Crítica: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)

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Com apenas 23 anos de idade Gláuber Rocha dirigiu Deus e o Diabo na Terra do Sol, um dos filmes mais importantes do cinema nacional. Esteticamente belo e tematicamente relevante, trata-se de um trabalho responsável pela mudança de paradigmas.

O baiano Gláuber Rocha utilizou inúmeras influências cinematográficas e literárias para criar esta obra. Não é difícil perceber aspectos que remetem a Buñuel, Eisenstein, Godard e até a John Ford e seus westerns. Quanto a literatura, temos aqui cenas que parecem ter sido retiradas dos livros de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, o que só pode ser bom negócio.

Durante quase 2 horas de filme, acompanhamos a sofrida saga de uma família pelo sertão nordestino. Após cometer assassinato, Manuel vira um fugitivo e torna-se mais um seguidor do religioso Sebastião, um tipo de Antonio Conselheiro e depois entra para o cangaço junto com Corisco, ex-parceiro de Lampião. A pobreza e a pouca esperança de dias melhores são retratadas de maneira contundente. Violência, misticismo e sacrifícios também não faltam.

Deus e o Diabo na Terra do Sol é um filme forte, impactante e igualmente belo e angustiante de se assistir. Além do aspecto técnico, das influências e das atuações, é de se admirar o seu teor político, algo inevitável em um Brasil que estava prestes a sofrer o golpe militar de 1964.

5

Crítica: A Vizinhança do Tigre (2014)

a-vizinhanca-do-tigreMistura de documentário e ficção, A Vizinhança do Tigre mostra a realidade de alguns jovens da periferia de Contagemregião metropolitana de Belo Horizonte. Somos apresentados a Neguinho, Menor, Juninho e Eldo, cada um enfrentando dilemas particulares e todos sendo vítimas da falta de perspectiva de um futuro melhor. Em dado momento do filme, o personagem Eldo diz que, antigamente, pichava muros para passar o tempo e fazer o tempo passar é praticamente a única coisa que eles fazem.

Acompanhamos os garotos Neguinho, Menor e Juninho fumando maconha, usando crack, tendo conversas com um linguajar bem específico e pesado, mas sinceras, evidenciando uma forte camaradagem. O público chega a dar gargalhadas com as atitudes deles e com os diálogos bem naturais, como quando Neguinho diz “no primeiro dia de aula eu não vou não, fi…” ou ao chamar Menor de “demônio” quando este faz uma bizarra maquiagem com um corretivo.

O que o futuro reserva para eles? O filme não faz julgamentos, mas nos faz pensar sobre as possibilidades destes jovens. Um deles até trabalha, o problema é o salário diminuto. É interessante perceber que eles almejam algo melhor, ou, pelo menos, mostram sua indignação com a situação quando cantam algumas músicas. Temos um pouco de alento com a sequência de um casamento, porém a realidade (como a falta de dinheiro e as drogas) não demora a reaparecer.

A Vizinhança do Tigre é um trabalho honesto, visceral, feito com raça. De maneira surpreendente, nos diverte e nos perturba na mesma medida e ainda impulsiona reflexões. Mais um brilhante exemplo da qualidade de nosso cinema.
8.5/10

 

Crítica: Antes Que o Mundo Acabe (2010)

Mesmo não sendo muito original, Antes Que o Mundo Acabe encanta pela honestidade e sensibilidade. O batido tema da passagem da adolescência é trabalhado com uma simplicidade que agrada. Pela facilidade que temos de nos identificar com certas situações ele nos conquista.

Como assistir a este filme e não lembrar do primeiro porre ou da primeira decepção amorosa? Esse ar de nostalgia já faria tudo valer a pena, mas ele nos reserva mais momentos marcantes. Claro, falo principalmente de toda a relação de Daniel com o seu pai verdadeiro, um fotógrafo que vive na Tailândia.

A trilha sonora bem empregada, a fotografia com cores vivas e um roteiro que mistura leveza e profundidade fazem de Antes Que o Mundo Acabe um daqueles filmes que passam voando, mas que você torce para que dure bastante.

8/10
IMDb 

Crítica: Os Famosos e os Duendes da Morte (2009)

Sempre me anima ver um filme brasileiro cujo tema principal não é a violência. O diretor estreante Esmir Filho emprega um ritmo lento e contemplativo para contar a história de um garoto sem nome, fã de Bob Dylan e que utiliza o apelido de Mr. Tambourine Man para expor seus sentimentos em um blog. Ele não aguenta mais viver em uma cidade tão pequena, tão pacata, que é chamada por ele de “Cu do Mundo”. Aos poucos, acontecimentos passados vão sendo revelados e o filme ganha em densidade e poesia. Esmir Filho parece não se importar muito com o cinema comercial. São várias as sequências levemente arrastadas, mas nunca cansativas. Elas servem para evidenciar o bucolismo do local e também a angústia do personagem principal. Passamos a sentir na pele toda essa mistura de sentimentos do garoto, algo essencial para que o filme funcione. Outros trabalhos muito interessantes podem sair dessa mente cheia de sensibilidade de Esmir Filho, um diretor muito promissor.
IMDb

/b. knott

Crítica: Tropa de Elite 2 (2010)


Muito já se falou sobre Tropa de Elite 2 nos blogs de cinema e sites especializados. Tudo a respeito dele já foi muito bem debatido por aí, portanto meu post tem o simples objetivo de deixar o Cultura Intratecal mais completo. Pega mal um blog brasileiro não ter comentários sobre um dos maiores sucessos do cinema nacional, não acham? Prometo que será objetivo.

O diretor José Padilha mais uma vez entrega um trabalho corajoso e muito ambicioso. Assim como a maioria da população ele se mostra farto da corrupção do dia-a-dia. No filme anterior, o vilão era o tráfico, agora os inimigos são os políticos corruptos e as milícias da PM que deveriam proteger as comunidades, mas as utilizam como fonte de renda. Tropa de Elite 2 é cheio de ótimas cenas de ação, fazendo de algumas regiões do Rio de Janeiro verdadeiras praças de guerra. O bom é que por trás dos tiros e da violência existe um roteiro muito bem escrito, que trabalha com o emocional do público de maneira eficiente. Quem não queria estar no lugar do Coronel Nascimento quando ele espanca um político bandido? É a vontade do povo tornando-se torna real nas mãos de José Padilha.

Outro ponto interessante é o personagem Fraga. Ele possui uma visão política e social completamente diferente da do Coronel Nascimento, sendo chamado por este de intelectualzinho de esquerda. O fato é que para combater esse novo inimigo uma aproximação dos dois personagens se mostra necessária, algo que fica ainda mais difícil por Fraga ter se casado com a ex-mulher de Nascimento.

Wagner Moura mais uma vez está excelente no papel. Dessa vez ele interpreta um Nascimento mais envelhecido e contido. Reparem como o ator pisca os olhos quando o personagem é contrariado. Como ele deixou de ser o comandante do BOPE para trabalhar de terno e gravata, suas reações devem ser menos efusivas. De qualquer forma, às vezes ele não consegue se controlar, como na cena do espancamento do político.

Sugiro não desviar o olhar em nenhum momento e prestar bastante atenção na narração em off, pois é possível se perder com tantos jogos políticos, embustes e tráficos de influência que o roteiro apresenta.
IMDb

/b. knott

As Melhores Coisas do Mundo (2010)

NOTA: 8

À primeira vista parece ser apenas mais um filme sobre a passagem da adolescência para a idade de jovem adulto, mas não é bem assim. Elementos diferentes são adicionados e o resultado é um trabalho original e corajoso. Os pais de Mano estão se separando, pois o pai acabou encontrando uma outra pessoa. Já adianto que é nesse fato que reside a maior surpresa da história, algo que vai abalar bastante o Mano e o irmão Pedro.

O roteirista Luiz  Bolognesi e a diretora Laís Bodanzky representaram de maneira precisa o cotidiano de uma escola de classe média brasileira. É assustador perceber que a cada ano que passa o colégio torna-se um lugar cada vez mais hostil, como o próprio Mano diz, é igual ao Big Brother, parece que todos estão se vigiando e esperando por algum deslize para que possam tirar sarro da outra pessoa. Tudo é muito realista, desde os diálogos com gírias típicas da idade, como as atitudes dos adolescentes. Parece que a diretora colocou uma câmera num colégio e deixou as coisas acontecerem naturalmente. O bullying psicológico e físico retratados não são brincadeira. Um dos melhores momentos do filme é o abraço entre Mano e o irmão Pedro, após aquele ter se tornado vítima  de 3 “valentões” da escola.

Vários personagens são marcantes, como o professor de violão de Mano, que sempre tem bons conselhos para o garoto, o professor de física, interpretado por um seguro Caio Blat e não posso esquecer de mencionar a Carol e seu caderninho de anotações. O grande carisma de Mano deixa tudo ainda melhor. Ele vai amadurecendo com seus erros, passando a pensar por si mesmo. Se me perguntassem, juro que prefiro As Melhores Coisas do Mundo do que Tropa de Elite 2. O mundo adulto, violento e corrupto da nossa nação já me encheu o saco. É impossível não ser tomado por um ar nostálgico enquanto se assiste ao filme. Você acaba recordando das coisas marcantes que fez nessa época e, sejam boas ou ruins, o importante é ter aprendido boas lições com elas.

Título original: As Melhores Coisas do Mundo
Ano: 2010
País: BRA
Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Luiz Bolognesi
Duração: 100 minutos
Elenco: Francisco Miguez, Denise Fraga, Fiuk, Gabriela Rocha, Caio Blat

/as melhores coisas do mundo (2010) –
bruno knott,
sempre.

É Proibido Fumar


Título original: É Proibido Fumar
Ano: 2009
Diretor: Anna Muylaert

No ano passado este filme de Anna Muylaert foi o grande vencedor do festival de cinema de Brasília, levando nada menos do que 8 prêmios, incluindo melhor filme, roteiro, ator (Paulo Miklos) e atriz (Glória Pires). Merecidamente, eu diria. É Proibido Fumar já começa mostrando uma fumaça de cigarro nos créditos e um cinzeiro logo na sequência. Baby (Glória Pires) é uma fumante compulsiva que dá aulas de violão no próprio apartamento. Ela vai simplesmente levando a vida, até que um novo vizinho desperta o interesse amoroso de Baby. Apartir daí as coisas mudam. Ela passa a frequentar mais o salão de beleza e faz de tudo para que ocorra uma aproximação. As conversas dos dois sobre música são alguns dos pontos altos. Ela exaltando Chico Buarque, ele Jorge Benjor e por aí vai. A trilha sonora muito bem realizada por Marcio Nigro também é um diferencial positivo. Além da propaganda anti-tabagismo, É Proibido Fumar ainda faz críticas sutis a algumas coisas que o povo brasileiro vem consumindo, como revistas e programas de televisão de futilidades. Como trata-se de Anna Muylaert, um acontecimento bizarro vai dar um tempero a mais para a história, que é naturalmente boa e bem contada.

Nota: 7

/bruno knott

À Deriva


Título original: À Deriva
Ano: 2009
Direção: Heitor Dhalia

No filme do diretor Heitor Dhalia acompanhamos uma família passando as férias na casa de praia em Búzios, no meio dos anos 80. A personagem principal é Felipa (Laura Neiva), uma garota de 14 anos que está aprendendo que crescer não é fácil. O filme mostra ela se descobrindo como mulher e descobrindo também coisas que não imaginava sobre o relacionamento dos pais, que são muito bem interpretados pelo frânces Vincent Cassel e pela Débora Bloch. Apesar de algumas subtramas não muito interessantes, Á Deriva tem mais acertos do que erros. Heitor Dhalia conta a história de maneira lenta, despreocupada, que pode desagradar a alguns, mas o fato é que o roteiro pedia por algo assim. O que ninguém pode reclamar é da fotografia do filme. Ela oferece um ar nostálgico convincente e explora muito bem as belezas do litoral. No final das contas, é um filme que enrola muito para não dizer muita coisa, mas faz isso de maneira tão elegante que podemos relevar um pouco.

Nota: 6

/bruno knott

Jean Charles


Título original: Jean Charles
Ano: 2009
Diretor: Henrique Goldman

Todo mundo se lembra do que aconteceu com o brasileiro Jean Charles em Londres, no ano de 2005. Vítima do despreparo da polícia local, Jean foi confundido com um terrorista e foi assassinado dentro do metrô. O filme de Henrique Goldman está longe de tentar beatificar Jean. Ele é mostrado com todas as suas qualidades, mas também com os seus defeitos, fazendo do filme um retrato verossímel de toda a situação. A direção de Goldman é eficiente ao contar toda essa história. Ele mostra muito bem o medo que os ingleses estavam tendo, devido aos recentes ataques terroristas na cidade, mas também mostra o preconceito para com as outras populações, principalmente com os muçulmanos. O filme passa rápido, tem uma trilha sonora que colabora, mas o diferencial é mesmo o Selton Mello. Que ator magnífico. Ele vive o personagem de maneira intensa. Suas gírias são muito bem empregadas e suas atitudes soam sempre verdadeiras. A cena que mais me chamou a atenção é aquela em que Jean Charles fala com a mãe pelo telefone. Só por ela o Selton já poderia ganhar prêmios e mais prêmios. Infelizmente, o clímax da historia não foi muito bem trabalhado. Ele poderia ter se tornado um filme muito mais poderoso. De qualquer forma, me arrependo por não ter assistido antes a mais um bom filme nacional.

Nota: 7

/guillemots – trains to brazil (o título da música é uma homenagem a Jean Charles)

/bruno knott