Crítica: Dredd (2012)

Após a frustrada primeira versão cinematográfica deste personagem dos quadrinhos, era de se esperar que Dredd não tivesse mais chances na telona. Sorte a nossa que não. Dirigido por Pete Travis e com Karl Urban como o juiz, esse reboot nos oferece tudo aquilo que o filme de 1995 com o Stallone jamais conseguiu: ação de qualidade, violência e 90 minutos de puro entretenimento.
Um dos aspectos mais interessantes de Dredd é a ambientação. Estamos em meio a um futuro distópico no qual a cidade de Mega-City One alcança a marca de 800 milhões de habitantes. A cidade é toda cercada por muros, pois fora deles nada mais resta a não ser um deserto radioativo. Dentro as coisas não são muito melhores, afinal a criminalidade chega a níveis absurdos. Para tentar controlar os bandidos, a lei fica inteiramente na mão dos chamados Juízes, que tem a função de julgar, condenar e executar.
Dredd, um dos juízes mais competentes, recebe a tarefa de avaliar uma possível nova juíza, que mesmo não obtendo as notas necessárias, recebe mais uma chance por possuir a útil habilidade de ler mentes.
Os dois atendem um chamado vindo de um imenso prédio onde três homicídios aconteceram. Após encontrarem o assassino, Dredd e a novata estão prestes a sair quando uma voz feminina informa que o prédio será fechado até que os juízes sejam mortos. A dona da voz é Ma-Ma, a pessoa que manda em toda aquela região e que está por trás da droga Slo-Mo, cujo efeito é fazer o usuário ter uma percepção de mundo muito mais lenta do que o normal.
O roteiro é simples e direto e é justamente por isso que tudo funciona tão bem. Embaladas por uma viciante trilha sonora eletrônica, as sequências de ação estão repletas de energia e muito sangue. Não há espaço para misericórdia aqui. Quem resolver ir contra a lei terá que se acertar com o Juiz Dredd, algo não muito recomendado. A câmera lenta garante um tom artístico para toda a violência. São cenas visualmente muito bonitas, ainda que geralmente o que é retratado não é nada agradável. É interessante notar que a utilização da câmera lenta é justificada pelo roteiro, pois ela nos mostra o que a pessoa sente após usar a droga.
Karl Urban, o eterno Éomer de Senhor dos Anéis, faz um ótimo trabalho com o que lhe é permitido. Dredd jamais tira o capacete, então o ator se expressa apenas com a voz e com movimentos da boca e só com isso consegue a empatia do público, inclusive desferindo um pouco de humor negro.
Trata-se de um filme que não tem maiores pretensões, mas que é bem eficiente no que se propõe. Ele não foi bem nas bilheterias, o que pode ser explicado em parte pela classificação indicativa de 18 anos. O fato é que estamos diante de um dos melhores filmes de ação do ano e que fica ainda melhor no cinema, pena que já está saindo de cartaz.
8/10

A Origem (2010)


Cotação: 7

Desde quando iniciei o Cultura Intratecal sempre optei por escrever posts com textos curtos e objetivos, afinal vivemos em um mundo cada vez mais dinâmico e todos sabemos que o tempo tornou-se uma preciosidade. Além disso, eu penso: quem diabos sou eu pra escrever linhas e linhas sobre algo que não é minha especialidade? Sim, eu amo o cinema, procuro aprender sobre tudo que envolve a realização de um filme e vejo o maior número de filmes possíveis, mas isso não me torna uma autoridade no assunto. Textos grandes e de qualidade comprovada eu deixo para os críticos de verdade, como o Pablo Villaça, Roger Ebert e o James Berardinelli, por exemplo. Sou um mero apreciador que gosta de fazer comentários a respeito do que assiste, por isso escrevo texto curtos e diretos.

Fiz esse parágrafo para que vocês saibam que eu escrevo sobre filmes sem pretensão alguma.

E sem pretensões de estar certo (esse conceito de certo e errado existe mesmo?) preciso escrever sobre A Origem, o filme do momento. Peço paciência (e coragem), pois é impossível esse texto não ser mais longo do que o habitual.

Primeiro devo dizer que gostei do filme. É um blockbuster com conteúdo e que sem dúvida vale o ingresso do cinema, mas ele está longe de ser uma obra-prima. O próprio Nolan já fez trabalhos bem melhores do que esse, como The Dark Knight e Memento. A ideia principal de A Origem é extremamente criativa e empolgante, mas Nolan errou ao transformar um belo exemplar de ficção científica em um filme de ação cansativo.

Não entendo esse endeusamento. Será que eu sou o único que teve dificuldades em suportar as cenas de ação pra lá de longas? Li um crítico que disse que os sonhos de Nolan parecem ser dirigidos pelo Michael Bay e ele não está longe da verdade. Aquelas cenas na neve mais parecem um filme do James Bond, só que sem a classe e qualidade do mesmo.

Nolan merece aplausos por transformar uma ideia complicada em algo bem acessível. Se você prestar atenção na tela não terá dificuldades em entender toda a ideia dos 3 níveis de sonho (mais o limbo) e essa é a parte que merece aplausos. Agora, 90% do filme é ação, tiros e explosões para todo o lado. Tirando a sequência no hotel sem gravidade, as outras podem levar qualquer um a um sono profundo.

Mas e a história?

Cobb (Leonardo DiCaprio) é o líder de um grupo que invade os sonhos das outras pessoas em busca de seus segredos. Arthur (Joseph Gordon-Levitt) é o seu principal parceiro nessas atividades. Nas cenas iniciais do filme aprendemos como funciona todo esse procedimento e é algo bem estimulante.

Eles recebem uma proposta de Saito (Ken Watanabe). Em vez de roubar, Saito quer que eles plantem uma ideia na mente de Robert Fischer (Cillian Murphy), filho de um bilionário que está prestes a morrer. O que Saito quer é que Fischer decida dividir o império do próprio pai.

Para realizar essa tarefa complicada, Cobb pede auxílio a Eames (Tom Hardy), Yusuf (Dileep Rao), um químico capaz de fazer um sedativo extremamente potente e Ariadne (Ellen Page), a nova arquiteta do mundo dos sonhos.

Não me perguntem qual a importância de que Fischer divida o império do pai, Nolan realmente não faz questão que saibamos o motivo disso. Na realidade, é apenas uma desculpa para que a concepão do sonho dentro do sonho dentro do sonho comece. Sem problemas.

Cobb mostra para Ariadne o trabalho que ela vai ter que executar. Ver a garota explorando todas as possibilidades dos sonhos é um dos grandes momentos do filme e é algo que faz falta no resto da projeção.

Ok. O próprio roteiro faz questão de nos informar que, para que o roubo de segredos e a inserção funcionem, o mundo dos sonhos deve ser o mais parecido possível com o mundo real. Mas caramba. Qual a graça de ver um sonho quase 100% igual ao mundo real?

Queria ser brindado com mais cenas, como aquela em que Ariadne literalmente coloca a cidade de cabeça para baixo. Isso sim é um sonho de verdade, isso sim é empolgante.

Mas não. Nolan preferiu criar essa regra do sonho mais real possível e acabou com minha alegria.

De qualquer forma, há algo de extrema genialidade em A Origem (além da ideia original), tanto da direção, como da montagem. A maneira como os três sonhos são sincronizados desde a metade do filme até o clímax é de uma beleza única. A trilha sonora de Hans Zimmer e a entrega desses excelentes atores contribui para que tudo funcione direitinho, só que, infelizmente, não houve possibilidade de criarmos uma conexão emocional com esses personagens. Se um deles morresse não iria fazer diferença pra mim.

Cada nível de sonho dura um tempo específico no tempo real e a forma como conseguiram deixar tudo isso compreensível para o público é digno de nota. Alguém já viu algo tão ambicioso assim antes? Por isso que A Origem merece reconhecimento, mas deve-se ter calma.

Ele não é tão complexo como alguns fazem questão de afirmar e a ação é extremamente cansativa. Eu poderia passar umas 4 horas assistindo as cenas de ação de Matrix, mas foi difícil aguentar as duas horas e meia de tiros, perseguições e explosões em A Origem.

Se Nolan explorasse melhor os seus personagens (só Cobb é satisfatoriamente desenvolvido), se adicionasse um pouco de humor e cortasse uns 20 minutos de ação estafante, aí sim eu concardaria em chamar A Origem de obra-prima.

Ano passado houve um excesso em relação a Avatar e está acontecendo agora com A Origem. É óbvio que o filme de Cristopher Nolan é umas 10x melhor que o filme de James Cameron, mas isso não fez dele a última coca-cola do deserto, se é que vocês me entendem.


Título original:
Inception
Ano: 2010
País: EUA
Direção: Cristopher Nolan
Roteiro: Cristopher Nolan
Duração: 148 minutos
Elenco: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dlieep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Marion Cotillard, Pete Postletwaite, Michael Caine

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/bruno knott