, como o sangue descendo pelo elevador, são muito assustadores. Alguns detalhes colaboram ainda mais para o sucesso do filme, como o lado sobrenatural do filho de Jack e um assassinato ocorrido no hotel há anos.
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8. De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999)


Último trabalho do diretor e um dos mais controversos. É uma história que possuis várias metáforas e que permite várias interpretações. O médico Bill Halford, interpretado por Tom Cruise, tem uma conversa tensa com a esposa: após puxar um fuminho, Alice (Nicole Kidman) revela para Bill que durante uma viagem da família ela desejou intensamente um outro homem, estando disposta a largar tudo para passar uma noite que fosse com ele. Com isso na cabeça, Bill sai por Nova York em uma jornada erótica, em que ele se depara com mulheres da noite e até mesmo com uma orgia. A trilha sonora na sequência da festa cria um clima de intensidade total. O resultado dessa viagem se mostra perigoso. Bill se sente vigiado e ameaçado por pessoas que ele nem imagina quem são. O que motiva Bill a tomar as atitudes que toma? Ciúmes? Vingança? E sobre o que realmente é o filme? Um sonho? Uma alegoria psicológica? Um suspense direto e sem enrolações? Difícil chegar a uma conclusão, mas pensar sobre as possibilidades já é mais do que satisfatório.
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9. Barry Lyndon (Barry Lyndon, 1975)


Inspirado em pinturas do período, Barry Lyndon se passa no século XVIII. É considerado por muitos como a obra mais bonita de Kubrick, algo que devo concordar. A composição de cada cena foi feita de maneira milimétrica. Kubrick se preocupava até em como os atores andariam em cena. O diretor buscou a perfeição em termos técnicos e conseguiu. Figurinos originais, fotografia poética e uma direção de arte fabulosa fazem da experiência um deleite. Como pontos fortes temos as cenas filmadas à luz de velas, além das sequências mostrando duelos e movimentação de exércitos. Mas, e quem foi Barry Lyndon? Longe de ser um herói que merecesse reconhecimento, ele foi apenas um homem que se utilizou da esperteza para tentar crescer socialmente. O fato do assunto principal do filme ser um personagem desse tipo já é irônico, mas as ironias não param por aí. A narração em off garante nosso riso com o canto de boca quando diz coisas do tipo: Somente um grande grupo de historiadores e filósofos para explicar os motivos que levaram a esta guerra ou Esta batalha não está nos livros de História, mas foi memorável o suficiente para quem participou dela. Barry Lyndon é recheado de cenas realmente tristes, mas elas demonstram que Kubrick não tinha simpatia alguma em relação ao personagem principal.
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10. Lolita (Lolita, 1962)


A polêmica tem torno de Lolita foi muito grande e não era para menos. Lolita ainda era uma garota de escola e já despertava um enorme desejo em Humbert, que deveria ter seus 50 e poucos anos. A mãe de Lolita se oferece a Humbert de várias maneiras. Vê-lo rejeitando a mulher garante algumas risadas, principalmente devido ao sarcasmo do homem. O fato é que Lolita enlouquece Humbert aos poucos e este vai ficando cada vez mais ciumento e obsessivo. Depende da gente decidir se ela era uma garota inocente ou se queria apenas brincar com os sentimentos e desejos de Humbert. Outro ponto interessante, é que a história começa com um assassinato e passa a ser contada em flasback, o que nos deixa curiosos para saber como as coisas tomaram tal rumo. Kubrick se mostra corajoso e provocativo aqui, principalmente para a época em que o filme foi lançado.
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11. Spartacus (Spartacus, 1960)


Spartacus é um épico grandioso. Kubrick não teve o controle artístico que desejava, portanto boa parte das marcas registradas do diretor não estão presentes. De qualquer forma, Kubrick comanda este épico com muita segurança. As sequências de batalhas são lindas, fazendo lembrar Ran, de Kurosawa. São mais de 3 horas de duração e mesmo assim ele não é cansativo. O trabalho técnico nos faz sentir em Roma (e adjacências) e as ótimas atuações também ajudam nesse sentido. Peter Ustinov, Charles Laughton e Kirk Douglas estão excelentes aqui. O roteiro toma várias liberdades para contar a história de Spartacus, o escravo que se tornou gladiador e tentou enfrentar o poder romano. No geral, é um épico anti-belicista, violento (a cena do braço decepado é um exemplo) e que puxa um pouco para o lado sentimental, além de ser dono de um dos quotes mais famosos do cinema: I AM SPARTACUS!!!
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12. A Morte Passou Perto (Killer’s Kiss, 1955)


Apesar de não ser um grande trabalho do diretor, A Morte Passou Perto tem qualidades que merecem destaque. A história é sobre um boxeador que nunca deixou de ser apenas uma promessa, mas que agora tem uma chance de se destacar. Ele conhece uma vizinha e se apaixona, mas o relacionamento se mostra mais perigoso do que ele imaginava. Os pontos fortes estão na parte técnica. Kubrick executa movimentos de câmera bem interessantes, além de trabalhar com a iluminação de maneira exemplar. A narração em off ajuda a criar um clima de mistério e suspense, além de um ar noir. As atuações não são muito boas, mas era o que o baixo orçamento poderia comprar. O clímax é construído com habilidade, com uma ótima cena de perseguição em cima de telhados e uma briga cujas armas são machados e manequins. Pena que as atuações e a história de amor não convencem.
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13. Medo e Desejo (Fear and Desire, 1953)

Nem o mais cego fã de Kubrick pode negar que este filme é ruim. As falhas estão em todos os lugares: no roteiro, na trilha sonora e, principalmente, nas atuações. Você simplesmente não consegue acreditar nos personagens, interpretados de maneira muito teatral. Quatro soldados se encontram isolados e perdidos em meio às linhas inimigas, algo que os afeta psicologicamente. Trata-se de uma alegoria de como a guerra prejudica o bom senso do homem. Apesar de curto, Medo e Desejo é entediante e não mostra o estilo do diretor. Em termos técnicos, a edição é bem realizada, fazendo lembrar os filmes de Eisenstein. Mas é só. O próprio Kubrick decidiu tirar o filme de circulação, por considerá-lo amador demais. Até entendo a atitude, mas acho que, pelo interesse histórico, cópias melhores poderiam estar disponíveis.
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DOCUMENTÁRIOS

The Seafarers: Primeiro trabalho a cores do diretor. Fala sobre as vantagens e benefícios de fazer parte da Seafarers International Union, uma organização para marinheiros, proprietários de barcos e afins. É meio chatinho, mas vale pela curiosidade de ver Kubrick trabalhando cedo. Ele consegue imprimir uma fluidez interessante ao trabalho, mas recomendo só para quem tem muito interesse no diretor.

Day of the Fight
: Ótimo documentário que retrata a situação dos boxeadores da época e que escolhe aleatoriamente um deles para mostrar como são os momentos que antecedem uma luta,  como os preparativos, alimentação e a mudança psicológica do boxeador para enfrentar o oponente. Se for escolher um dos três documentários de Kubrick para assistir, que este seja a sua escolha, gostando de boxe (o que ajuda) ou não.

Flying Padre
: O primeiro trabalho de Kubrick. Mostra um padre que usa um avião para ajudar os necessitados a resolverem os seus problemas. São apenas nove minutos de duração.

CURIOSIDADES
– Paul Thomas Anderson visitou os sets de De Olhos Bem Fechados e lá mesmo fez o convite para Tom Cruise participar de Magnólia.
– Raramente dava entrevistas.
– Era fã de futebol americano.
– Gostava de Seinfeld e Os Simpsons.
– De acordo com o amigo Michael Herr, Kubrick assistiu O Poderoso Chefão mais de 10 vezes e dizia que este era, provavelmente, o melhor filme já feito.
– Considerava Elia Kazan o melhor diretor americano.
– Era amante de gatos, chegando a ter 16 ao mesmo tempo.

QUOTES DE STANLEY KUBRICK
– Nunca aprendi coisa alguma na escola e só li um livro por prazer pela primeira vez aos 19 anos.
– Se pode ser escrito, ou pensado, pode ser filmado.
– Pode soar ridículo, mas a melhor coisa que jovens cineastas podem fazer é pegar uma câmera e um pouco de filme e fazer um filme de qualquer tipo.
– A destruição deste planeta não teria significado em uma escala cósmica.
– Tenho uma esposa, três crianças, três cachorros e sete gatos. Não sou um Franz Kafka, sentado sozinho e sofrendo.
– Para fazer um filme inteiramente sozinho, algo que fiz inicialmente, talvez você não precise saber muito sobre outras coisas, mas você precisa saber sobre fotografia.
– Nem sempre sei o que quero, mas eu sei o que eu não quero.
– Existem poucos diretores que você deveria ver tudo o que eles fizeram. Eu colocaria Fellini, Bergman e David Lean no topo da minha primeira lista e Truffaut no topo do próximo nível.


VIDEOS

PROJETO INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Kubrick  queria esperar a hora certa para iniciar a produção do filme. Ele sabia que não ia demorar muito para que a tecnologia disponível fosse tão avançada quanto o roteiro precisava que ela fosse. Kubrick discutia muito sobre o filme com Spielberg, e chegou um momento em que Kubrick decidiu passar o projeto de Inteligência Artificial para as mãos de Spielberg, alegando que ele próprio não tinha o tipo de sensibilidade exigida pela história.

PROJETO NAPOLEÃO
Kubrick leu centenas de livros sobre o tema e disse que pretendia fazer o melhor filme já feito. David Hemmings possivelmente seria Napoleão e Audrey Hepburn era a escolha favorita para ser Josefina. O projeto era extremamente ambicioso. As locações seriam na França e Reino Unido e cerca de 50 mil soldados seriam contratados como figurantes para as cenas de batalha. O filme não saiu do papel graças ao enorme custo que ele demandaria, além da decepção em termos de bilheteria do filme Waterloo (sobre o mesmo tema). Em 1987 ele disse que ainda não havia desistido totalmente da ideia, pois acreditava que nenhum filme realmente bom sobre o personagem havia sido feito. Alguém dúvida que ele faria o filme definitivo sobre Napoleão? Quem tiver interesse pode ler o roteiro (first draft) clicando AQUI.

PROJETO ARYAN PAPERS
Aryan Papers era um projeto de Kubrick em que ele recriaria o Holocausto. A história seria sobre uma mulher e seu sobrinho tentando se esconder durante o período. O diretor cogitava escalar Uma Thurman ou Julia Roberts para o papel da tia e Joseph Mazello para ser o garoto. Kubrick desistiu da ideia por dois motivos: em 1993 Spielberg lançou A Lista de Schindler, com a mesma temática e além disso, ele considerava o tema doloroso e depressivo demais para que o cinema conseguisse captar com precisão sua essência.

FONTES PESQUISADAS
IMDb
Kubrick.com
Rotten Tomatoes
Wikipedia
Kubrick Multimedia Film Guide

COMENTÁRIO FINAL
Um dos melhores diretores do todos os tempos. Fez poucos filmes, mas todos são infinitos em seus significados e qualidades.

/bruno knott

The Walking Dead – 1×05: Wildfire


NOTA: 9

O quarto episódo acabou com o massacre no acampamento e aqui vemos as consequências de todo aquele caos. Como lidar com tantas perdas? Como absorver o fato de que ninguém está a salvo e como ter esperanças no futuro? Foi no mínimo tocante acompanhar Andrea chorando a morte da irmã. Como todos sabemos, uma pessoa mordida em breve se transforma em zumbi e não é muito inteligente ficar esperando isso acontecer. O suspense enquanto Andrea observa a irmã se transformando é quase insuportável e a resolução disso não poderia ser mais forte.

Falando em cenas fortes, a campeã desse episódio é aquela em que a mulher de cabelo raspado pega uma foice e desfere repetidos golpes na cabeça do marido morto! Quanta ira, quanta angústia de uma mulher submissa que ela botou pra fora. E fez bem, eu diria. Gore autêntico e corajoso aqui.

A trajetória de Jim foi curta, mas agoniante. Ele também foi mordido e em breve vai se transformar. É difícil demais para o grupo tomar a atitude correta. Apesar de viverem num mundo destruído, eles ainda são seres humanos e guardam o mínimo de sentimento uns pelos outros. Mas… algo tem que ser feito. Também é preocupante ver Shane quase perdendo o bom senso. Ele não consegue esquecer o tempo que passou com Lori e algo me diz que isso não vai acabar nada bem.

O grupo quer abandonar o acampamento, mas fica a dúvida: ir para onde? Procurar os militares ou o CDC? Eles decidem pela segunda opção, esperando encontrar cientistas trabalhando em busca de uma cura para tudo isso. Aparentemente no CDC não resta nada, a não ser UM médico. Quando o Dr. Jenner trabalhava em cima de uma amosta me lembrei de Will Smith em Eu Sou a Lenda, o que não deixa de ser interessante.

Interessantes mesmo são as cenas finais e a nada sutil referência a LOST. Lembram quando Locke ficou desesperado batendo na escotilha, pedindo por uma resposta e na sequência vemos uma luz sendo acesa lá dentro? Foi quase o que aconteceu aqui, a diferença é que já sabíamos da presença do Dr. Jenner dentro do prédio e em Lost reinava o mistério.

Mas… o que o grupo vai ganhar com essa visita? A resposta vem no episódio final da primeira temporada, que está excelente.

/the walking dead – 1×05: wildfire
bruno knott,
sempre.

Alfred Hitchcock

OBJETIVO DO POST
Pesquisando no Google podemos encontrar algumas páginas interessantes sobre Hitchcock, mas, boa parte delas não passa de um copie e cole descarado. Obviamente, minha fonte principal é o IMDb, mas fui atrás de boa parte da filmografia disponível no Brasil, portanto, trago aqui opiniões pessoais e diretas, sem enrolação. Os reviews estão logo após a lista da filmografia completa.

Teoricamente, não é um post para ser ler inteiro de uma vez e sim para consultar aos poucos.

Vai me acompanhar nesta bela viagem ou NÃO?

PEQUENA BIOGRAFIA
Hitch nasceu em 13 de Agosto de 1899, em Londres, Inglaterra. Ele teve uma rígida educação católica e seu primeiro emprego foi em uma empresa de telégrafo em 1915. Mais ou menos nessa época, Hitch começou a se interessar por filmes, indo ao cinema e lendo jornais americanos.

Em 1920 conseguiu um emprego no estúdio Lasky e 3 anos depois recebeu a chance de dirigir um filme ou pelo menos, finalizar o filme, pois o diretor havia ficado doente.

Logo após, foi contratado pelo Gainsborough Pictures, trabalhando como diretor assistente, roteirista e diretor de arte. Em 1925, dirige, de fato, o seu primeiro filme: The Pleasure Garden.

Hitch fez vários bons filmes na Inglaterra, mas tornou-se o famoso e importante diretor que conhecemos após mudar-se para os Estados Unidos, no início dos anos 1940.

Foram mais de 50 filmes dirigidos por ele e apenas 5 indicações ao Oscar, com Psicose, Janela Indiscreta, Rebecca, Lifeboat e Quando Fala o Coração. Nunca ganhou o prêmio de melhor diretor, mas Rebecca ganhou o de melhor filme em 1940.

O Mestre do Suspense morreu em 29 de Abril de 1980, aos 80 anos, nos EUA.

DEFININDO O ESTILO
Hitchcock era um diretor que se preocupava muito com o visual de seus trabalhos, portanto, é fácil reconhecer seus filmes. Ele tem uma marca e isso só os bons diretores conseguem. Ele era capaz de criar suspense de uma maneira extremamente habilidosa. Geralmente, o personagem não sabia o que estava acontecendo, mas o espectador sim. O filme Pássaros é um exemplo disso, principalmente na cena na qual a mulher está sentada em um banco do lado da escola e os pássaros vão chegando, cada vez em um número maior, sem ela notar.

Alguns temas ou situações aparecem em vários dos seus filmes, por exemplo, a história de um homem errado – alguém que é acusado de cometer um crime sem o ter feito.
Outro tema muito abordado, é a tentativa de se realizar um crime perfeito, um crime que se consiga realizar o intento principal, sem que ninguém desconfie de você. Aparentemente, os filmes dele ensinam que isso não é possível.

E o famoso MacGuffin? O dinheiro roubado em Psicose é o melhor exemplo disso. Chega um momento no qual você esquece completamente dos milhares de dólares.

Outra coisa fácil de perceber em seus filmes é que a bebida de escolha de 90% dos personagems é o bom e velho BRANDY.

Talvez Hitchcock não tenha feito tantos filmes com personagens bem desenvolvidos, mas, normalmente, conseguia arrancar ótimas atuações deles e compensava o pouco desenvolvimento criando situações nas quais o suspense ficava absurdamente elevado.

FILMOGRAFIA COMPLETA
1 Trama Macabra (Family Plot, 1976)
2 Frenesi (Frenzy, 1972)
3 Topázio (Topaz, 1969)
4 Cortina Rasgada (Torn Courtain, 1966)
5 Marnie, Confissões de uma Ladra (Marnie, 1964)
6 Os Pássaros (Birds, 1963)
7 Psicose (Psycho, 1960)
8 Intriga Internacional (North by Northwest, 1959)
9 Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958)
10 O Homem Errado (The Wrong Man, 1956)
11 O Homem que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much, 1956)
12 O Terceiro Tiro (The Trouble With Harry, 1955)
13 Ladrão de Casaca (To Catch a Thief, 1955)
14 Janela Indiscreta (Rear Window, 1954)
15 Disque M para Matar (Dial M for Murder, 1954)
16 A Tortura do Silêncio (I Confess, 1953)
17 Pacto Sinistro (Strangers on a Train, 1951)
18 Pavor nos Bastidores (Stage Fright, 1950)
19 Sob o Signo de Capricórnio (Under Capricorn, 1949)
20 Festim Diabólico (Rope, 1948)
21 The Paradine Case, 1947
22 Interlúdio (Notorious, 1946)
23 Quando fala o Coração (Spellbound, 1945)
24 Lifeboat, 1944
25 Bon Voyage, 1944
26 Aventure Malgache, 1944
27 A Sombra de uma Dúvida (Shadow of a Doubt, 1943)
28 Sabotador (Saboteur, 1942)
29 Suspeita (Suspicion, 1941)
30 Mr. & Mrs. Smith, 1941
31 Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent, 1940)
32 Rebecca, A Mulher Inesquecível (Rebecca, 1940)
33 A Estalagem Maldita (Jamaica Inn, 1939)
34 A Dama Oculta (The Lady Vanishes, 1938)
35 Young and Inocent, 1937
36 O Marido Era o Culpado (Sabotage, 1936)
37 O Agente Secreto (The Secret Agent, 1936)
38 Os 39 Degraus (The 39 Steps, 1935)
39 O Homem que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much, 1934)
40 Waltzes from Vienna, 1934
41 Number Seventeen, 1932
42 Rich and Strange, 1931
43 Mary, 1931
44 The Skin Game, 1931
45 Assassinato (Murder!, 1930)
46 Juno and the Paycock, 1930
47 Chantagem e Confissão (Blackmail, 1929)
48 The Manxman, 1929
49 Mulher Pública (Easy Virtue, 1928)
50 The Farmer’s Wife, 1928
51 Downhill, 1927
52 O Ringue (The Ringue, 1927)
53 O Pensionista (The Lodge: A Story of the London Fog, 1927)
54 The Pleasure Garden, 1925

FILMES VISTOS (ordem de preferência)

1. Psicose (Psycho, 1960)

Clássico absoluto. Hitchcock atinge o ápice de maneira magistral. Uma mulher rouba 40 mil dólares do seu chefe e foge, parando em um hotel de beira de estrada. Os 40 mil dólares não passam de uma desculpa para conduzir a moça até o hotel, é o famoso MacGuffin. A partir daí temos o melhor exemplo de como criar um filme de suspense. Tudo é construído para nos deixar com medo do hotel, do dono e de sua mãe. A cena do chuveiro é uma das mais famosas do cinema, não por acaso. Hitchcock mostra seu virtuosismo com enquadramentos interessantes e por ter criado um filme com uma atmosfera tão intensa. Destaque também para a atuação de Norman Bates e o estudo psicológico que é feito sobre o seu personagem.
Nota: 10

2. Janela Indiscreta (Rear Window, 1954)

Tudo se passa num mesmo cenário: uma sala em um prédio. James Stewart interpreta um homem que sofre um acidente e não pode andar por um bom tempo. Sua maior distração é observar os seus vizinhos no melhor estilo vouyer. É como se fosse um big brother. Mal sabe ele que isso pode trazer problemas. Janela Indiscreta passa voando. É fascinante acompanhar todos os vizinhos e suas próprias vidas. Claro, tudo melhora quando O Vendedor entra em cena. O filme tem um ar de mistério muito grande, queremos saber exatamente o que está acontecendo, mas Hitchcock nos coloca no ponto de vista do persoangem principal, portanto temos as mesmas dúvidas que ele. Não posso esquecer de Grace Kelly. A atriz desfila toda a sua beleza e competência aqui. A propósito, ela foi a atriz mais bonita de todos os tempos ou não?
Nota: 9

3. Festim Diabólico (Rope, 1948)

Um dos enredos mais sombrios que já vi. Dois estudantes resolvem cometer o assassinato perfeito e com requintes de crueldade. Eles matam um colega e colocam o corpo dentro de um baú da própria casa. Ah, sim.  Os dois dão uma festa e o buffet é servido em cima deste baú. Um dos convidados é o pai do garoto morto. Pesado, hein? Além do enredo ser interessante, os diálogos são fantásticos. Sobra espaço para ironias relacionadas ao cadáver e para discussões filosóficas envolvendo Nietzsche e Hitler. Hitchcock se destaca ao criar longos planos-sequência. São várias cenas de 10 minutos sem corte algum, contribuindo para aumentar a tensão e a veracidade do filme. A ideia era fazer o filme em uma tomada só, mas a tecnologia da época não permitia. Tudo se encaminha de uma maneira bem fluida até o imprevisível final.
Nota: 9

4. Pacto Sinistro (Strangers in a Train, 1951)

A mensagem de Pacto Sinistro é: não inicie conversas com desconhecidos dentro de um trem. Guy Haies está viajando de trem quando recebe uma proposta de Bruno Antony – outro passageiro. Bruno oferece seus serviços para cometer um crime que vai melhorar a vida de Guy, mas exige que Guy cometa um crime do interesse de Bruno. Como são dois desconhecidos, ninguém vai desconfiar. Mas, as coisas não vão sair como o planejado. O forte do filme é a habilidade de Hitchcock em criar cenas cheias de beleza e suspense. Cito algumas: Bruno se concentrando em sua presa em um jogo de tênis, uma perseguição envolvendo pedalinhos e um carrossel “assassino”. Imperdível.
Nota: 9

5. Os Pássaros (The Birds, 1963)

Um dos mais famosos. Annie vai da cidade grande até o interior para fazer uma surpresa para um homem que acaba de conhecer. Num primeiro momento, eu achava que havia algo de errado com esse homem e sua família. Sinceramente, estava ficando com medo deles, mas, em breve percebemos que o perigo são os pássaros. É legal perceber como a ameaça aumenta aos poucos. No começo um ataque isolado, depois um ataque maior contra umas crianças e assim por diante. Aqui temos a memorável cena do porão e mais um detalhe que me chamou a atenção: essa cidadezinha é completamente dominada pelos pássaros e todo mundo sofre as consequências disso sem receber ajuda de fora. Há apenas uma pequena notícia em uma rádio de São Francisco que fala sobre um certo aumento do número de pássaros na cidade. Desolador.
Nota: 8

6. Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958)

Me recuso a chamar o filme pelo nome em português. Para mim é Vertigo. É um thriller que mostra que nem tudo é o que parece. Scottie descobre que tem medo de altura e abandona seu trabalho como detetive. Só que não demora muito e um amigo pede uma pequena ajuda. Esse amigo quer que Scottie investigue a sua mulher, pois ele desconfia de algo. Hitchcock sempe se destacou na concepção de imagens e aqui não foi diferente. Existem várias cenas com poucos diálogos e belas imagens. Simplesmente acompanhamos Scottie perseguindo e aos poucos ficando obcecado por tal mulher. São os melhores momentos de Vertigo, sem dúvida.
Nota: 8

7. O Homem Errado (The Wrong Man, 1956)

Eu diria que O Homem Errado é dois filmes em um. Na primeira parte, somos apresentados a um homem acima de qualquer suspeita. É respeitado pelos colegas de trabalho, é um bom pai e tem um bom relacionamento com a mãe. O fato é que o acusam de cometer crimes na região. As testemunhas não têm dúvida ao afirmar que ele é o culpado. Essa é a melhor parte do filme, pois há um mistério e uma dúvida muito grande para o público. Não sabemos em quem acreditar, apesar dos pontos positivos do personagem. A segunda parte é basicamente uma história de tribunal e aí ele perde um pouco da qualidade, mas se mantém acima da média.
Nota: 8

8. Trama Macabra (Family Plot, 1976)

O último filme do diretor. O começo não estava me agradando em nada, principalmente pela péssima atuação da atriz principal, mas, aos poucos ele cresce em qualidade, transformando-se em um excelente exemplo de filme de investigação, recheado de suspense, mistério e até mesmo ação. Ótimo.
Nota: 8

9. Frenesi (Frenzy, 1972)

Por essa foto dá pra perceber que não há economias no humor negro. A cidade de Londres está apreensiva com o surgimento de um Serial Killer, cuja marca é enforcar mulheres com gravatas. Como não poderia deixar de ser, o principal suspeito é um cara que não tem nada a ver com os crimes e ele vira um fugitivo. Mortes violentas, nudez, humor negro e cenas extremamente engraçadas envolvendo uma gastronomia exótica podem ser encontrados neste ótimo filme.
Nota: 8

10. Disque M para Matar (Dial M for Murder, 1954)

O tema do crime perfeito é abordado novamente. No papel o crime perfeito é uma coisa, já na realidade, é outra. É impressionante como Hitchcock cria cenas memoráveis em quase todos os seus filmes. A cena memorável em Disque M para Matar é essa da foto. Outra situação interessante é todo o esforço do marido para não ser preso e do investigador para descobrir o verdadeiro culpado.
Nota: 8

11. Rebecca, A Mulher Inesquecível (Rebecca, 1940)

Único filme de Hitchcock a levar o Oscar de melhor filme, em 1940. O começo é meio enrolado, com uns diálogos extremamente datados, chegando a ser chato. Quando começamos a conhecer Rebecca as coisas melhoram sensivelmente. Rebecca está morta há um tempo, mas sua presença pode ser sentida por toda a casa. Preparem-se para uma interessante reviravolta.
Nota: 7

12. Intriga Internacional (North by Northwest, 1959)

Um Hitchcock diferente. Intriga Internacional tem muitos fãs, isso é inegável. Ele chama tanto a atenção pois trata-se de um blockbuster cheio de ação. Isso mesmo. Existem cenas de suspense, como uma que ocorre em uma estrada, mas ele é basicamente um filme de perseguição, no maior estilo gato e rato, culminando com a famosa cena no monte Rushmore. É considerado o embrião de filmes como James Bond e Indiana Jones. Minha reclamação: excessivamente longo.
Nota: 7

13. Marnie, Confissões de uma Ladra (Marnie, 1964)

Um verdadeiro estudo de personagem. Marnie é uma mulher traumatizada e é ótimo descobri-la. Por que ela teme trovões? Por que não suporta a cor vermelha? Por que ela rouba? Por que tem um relcionamento tão distante com a mãe? Os mistérios relacionados a ela vão sendo respondidos pouco a pouco. Destaque para a partipação do Sean Connery, com sua voz mais do que impactante.
Nota: 7

14. Sabotador (Saboteur, 1942)

Novamente, a questão do homem errado está em pauta. Um homem é acusado de ter botado fogo em um galpão cheio de aviões, mas ele é inocente. Ao mesmo tempo em que foge, ele tem que provar a sua inocência. Pode ser considerado um road movie, já que o homem passa por diversos lugares na sua fuga. Ele conhece várias pessoas, umas boas e outras nem tanto. Um filme bacana de se assistir, ainda mais quando se aproxima do seu desfecho, que ocorre no topo da estátua da liberdade.
Nota: 7

15. Cortina Rasgada (Torn Courtain, 1966)

Paull Newmann e Julie Andrews (aka Merry Poppins) estão neste interessante thriller de Hitchcock, cujo pano de fundo é a Guerra Fria e a tentativa dos americanos de descobrirem segredos relacionados a guerra nuclear. Há uma certa atmosfera de conspiração e duas ótimas cenas, dignas do grande diretor: um assassinato em uma fazenda e uma fuga de um ônibus. O problema do filme é que ele foi lançado logo após Marnie, Psicose e Os Pássaros.
Nota: 7

16. Topázio (Topaz, 1969)

Um filme irregular, mas com bons momentos que comprovam a genialidade do diretor. Mais uma vez os temas são guerra fria e espionagem e aqui a violência do período é bem retratada. Há uma história de amor um tanto bobinha, que não colabora em nada para o enredo.
Nota: 7

17. O Terceiro Tiro (The Trouble With Harry, 1955)

Em um dos melhores trabalhos de fotografia dos filmes do Hitchcock, tudo se desenrola em uma cidade do interior com um clima bem bucólico, onde parece que nada acontece. Isso até vermos um corpo estendido no chão. Quem matou esse homem? É o mistério que permanece durante quase todo o filme. O Terceiro Tiro tem um ritmo agradável, com aquele tipo de humor que nos faz rir com o canto de boca, no melhor estilo inglês.
Nota: 7

18. Pavor nos Bastidores (Stage Fright, 1950)

Uma bela fotografia em preto e branco e mais uma vez o recorrente tema do homem inocente que é considerado culpado. Não é dos mais marcantes, porém a cena final é uma das melhores dos filmes do Hitchcock.
Nota: 7

19. O Ringue (The Ringue, 1927)

Considerado por muitos como o melhor filme mudo do diretor. Acreditem, eis uma história de amor. Apesar das atuações um tanto datadas, tem muita coisa boa aqui. A história é meio piegas, basicamente dois homens vão lutar pela mão de uma mulher. O legal é observar algumas técnicas do diretor, como desfocar a câmera ao mostrar um personagem bêbado.
Nota: 7

20. A Estalagem Maldita (Jamaica Inn, 1939)

Piratas + Hitchcock é uma combinação interessante, ainda mais quando são piratas sanguinários. O destaque vai para o ator Charles Laughton e seu personagem marcante. É uma adaptação de um livro conhecido da língua inglesa e pelas críticas que eu li, parece que o Hitchcock não conseguiu transmitir a essência dele.
Nota: 7

21. O Pensionista (The Lodge: A Story of the London Fog, 1927)

Inspirado na reputação de Jack, o Estripador, o serial killer que atormentava londres. Alguns bons momentos de suspense e uma reviravolta previsível.
Nota: 6

22. O Homem que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much, 1934)

O único filme que eu não gostei. Os acontecimentos me pareceram um tanto forçados e falsos. Só consigo destacar uma cena dentro de um consultório odontológico. Acho que nem mesmo o Hitch gostou do filme, se não ele não teria feito um remake 20 anos depois.
Nota: 5


Curiosidades
Foi condecorado cavaleiro em 1980, mesmo ano de sua morte.
Virou cidadão americano em 1956.
Considerava Luis Buñel o melhor diretor de todos os tempos.
Fez o discurso mais curto da História do Oscar: ao receber o prêmio Irving Thalberg em 1967, simplesmente disse “Obrigado”.
Era torcedor do West Ham United.


Quotes/Citações
Não há terror no bang e sim na espera por ele.
– Faça o público sofrer o máximo possível.
– Para fazer um grande filme você precisa de três coisas – o roteiro, o roteiro e o roteiro.
– Cary Grant é o único ator que amei em toda a minha vida.


Vídeos
Os famosos cameos de Hitchcock.

Sites
http://www.imdb.com/name/nm0000033/
http://en.wikipedia.org/wiki/Alfred_Hitchcock
Terra cinema
Espelho imperfeito


– B.K.