Crítica: Corações de Ferro (Fury, 2014)

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Corações de Ferro, filme dirigido por David Ayer (Marcados para Morrer) e estrelado por Brad Pitt, é um lembrete de como o inferno da guerra pode transformar o homem. Por se tratar de um gênero de que gosto bastante e de ter como diretor um cara talentoso, minhas expectativas estavam bem altas. Boa notícia: elas foram muito bem correspondidas.

A trama se passa no período final da Segunda Guerra Mundial, momento em que os desesperados nazistas já sabiam que a derrota era certa, mas não queriam dar o braço a torcer. Acompanhamos um pequeno grupo de soldados que invade a Alemanha em um tanque. Quatro deles já são macacos velhos na ‘arte’ da guerra e um é um recém chegado dos mais inexperientes.

Há algo de clichê nessa situação de um novato dentro de um grupo calejado, porém aqui as coisas funcionam bem. O roteiro habilmente escrito faz o arco narrativo deste personagem soar bem natural e permite com que nos importemos com ele.

Um dos objetivos principais de Corações de Ferro é mostrar a camaradagem que surge entre os soldados no meio da guerra, ainda mais quando dividem o pequeno espaço de um tanque.

E é claro que não podemos esquecer da violência. Não faltam cenas que mostram o verdadeiro horror da guerra, seja quando vemos membros decepados jorrando sangue ou quando presenciamos atos covardes, mas justificáveis até certo ponto.

Apesar de uma sequência um tanto fora de lugar envolvendo o encontro os soldados e duas mulheres e a batalha final que, apesar de muito bem feita, é hollywoodiana demais, temos aqui um dos melhores filmes de guerra dos anos 2000.

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Crítica: Tróia (2004)

troy-2004Baseado no clássico da literatura A Ilíada, Tróia pode até nos entreter em alguns momentos, mas ficou longe de se tornar o épico que pretendia ser. A Guerra de Troia tem início quando Páris captura Helena, esposa do rei de Esparta Menelau. As coisas acontecem rapidamente e quando menos percebemos já contemplamos a monstruosa frota de mil navios chegando em Troia, inclusive com a presença do grande guerreiro Aquiles. O problema é que não conseguimos comprar a ideia de que o amor de Páris e Helena vale tudo isso. A química entre os dois atores inexiste e os seus personagens são muito pouco interessantes.

As cenas de batalha exageram na computação gráfica e na câmera tremida, mas economizam no sangue e na violência. Em alguns momentos pode até ser difícil compreender o que acontece, inclusive pela semelhança das vestimentas dos exércitos. O ponto forte acaba sendo os combates individuais, principalmente aquele entre Heitor e Aquiles. Estes são os dois personagens que podemos destacar aqui, apesar de Brad Pitt ter investindo em um Aquiles mais humano do que deveria.

Arrastado e cansativo, Troia ainda conta com um vilão desnecessariamente caricatural. A trilha sonora também não colabora ao soar pouco inspirada e não acrescentar em nada em termos de emoção. Aliás, o grande pecado do filme é não conseguir nos fazer importar com o que vemos, diminuindo muito o impacto que as cenas deveriam ter, com algumas poucas exceções.
6/10

Crítica: O Homem da Máfia (2012)

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O diretor Andrew Dominik demonstrou extrema competência em seu trabalho anterior, o épico-western O Assassinato de Jesse James e agora, cinco anos depois, acerta novamente neste perturbador e artístico O Homem da Máfia.
Dois bandidos de qualidade duvidosa assaltam uma casa de pôquer recheada de pessoas conectadas com a máfia. Não demora muito e os mafiosos colocam Jackie (Brad Pitt), um matador de aluguel, em busca dos assaltantes. O que mais chama a atenção aqui não é a história em si, mas sim a maneira como ela é contada, com um apuro técnico invejável e um time de atores do mais alto calibre.
Algo que pode afastar o público de O Homem da Máfia é o excesso de diálogos. Na maior parte do tempo eles funcionam bem, inclusive oferecendo inesperadas doses de humor negro, mas existem alguns monólogos que apenas nos levam ao tédio, como os de James Gandolfini. Apesar de considerar Gandolfini um grande ator, seu personagem simplesmente não diz a que veio. Chega um momento em que não aguentamos mais vê-lo bebendo mais uma dose e nem falando sobre suas aventuras sexuais. Infelizmente, as cenas com ele quebram o ritmo de uma maneira irritante.
O Homem da Máfia não é um filme de ação, mas isso não quer dizer que não seja violento. Andrew Dominik cria aqui uma das cenas de espancamento mais brutais do cinema. É uma sequência chocante, com bastante sangue e efeitos sonoros que potencializam os socos, nos causando desconforto e nos dando pena de quem está levando a surra. Outro momento memorável é o assassinato em câmera lenta, que não só aumenta o efeito dramático da situação, como também adiciona contornos de poesia visual para a situação.
Para deixar tudo mais interessante, há uma contundente crítica social contra os Estados Unidos. Ao longo do filme vemos alguns pronunciamentos de Barack Obama e de outras figuras políticas durante a crise financeira na época das eleições presidenciais de 2008. Na última cena conseguimos entender plenamente o propósito de tudo isso. Que bela maneira de encerrar um grande filme!
8/10

Crítica: O Homem que Mudou o Jogo (2011)

Você não precisa entender de baseball para gostar de O Homem que Mudou o Jogo, mas ajuda. Existe muita coisa aqui que pode ser transportada para o mundo de outros esportes, até mesmo do futebol. Falo, por exemplo, da diferença entre times grandes e pequenos. É tão fácil montar um time bom se você tem os milhões para isso, mas se o seu time é pobre e não consegue manter os jogadores importantes como vai ganhar títulos? Essa é uma situação muito bem retratada no filme e que serve como ponto de partida para o ponto principal dele: a criação de um novo método para montar um time de baseball vencedor. Ao invés de utilizar a experiência e intuição de olheiros, o manager da equipe Oakland Raiders, Billy Beane, resolve apostar nas ideias de um jovem formado em economia em Yale. A ideia é utilizar um software que produz diversas estatísticas sobre vários atletas, chegando-se assim nos jogadores ideais em termos de custo-benefício.

Não são muitas as cenas dos jogos em si, o foco está nos bastidores, nas pessoas que fazem as coisas acontecerem e geralmente só são lembradas nas derrotas. Outro detalhe interessante, é que não temos aqui aqueles discursos motivacionais à la Coração Valente, Billy Beane prefere falar com os jogadores de uma maneira mais intimista, com comentários pontuais.

O Homem que Mudou o Jogo é baseado em fatos reais e até que ponto é verdade eu não sei. Baseball realmente não é o meu esporte. De qualquer forma, não tem como não se conectar emocionalmente com uma pessoa como Billy Beane, que quer fazer de tudo para ser campeão. Ele dá algumas declarações marcantes, como quando diz que odeia perder mais do que gosta de ganhar. Além disso, ele mesmo foi um jogador, uma eterna promessa que nunca vingou. Quantos jogadores de futebol temos por aí com essa mesma sina?

Eis aqui um filme bem escrito (Aaron Sorkin, mais uma vez), com atuações consistentes de Brad Pitt e Jonah Hill e com alguns momentos que atingem em cheio os amantes de esportes em geral.
8/10