Crítica: Sanjuro (1962)

sanjuroSanjuro, interpretado por Toshiro Mifune, resolve ajudar um grupo de samurais de duvidosa habilidade que se vê ameaçado por um governante corrupto. Kurosawa foi pressionado pelos produtores para criar uma continuação de Yojimbo e o resultado foi extremamente positivo. Mesmo que não seja tão bom quanto o filme anterior, Sanjuro investe muito bem na comédia e em diálogos inspirados. Toshiro Mifune novamente esbanja carisma e é o nosso elo com a história que, diga-se de passagem, é um tanto confusa em certos momentos. De qualquer forma, quando a ação toma conta somos brindados com cenas intensas, culminando em um duelo final inesquecível.
7/10

Crítica: Yojimbo – O Guarda-Costas (1961)

yojimbo-89505A história de Yojimbo está longe de ser épica. Tudo é muito simples, direto e acessível, mas, mesmo assim, é um dos trabalhos mais interessantes de Akira Kurosawa. Como alguns críticos gostam de dizer, podemos considerá-lo uma pequena obra-prima.
A trama nos mostra Sanjuro, um samurai que está vagando pelo Japão de 1860, uma época em que o desemprego deixou muitos guerreiros de espada sem mestres. Sanjuro chega em uma cidade perigosa e violenta, algo que fica evidente quando um cachorro cruza a rua carregando uma mão humana, em uma ótima cena de humor negro. A cidade se encontra divida por dois clãs e nosso “herói” faz com que ambos desejem contratá-lo. De maneira premeditada, ele coloca um clã contra o outro, na esperança de que eles se autodestruam. Mas é claro que haverá percalços pelo caminho.
Yojimbo é claramente influenciado por Westerns tradicionais americanos, mas ele também serviu de influência para outros, especialmente os Western Spaghetti de Sergio Leone. Já assistiram ao ótimo Por um Punhado de Dólares? Pois é, a história é muito parecida.
O fato é que o filme funciona de maneira exemplar. Trata-se de puro entretenimento. Uma bela mistura de ação, comédia e drama, temperado com a genialidade de Kurosawa. Isso sem falar no monstruoso carisma de Toshiro Mifune, na opinião deste que vos escreve, um dos melhores atores de todos os tempos.
9/10

 

Crítica: Trono Manchado de Sangue (1957)

Akira Kurosawa não economizou na quantidade de obras-primas que criou. É verdade que ele tem uma extensa filmografia, mas é impressionante como vários de seus filmes são verdadeiras obras de arte do cinema. Um exemplo é Trono Manchado de Sangue. Aqui temos MacBeth de Shakespeare adaptado para o Japão medieval, o que proporciona uma das histórias mais memoráveis do cinema. Muitos temas atemporais são mostrados no filme, como a sede de poder, traições e vingança. O lorde Washizu é surpreendido pela profecia de um espírito que o inspira a buscar o poder a qualquer custo. Essa inspiração cresce ainda mais quando sua mulher não hesita em dizer que ele deve ir até as últimas consequências para chegar ao trono. Talvez este seja um dos melhores trabalhos de fotografia em filmes do Kurosawa. Cada cena tem uma beleza de saltar os olhos, mesmo com uma atmosfera de medo constante ao redor. As aparições do espírito são dignas de bons filmes de terror, um gênero não explorado pelo diretor. Também causam medo os diálogos manipulativos e ambiciosos da mulher de Washizu, que vão transformando a personagem em uma vilã das mais assustadoras. Mesmo com uma história muito bem contada e cada vez mais intensa, a cena definidora de Trono Manchado de Sangue é mesmo a cena final. Poucas vezes se viu algo tão violento como este desfecho. O destino foi cruel com alguém que fez por merecer cada flecha disparada.
9/10

Crítica: Rashomon (1950)

Não é pouca coisa dizer que Rashomon é um dos melhores filmes de Akira Kurosawa, afinal o grande mestre japonês é dono de uma vasta filmografia, recheada de obras-primas como Os Sete Samurais, Ran, Céu e Inferno, Yojimbo e outros.

Um dos aspectos relacionados ao filme que mais chama a atenção, é o fato de ter sido através dele que o mundo conheceu o cinema japonês. Claro, outros cineastas do Japão já tinham produzido ótimos filmes, mas Kurosawa com Rashomon foi o grande divisor de águas.

Mas por que essa importância e como ele se mantém atual até hoje? Primeiro, as inovações técnicas utilizadas pelo diretor. Rashomon nos mostra a história de um crime sendo julgado por um tribunal. Nós somos expostos a quatro pontos de vista diferentes, cabendo a nós decidirmos qual o mais honesto. Sim, não espere terminar o filme e ter certeza do que aconteceu. Cada ponto de vista transforma o crime e os envolvidos quase que totalmente. Essa situação permite que uma das grandes forças de Rashomon domine a tela: Toshirô Mifune. Nas quatro versões do crime o seu personagem é representado de maneira diferente, às vezes covarde, às vezes honrado e às vezes insano. O ator transmite muito bem essas nuances e possui uma atuação das mais hipnóticas. Kurosawa faz uso de flashbacks e de outras técnicas narrativas – como a câmera na mão seguindo um personagem ao caminhar – de uma maneira envolvente, que faz tudo acontecer de maneira dinâmica e fascinante.

O filme também se destaca por ser um verdadeiro estudo do ser humano e sua essência. Três personagens conversam sobre o crime e colocam para fora suas opiniões a respeito da humanidade. Por um momento, chega-se a conclusão de que o homem é mau, capaz de mentir e ser egoísta para obter vantanges.

Mas Kurosawa não poderia nos deixar com essa visão pessimista da sociedade, não é? A cena final mostra que em 1950 o diretor ainda tinha esperanças em relação a sociedade e nos entrega uma agradável mensagem.

Como curiosidade, Rashomon é apontado como a razão para a criação do prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar.
9/10 

Mestre Kurosawa

Há cem anos nascia em Toquio um dos melhores diretores de todos os tempos, Akira Kurosawa. Ele é o meu diretor preferido e Céu e Inferno está no meu top 3 de todos os tempos. Em breve vocês vão poder acompanhar um post bem completo sobre ele aqui.

– Human beings are unable to be honest with themselves about themselves. They cannot talk about themselves without embellishing.
Akira Kurosawa