Assunto de Família (Shoplifters, 2018)

Desde quando entrei em contato com o cinema de Hirokazu Koreeda pela primeira vez, faço questão de acompanhar todos os seus lançamentos. Em se tratando de cinema japonês, talvez ele seja realmente o nome de maior destaque. Assunto de Família é mais uma prova da qualidade superior do diretor. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o filme faz um retrato sensível e honesto de uma família peculiar. Mesmo empregados, o dinheiro está sempre no limite. O garotinho Shota já se transformou em um especialista na arte de praticar pequenos delitos. Ele rouba comida e shampoo. E assim esse pequeno grupo segue na batalha diária da sobrevivência. A menina Yuri foge da sua casa por sofrer maus tratos e é, digamos, adotada pela família. A trama se desenrola com sutileza e aos poucos conseguimos entender os anseios de cada um deles, assim como a estranha dinâmica em que vivem. Não se surpreenda se chegar ao final sentindo uma enorme conexão com cada um deles e talvez com os olhos levemente marejados.

Nota: 9

Crítica: Gojira (1954)

É praticamente impossível encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar de Godzilla, mas o número de pessoas que realmente viu o filme original é pequeno. Um dos motivos por trás disso é o fato dos americanos terem feito uma versão deturpada de Godzilla em 1956, que contou com a inserção de um personagem americano em várias cenas, uma dublagem em inglês e a quase total retirada do teor crítico que o original possui. O original, conhecido como Gojira, só foi lançado nas terras ianques em 2004.
Apesar de ser provavelmente o filme de monstro mais influente já realizado, o que faz Gojira se destacar é a sua alegoria sobre o impacto destrutivo causado pelas bombas atômicas no japão. Fica clara a severa crítica contra os americanos e sua corrida nuclear, não só pelo monstro em si, mas também pelo personagem que descobre uma maneira de matar o Godzilla só que prefere não divulgar, com medo de que alguém transforme seu experimento em uma arma de destruição em massa.
Em termos técnicos o filme anda bem defasado. É notório que o monstro não passa de alguém fantasiado e de que a cidade destruída é uma maquete. Mesmo que o diretor tenha optado por filmar a noite e com tomadas rápidas, a precaridade dos efeitos especiais incomoda um pouco. Mas o pior mesmo são as atuações falsas e teatrais demais. Quem se salva nesse quesito é Takashi Shimura, conhecido por seus trabalhos com Akira Kurosawa. É claro que o roteiro não colaborou muito para os personagens, inclusive colocando alguns deles em situações que de maneira não proposital nos fazem rir.
De qualquer forma, a mensagem do filme é extremamente relevante e captura bem todo a angústia que o povo daquele tempo viveu. Apesar de sua irregularidade, Gojira tem grande importância para o cinema mundial e merece ser visto pelo menos uma vez.
7/10

Era uma Vez em Tóquio (Tôkyô monogatari, 1953)


Poucos filmes conseguiram trabalhar temas universais como vida em família, perdas, idade e solidão de uma maneira tão sincera e poderosa como essa obra-prima do cinema japonês e mundial. Era uma Vez em Tóquio retrata situações comuns na vida de qualquer um, como os pais que tem medo que os filhos não se tornem adultos preparados para o mundo ou o afastamento natural de um adulto em relação a família. A trama nos mostra um casal de idosos que decide sair do tranquilo interior para visitar os filhos na agitada Tóquio. O diretor Yasujirô Ozu nos mostra a maneira respeitosa, mas também fria que os filhos se relacionam com os pais. Não se trata exatamente de indiferença, mas eles parecem não fazer muita questão de arrumar tempo para dedicar aos progenitores. Em um certo momento uma das filhas se utiliza de uma delicadeza fingida para tomar uma atitude severa, fazendo os velhinhos se sentirem como verdadeiros estorvos. Curiosamente, a única pessoa que parece se importar realmente com eles é uma de suas noras. Tudo se desenrola sem pressa, com um ritmo relativamente lento, mas jamais cansativo. As coisas se encaminham para um final inevitavelmente triste, que emociona e impulsiona algumas reflexões. 9/10

A Partida

Título original: Okuribito
Ano: 2008
Diretor: Yôjirô Takita

Sou fã de Valsa com Bashir, mas devo admitir que o Oscar de melhor filme estrangeiro para A Partida foi extremamente merecido. É um filme que passeia por diversos assuntos e temas, sempre fugindo da superficialidade e da pieguisse. Ele é um retrato de uma parte da cultura japonesa e um mergulho na vida de Daigo Kobayashi, o personagem principal. No início temos uma narração em off de Daigo dizendo que sua vida fora inexpressiva até aquele momento. Agora ele encontrou uma razão para viver. Esta razão é mostrada logo no começo, quando vemos Daigo realizando o chamado “ritual de acondicionamento” , que consiste em diversos tipos de  cuidados dados a um falecido, como limpar o corpo e prestar homenagens.

A partir daí temos um flashback mostrando como Daigo foi parar nesse emprego. Aos poucos vamos nos importanto mais e mais com a vida de Daigo e a relação dele com o violoncelo, a mulher, a cidade natal, o patrão e é claro, com o pai, que o abandonou quando ele tinha 6 anos de idade.

Este filme consegue emocionar sem forçar a barra em momento algum. Ele tem a morte como um dos principais assuntos abordados e nunca fica melancólico. A Partida é um filme poético, belo, com um significado. Sobra até espaço para um pouco de humor, principalmente no período no qual Daigo está se adaptando ao novo trabalho.

Vale destacar o trabalho do ator Takashi Sasano, que interpreta um senhor que sofre com a perda de uma grande amiga, não sem antes criar uma analogia entre salmões que nadam contra a corrente e acabam morrendo e a nossa própria vida.

Nota: 5/5