O Homem da Câmera (1929)

a-man-with-a-movie-cameraDirigido por Dziva Vertov, O Homem da Câmera é um filme totalmente experimental. Não há letreiros e nem trama. O objetivo de Vertov era documentar a realidade utilizando os mais variados recursos técnicos, como sobreposição, tela dividida e até animação. São mostradas as mais rotineiras cenas do cotidiano de uma grande cidade, com seu trânsito, casamentos, divórcios e até partos, quase sempre acompanhando o homem que carrega a câmera para os lugares mais ousados. Trata-se de um trabalho vanguardista e influente, além de servir como um belo registro histórico. São cerca de 1 hora e 10 minutos dessas imagens. Quando começamos a ficar levemente entediados com o que vemos, eis que surge a melhor parte: cenas de esportes filmadas com câmera lenta.
8/10

Andrei Tarkovsky

Desde quando criei o Cultura Intratecal faço perfis de diretores que admiro bastante. Os primeiros foram de Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick, agora chegou a vez do cineasta russo Andrei Tarkovsky. Aqui você poderá ler sobre a vida de Tarkovsky e também comentários meus sobre cada um dos seus filmes, que estão colocados em ordem de preferência. Não há dúvidas que Tarkovsky é um dos diretores mais importantes de todos os tempos. Para Ingmar Bergman, por exemplo, ele foi simplesmente o maior.

BIOGRAFIA
Nascido na vila de Zavrazhye em Ivanovo Oblast, Rússia, em 4 de abril de 1932, filho do peota russao Arseny Tarkovsky e de Maria Vishnyakova, formada em literatura. Foi descrito como uma criança ativa e popular, cheia de amigos. Em 1937 o pai deixou a família e em 41 foi para a guerra. Foi morar com a mãe em Moscou. Aprendeu a tocar piano e frequentava a escola de arte. Em 1947 sofreu de tuberculose. 
Em 1954 matriculou-se na VGIK para estudar cinema, local que conheceu a futura esposa, Irma Raush. Assistiu a vários filmes de Bergman, Kurosawa, Buñuel e Robert Bresson. Dirigiu o primeiro filme em 1956, uma adaptação de um conto de Ernest Hemingawt chamado The Killers. Morreu em 29 de dezembro de 1986 em Paris, devido a um câncer pulmonar.

ESTILO
Tarkovsky é um daqueles cineastas que tem um marca própria. Assim como acontece com os filmes de Kubrick, saber que você está assistindo a um filme de Tarkovsky é fácil. Ele era um diretor que não tinha pressa. Sempre utilizou longas tomadas, explorando a beleza da fotografia de uma maneira sem igual. Todos os seus filmes não terminam com a última cena, quer dizer, você inevitavelmente vai pensar sobre eles, vai tentar decifrar o que Tarkovsky quis dizer ou simplesmente vai discutir com alguém sobre os inúmeros temas vitais que ele aborda. Às vezes os seus filmes exigem um pouco de paciência, mas uma vez que você se acostuma com estilo dele, vai entender o porque de ele ser considerado um dos grandes mestres do cinema.

FILMOGRAFIA COMPLETA
O Sacrifício (Offret, 1986)
Nostalgia (Nostalghia, 1983)
Tempo di viaggio (documentário para TV, 1983)
Stalker (Сталкер, 1979)
O Espelho (Zerkalo, 1975)
Solaris (Solyaris, 1972)
Andrei Roublev – O Artista Maldito (Andrey Rublyov, 1966)
A Infância de Ivan (Ivanovo detstvo, 1962)
The Steamroller and the Violin (Katok i skripka, 1961)
There Will Be No Leave Today (curta-metragem, 1959)
The Killers (curta-metragem, 1956)

REVIEWS  (em ordem de preferência)
1 Stalker (Сталкер, 1979)

Tarkovsky faz da Zona um local com uma atmosfera opressiva, perigosa. Trata-se de uma área natural gigante, mas que possui alguns objetos que a tornam assustadora, como tanques enferrujados, seringas, símbolos religiosos na água e assim por diante. O diretor russo cria imagens de beleza extrema. É possível apertar o pause em qualquer cena que você terá uma verdadeira obra de arte. As longas tomadas e os movimentos de câmera peculiares de Tarkovsky nos passam a ideia de que estamos vendo um sonho. Somos hipnotizados por aquele mundo. Antes de tentar compreender o filme, devemos senti-lo, pois ele é nada mais nada menos do que poesia visual. É claro que existem várias discussões aqui, algumas filosóficas. Primeiro, o que é A Zona? O resultado de um meteorito? Algo feito por seres alienígenas? E o que leva as pessoas a se arriscarem lá dentro? Autoconhecimento, desejo de aventura ou a simples ambição de ter seus desejos realizados? As conversas dos personagens parecem sem propósito, mas na verdade estão cheias de significado. Um deles se pergunta sobre a arte, sobre a música, sobre o altruísmo e sobre a fé. Enfim, uma reflexão sobre o ser humano e sua relação com o mundo. Afinal, o que estamos fazendo aqui? Podem ser perguntas sem respostas, mas deve-se aplaudir um filme que faz esses questionamentos e nos deixa pensando sobre o assunto.
/mubi

2 O Sacrifício (Offret, 1986) 

Há um clima de melancolia por todo o filme que é reforçado pela fotografia espetacular do habitual colaborador de Bergman, Sven Nykvist e pelo local onde o filme foi filmado, a ilha de Gotland, próxima da famosa ilha Faro dos filmes de Bergman. O personagem principal tem longos monólogos em que ele fala sobre o medo da morte, sobre o fato de passar a vida esperando algo acontecer e sobre o sentimento de que existe algo errado com a civilização, tão errado que não há mais tempo para consertar. Assim como os personagens, somos surpreendidos pelo início de uma provável terceira Guerra Mundial e a única maneira de evitar o fim do mundo é o tal sacríficio do título, que não revelarei, apenas digo que envolve uma feiticeira local.  O filme nos faz pensar sobre o quão difícil é não fazer aquilo que realmente queremos e como somos impotentes perante a dura realidade da vida. De qualquer forma, há uma mensagem de esperança no fim de Sacríficio, o último filme de Tarkovsky.
/mubi 

3 Andrei Roublev – O Artista Maldito (Andrey Rublyov, 1966)

Talvez este seja o filme mais ambicioso do diretor. É a visão de Tarkovsky sobre a vida de Andrei Roublev, um pintor de ícones religiosos que viveu no fim da idade média. Trata-se de um verdadeiro épico mediavel com 3 horas e meia de duração, dividivo em 8 capítulos. Cada capítulo mostra situações e acontecimentos que influenciaram Roublev e que também são retratos da História da Russia. Por ser longo é natural que seja um pouco cansativo, mas é tão belo que não há como não se admirar. O preto e branco reforça ainda mais essa beleza única.
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4  A Infância de Ivan (Ivanovo detstvo, 1962)

O filme mais acessível de Tarkovsky nos mostra a participação do garoto Ivan na Segunda Guerra. É uma reafirmação sobre a crueldade e imbecilidade da guerra, que serve apenas para destroçar famílias e sonhos pessoais. A Infância de Ivan é sobre a perda precoce da inocência, sobre uma criança que ao invés de brincar de esconde-esconde e admirar a beleza de uma borboleta, ajuda o exército a reconhecer o território inimigo. É um material bem forte, que ainda conta com uma cena extremamente tensa e cheia de suspense que envolve uma travessia de barco em uma escuridão sufocante.
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Solaris (Solyaris, 1972)

Considerado um filme preparatório para a realização de Stalker, Solaris é uma ficção científica contemplativa e de ritmo lento. O mistério está presente do começo ao fim. O que está por trás de Solaris? É algo feito por seres humanos, por aliens ou algo além disso? Ele levanta algumas questões filosóficas, mas não as responde. Um personagem fala que felizes são aqueles que não se questionam sobre coisas importantes, o que dá uma boa ideia sobre o clima do filme. De qualquer forma, ele exige bastante atenção, pois não é fácil de ser absorvido. Em alguns momentos, ele traz a mesma sensação de ler Dostoievski bêbado.
/mubi 

6 O Espelho (Zerkalo, 1975)

Imagens fortes, poderosas e cheias de simbolismos são usadas para Tarkovsky contar a história de um homem que relembra toda a sua vida. Salta aos olhos o teor autobiográfico do filme, que muitas vezes é bem confuso  graças a uma mistura um tanto caótica de flashbacks, filmes históricos e poesias recitadas. Este é daqueles que pede mais do que uma assistida, mas o que dá para percerber e elogiar logo de cara é o poder de Tarkvosky de criar cenas poderosas, que ficam potencializadas por uma trilha sonora clássica e proporcionam uma experiência espiritual.  É considerado por muitos o trabalho mais impenetrável do diretor, algo que concordo.
/mubi 

 

7 Nostalgia (Nostalghia, 1983)

Nostalgia também não é uma experiência fácil de ser compreendia. É sobre um poeta russo que viaja até a Itália para pesquisar a vida de um compositor russo do século 18. O destaque aqui também são as imagens e o grande teor metafórico de algumas cenas, mas é o único filme do diretor que não me comoveu tanto, apesar do trágico final.
/mubi 

 

CURIOSIDADES
– Em quase todos os seus filmes há uma cena com o som de água pingando.

– Segundo ele, crianças entendem seus filmes melhor do que adultos.

– Gostava dos filmes de Bergman e de Kurosawa.

– Foi membro do júri no festival de Veneza em 1982.

– Dos seus filmes, o que menos gostava era Solaris

QUOTES
“My purpose is to make films that will help people to live, even if they sometimes cause unhappiness”.

“The only condition of fighting for the right to create is faith in your own vocation, readiness to serve, and refusal to compromise”.

“An artist never works under ideal conditions. If they existed, his work wouldn’t exist, for the artist doesn’t live in a vacuum. Some sort of pressure must exist. The artist exists because the world is not perfect. Art would be useless if the world were perfect, as man wouldn’t look for harmony but would simply live in it. Art is born out of an ill-designed world”.

PRÊMIOS
1988: 
BAFTA de melhor filme estrangeiro, por O Sacríficio.
1986: FIPRESCI, grande prêmio do júri, prêmio do júri ecumênico no Festival de Cannes, por O Sacríficio.
1983: Melhor diretor, prêmio FIPRESCI, prêmio do júri ecumênico no Festival de Cannes, por Nostalgia.
1980: Prêmio do júri ecumênico no Festival de Cannes, por Stalker.
1972: Prêmio FIPRESCI, grande prêmio do júri no Festival de Cannes, por Solaris.
1969: Prêmio FIPRESCI no Festival de Cannes, por Andrei Roublev – O Artista Maldito.
1962:
Prêmio Golden Gate, no festival de São Francisco por A Infância de Ivan

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Crítica: Stalker (1979)


Assim como fiz com os meus ídolos Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock, estou criando um perfil do Tarkovsky aqui no blog, que espero terminar até Fevereiro. Antes disso, resolvi fazer um comentário sobre o meu provável filme preferido do diretor: Stalker. Assisti a este filme pela primeira vez há uns 10 anos e confesso que não havia gostado muito. Acho que os meus 15 anos não me permitiam ter a paciência que ele exige. Some-se a isso o fato da minha bagagem cinematográfica ser bem pequena na época, algo que certamente dificultou a experiência.

Dez anos fazem diferença na vida de um cinéfilo! Não que eu tenha a capacidade de absorver tudo de filmes como os de Tarkovsky, mas pelo menos agora sei reconhecer o que é bom e posso dizer que Stalker é um dos grandes filmes que já assisti. Uma obra-prima com todo o merecimento.

Então, do que se trata? Temos aqui três personagens centrais: O professor, o escritor e o Stalker.  O Stalker é o responsável por transportar pessoas até um lugar proibido, chamado A Zona. Uma vez lá dentro, tudo é diferente do normal e além disso, existe um local específico, chamado O Quarto, que aparentemente realiza os desejos de quem merece. Ir até a Zona não é tarefa simples. A primeira parte do filme mostra os três tentando se aproximar da Zona, tendo que para isso fugir de policiais que primeiro atiram depois perguntam. Essa sequência inicial é excelente em passar uma sensação de perigo e mistério.

Tarkovsky faz da Zona um local com uma atmosfera opressiva, perigosa. Trata-se de uma área natural gigante, mas que possui alguns objetos que a tornam assustadora, como tanques enferrujados, seringas, símbolos religiosos na água e assim por diante. O diretor russo cria imagens de beleza extrema. É possível apertar o pause em qualquer cena que você terá uma verdadeira obra de arte. As longas tomadas e os movimentos de câmera peculiares de Tarkovsky nos passam a ideia de que estamos vendo um sonho. Somos hipnotizados por aquele mundo. Antes de tentar compreender o filme, devemos senti-lo, pois ele é nada mais nada menos do que poesia visual.

É claro que existem várias discussões aqui, algumas filosóficas. Primeiro, o que é A Zona? O resultado de um meteorito? Algo feito por seres alienígenas? E o que leva as pessoas a se arriscarem lá dentro? Autoconhecimento, desejo de aventura ou a simples ambição de ter seus desejos realizados?

As conversas dos personagens parecem sem propósito, mas na verdade estão cheias de significado. Um deles se pergunta sobre a arte, sobre a música, sobre o altruísmo e sobre a fé. Enfim, uma reflexão sobre o ser humano e sua relação com o mundo. Afinal, o que estamos fazendo aqui? Podem ser perguntas sem respostas, mas deve-se aplaudir um filme que faz esses questionamentos e nos deixa pensando sobre o assunto.

De qualquer forma, mais do que interpretar e tentar entender todo o simbolismo aqui presente, o que mais me impressiona em Stalker é a capacidade de Tarkovsky de criar imagens poderosas. É um filme relativamente lento, mas que não cansa. Para completar, temos aquele final em que um grande segredo é revelado de uma maneira simples e aí começa a trilha com Ludwig van Beethoven.

Arte…
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