Crítica: Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, 1955)

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A presença da lenda James Dean já faz de Juventude Transviada um filme que merece ser visto, mas devo dizer que a obra como um todo me desagradou bastante. O objetivo do filme é claro e interessante: mostrar jovens problemáticos com imensas dificuldades de conviver entre eles e com os pais. Temos aqui exemplos de bullying, de pais passivos e absurdas demonstrações de coragem para manter a honra intacta. Para analisar Juventude Transviada devemos levar em conta a época e o contexto em que foi produzido, mas mesmo assim a sensação é de que estamos diante de sequências exageradas, arrastadas e pouco realistas. Fiquei ainda mais decepcionado com o filme por se tratar do diretor Nicholas Ray, que produziu o excelente Johnny Guitar. Se não fosse por James Dean eu apostaria que Juventude Transviada cairia em total esquecimento.
[6.5]

M, O Vampiro de Dusseldorf (1931)

m-1931-fritz-lang O diretor Fritz Lang criou em M um thriller psicológico recheado de suspense e mistério. Somos apresentados a uma cidade em estado crescente de tensão, afinal, um psicopata está à solta. Oito crianças já foram mortas e parece que os crimes não terão um fim tão cedo. A população está visivelmente desconfiada e em pânico, tanto que qualquer um que aparenta ser suspeito passa a ser perseguido ferozmente. Uma associação de bandidos decide ir à procura do assassino, já que as constantes rondas policiais acabam atrapalhando seus “negócios”. São vários os elementos que fazem de M uma experiência cinéfila das mais interessantes, como a fotografia em preto e branco, o jogo de luz e sombra e os movimentos de câmera requintados de Fritz Lang. Devemos ressaltar também do uso do som, como o assobio que anuncia o vilão e de simbologias inspiradas, como o balão preso nos fios de energia. Em uma interpretação magistral, Peter Lorre permite que sintamos pena de seu personagem em uma cena crucial. Ele tenta salvar a própria vida com argumentos desesperados que nos fazem refletir. M é dono de uma profundidade notável, permitindo discussões relevantes sobre os atos do assassino. Mesmo 80 anos depois, M ainda perturba e impressiona. Obra-prima incontestável do cinema. 9/10 m-1931 m-1931-1 m-1931-2 m-1931-3 m-fritz-lang-1931-1

A General (The General, 1926)

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Junto com Charlie Chaplin, Buster Keaton foi o grande nome da comédia do cinema mudo. Há quem defenda que ele foi até melhor que Chaplin, discussão essa que considero infrutífera. Ambos marcaram época e realizaram trabalhos memoráveis. Além do mais, eles se destacavam em diferentes aspectos do humor, impedindo uma comparação mais precisa.

Em A General, Buster Keaton interpreta Johnnie Gray, um engenheiro com duas paixões: o trem chamado “general” e a jovem Annabelle. Tudo se passa no início da Guerra da Secessão quando Johnnie Gray resolve se alistar para impressionar a moça, mas é impedido pelo exército que considera seu trabalho como engenheiro ferroviário mais importante. O problema é que a garota e a família dela acham que ele está fugindo da guerra por ser covarde.

Quando espiões da União roubam a locomotiva com Annabelle dentro, Johnnie é o primeiro a persegui-los e tentar o resgate.

Em sua estreia nos idos de 1926, A General foi um fracasso de público e de crítica, decepcionando bastante Buster Keaton. Após algumas décadas, o filme passou a ser admirado e hoje em dia é figurinha carimbada em diversas listas de “melhores de todos os tempos”.

Uma das coisas que mais chama a atenção aqui é a recriação de época, com os uniformes dos soldados, os cenários e a atmosfera daquele período histórico transmitida com maestria. Mas é claro que o filme é de Buster Keaton. São várias as sequências de ação repletas de ousadia e inventividade, com o detalhe de que Keaton não utilizava dublês. Ele se arriscava andando em cima de trens em movimento e arremessando uma estaca de madeira para remover outra do trilho, só para citar alguns exemplos. É difícil não se impressionar com essas cenas que demonstram a coragem e a capacidade artística do ator, que jamais alterava sua expressão facial, independente da situação. Esse jeito sóbrio e tranquilo virou a marca registrada de seus personagens, além do fato de geralmente não saber o que ocorria à sua volta.

Temos também gags visuais inspiradas e um ótimo humor pastelão, sempre surgindo nos momentos certos e garantindo boas risadas.

Apesar de gostar de cada segundo do filme, A General não é o meu preferido do diretor/ator. Quem ocupa essa posição atualmente é Leis da Hospitalidade, de 1923.
8/10

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Crítica: Napoleon (1927)

napoleon-1927-posterNapoléon, épico do cinema mudo do visionário diretor Abel Gance, foi lançado em um período que marca o início da transição para o cinema falado. A ideia original era a realização de seis filmes biográficos sobre Napoleão Bonaparte. Só este primeiro capítulo possuía seis horas em sua versão original, imaginem só. Infelizmente, o projeto não foi para frente pela baixa receptividade do público e apenas um filme foi produzido. Existem algumas versões dele disponíveis por aí e eu acabei assistindo a de 5 horas e meia. Posso dizer que este é o filme mais longo que já vi, naturalmente.

napoleon-1927O primeiro aspecto de Napoléon que deve ser exaltado é a ambição do projeto. Tudo aqui é em grande escala. São milhares de figurantes, vários cenários, cenas de ação e uma enorme duração. Uma biografia de um personagem histórico como Napoleão exige uma superprodução e é isso que Abel Gance nos oferece.

napoleon-1927-1Chamar Abel Gance de visionário está longe de ser um exagero. São várias as inovações técnicas que podem ser observadas ao longo do filme, como o uso da câmera na mão, alguns efeitos especiais, montagem acelerada, divisão da tela em três e closes bem fechados. Só por isso já valeria a pena, mas o roteiro também merece elogios por conseguir nos manter interessados na maior parte do tempo.

napoleon-1927-2Tudo começa com o Napoleão ainda criança e já demonstrando uma essência beligerante ao participar de uma guerra de bola de neve. Não ficam de fora também cenas em que ele sofre na mão de outras criança sem perder o orgulho e o espírito agressivo.

napoleon-1927-3Vários momentos chaves da Revolução Francesa são recriados e muitos nomes importantes são mostrados, como Marat, Danton e Robespierre. Ainda que muita coisa seja idealizada, todos que gostam de História ficarão fascinados.

napoleon-1927-4Não dá para negar que o filme é irregular, mas é algo esperado devido as mais de 5 horas de duração. Ele perde um pouco de força e torna-se arrastado quando foca na relação entre Napoleão e Josefina, algo que dura mais ou menos uma hora. De qualquer forma, são várias as sequências intensas e enérgicas, como uma batalha que acontece à noite em meio a uma chuva torrencial. A trilha sonora composta por Carl Davis em 1979 combina perfeitamente com o que vemos na tela, deixando tudo ainda melhor.

napoleon-1927-5Napoleon é sem dúvida um marco do cinema. Quem tiver a oportunidade (e um pouco de paciência) de assistir certamente vai se sentir recompensado. Épico!

8/10

FICHA TÉCNICA
Napoleon (1927)
Duração: 330 min
Direção: Abel Gance
Roteiro: Abel Gance
Elenco: Albert Diudonné, Vladimir Roudenko, Edmond Van Daële
Info: IMDb

Greve (1925)


Nota: 8

É impossível não associar este filme com uma forte propaganda política, mas com o passar dos anos o que continua impressionando as gerações de cinéfilos é a qualidade do diretor Sergei Eisenstein atrás das câmeras. Este foi o primeiro longa metragem dele, que na época tinha menos de 30 anos. Em Greve existem cenas de ação extremamente empolgantes, fruto da genialidade de Eisenstein, principalmente no quesito montagem. Sem falar nos belos e criativos ângulos utilizados.

Um trabalhador é acusado de roubo pelos patrões e se mata em protesto. Isso gera uma ira na classe trabalhadora que entra em greve e exige reinvindicações. Nada muito exagerado, tudo o que eles queriam eram 8 horas de trabalho por dia e também receber um tratamento digno dos chefes. Os patrões são retratadados como verdadeiros magnatas, fumando charutos e bebendo conhaque. O humor está presente quando um desses patrões limpa sua bota utilizando as reinvindicações e depois há um anúncio da fábrica dizendo que tudo foi bem analisado. A fábrica considera sem sentido o que está sendo pedido e tudo é negado.

E aí ninguém segura o povo. Os grevistas se transformam em um personagem, o famoso “herói coletivo”. A capacidade de Eisenstein de orquestrar as cenas de repressão é marcante. Os bombeiros tentam dispersar a multidão com água e confesso que nunca esse elemento me pareceu tão perigoso como aqui. Não faltam cenas extremamente cruéis, envolvendo crianças e grandes doses de covardia. É histórico o simbolismo utilizado pelo diretor, quando ele mostra o gado sendo abatido, intercalando com imagens dos policiais não poupando ninguém. Claro que o filme é um tanto esquemático e exagera na propaganda, mas acredito que é um daqueles filmes obrigatórios para nós amantes do cinema.

Título original: Stachka
Ano: 1925
País: União Soviética
Direção: Sergei M. Eisenstein
Roteiro: Sergei M. Eisenstein, Grigori Aleksandrov
Duração: 82 minutos
Elenco: Grigori Aleksandrov, Maksim Shtraukh, Mikhail Gomorov

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bruno knott,
sempre.