Resenha de Livro | Salem

Publicado em 1975, Salem é o segundo romance de Stephen King. O autor chamou a atenção com Carrie e havia uma boa expectativa em relação a sequência do seu trabalho. Mais de 40 anos depois não há como esconder que se trata de um livro sobre vampiros. Para vocês terem uma ideia, no Brasil ele já foi chamado de A Hora do Vampiro, uma estratégia de marketing que na realidade é um grande spoiler. O ideal seria ler e descobrir aos poucos. De qualquer forma, isso não tira os pontos positivos do livro.

A primeira parte de Salem tem um ritmo mais cadenciado. King cria um grande painel da cidade de Jerusalem Lot e desenvolve vários personagens, sempre de maneira concisa e intrigante.

Ben Mears é um escritor que cresceu em Salem e agora está de volta à cidade. Ele sofreu um trauma importante na infância quando foi provar sua coragem na sombria casa Marsten e parece estar em busca de algumas respostas. Mas não é apenas Ben Mears que chega nessa pacata cidadezinha do interior norte-americano. Kurt Barlow e Richard Straker também estão na região e decidem investir em uma loja de móveis antigos.

E aí coisas cada vez mais estranhas começam a acontecer. Um cachorro empalado, crianças desaparecendo e mortes repentinas trazem o medo e as dúvidas. O que diabos está acontecendo? Como aceitar que algo que vai contra o bom senso pode ser responsável por tudo isso?

Vamos percebendo o perigo maléfico tomando conta da cidade e de seus habitantes. Inicialmente, pequenos detalhes dão indícios sobre qual é esse perigo. O tom de urgência vai ficando cada vez maior, culminando em um inevitável confronto do bem contra o mal. Água benta, crucifixos e estacas de madeira serão extremamente úteis.

Salem tem mistério, um ar de aventura, suspense, terror e até um pouco de romance. É uma ótima opção caso você nunca tenha lido nada de Stephen King. E sugiro memorizar alguns personagens e situações, pois eles serão retomados posteriormente no cultuado A Torre Negra. Testemunhamos aqui um autor trilhando com autoridade o caminho do sucesso.

Resenha de livro | Vidas Secas

Vidas Secas foi o quarto romance escrito por Graciliano Ramos. Publicado no ano de 1938, o livro é classificado como uma obra regionalista da segunda fase do modernismo. Escrito em terceira pessoa com uma linguagem direta e objetiva, Vidas Secas nos apresenta a uma família de retirantes nordestinos que está em busca de dias melhores.

Fabiano, Sinhá Vitória, os filhos e a cachorrinha Baleia ganham vida nas páginas de Graciliano Ramos. As situações pelas quais passa a família exemplificam a desigualdade social e o massacre do homem comum pela classe dominante. A injustiça está presente por todos os cantos deste cenário árido, quente e com poucas esperanças. Mesmo curto, o autor consegue analisar o psicológico de cada personagem, expondo o interior deles de maneira tocante. É possível ler os capítulos fora de ordem que mesmo assim tudo fará sentido. É por isso que ele é chamado de um romance desmontável.

É sempre uma experiência enriquecedora reler a obra máxima de Graciliano Ramos. A cada leitura consigo perceber coisas novas e me impressionar com este que é um dos melhores livros já publicados em terras brasileiras. Poucas vezes a crítica social soou tão forte e verdadeira.

Born to Run: Autobiografia (Bruce Springsteen)

Com quase 50 anos de carreira produzindo músicas cujas letras se destacam tanto quanto a melodia, não foi nada surpreendente constatar a qualidade literária da autobiografia de Bruce Sprinsgteen. Born to Run é um relato confessional sobre detalhes da vida de um dos grandes nomes da História do rock.

Acompanhamos o início repleto de percalços e dúvidas até ele se transformar no que é hoje. O livro é dividido cronologicamente e em capítulos curtos. Cada álbum ganha um capítulo próprio, assim como os acontecimentos mais relevantes de sua trajetória.

Aprendi bastante sobre The Boss lendo Born to Run. As influências como Elvis, Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan e muitas outras são citadas. A relação dele com a família ganha destaque, principalmente a convivência um tanto conturbada com o pai. Graças ao livro também fica exaltada a importância da E Street Band. Quando falamos em Bruce Springsteen não podemos nos esquecer da banda como um todo, principalmente Patti Scialfa (esposa), Steven Van Zandt (que também é ator e participou de The Sopranos) e o gigante saxofonista Clarence Clemons.

Springsteen tem uma carreira muito fértil. São vários álbuns grandiosos e uns poucos trabalhos irregulares. Com o livro conseguimos entender a importância de Born to Run e Born in the Usa para que ele deslanchasse. E também vários outros momentos cruciais, como a arrebatadora performance da banda no show do intervalo do Super Bowl (2009).

Uma autobiografia pode ter o seu viés, mas Bruce não deixa de tocar em assuntos delicados como os seus problemas psiquiátricos. Apesar de Bruce constantemente afirma se sentir sortudo por poder viver de música, vemos que ele é mais um do meio que precisa enfrentar a depressão.

Mesmo com esse tipo de assunto, este é um livro fácil de ler. Bruce tem intimidade com as palavras e adora um humor auto-depreciativo. É claro que o público alvo são os fãs que querem compreender melhor o seu ídolo, mas Born to Run é um material interessante para qualquer um que se interesse por música.

Nota: 9

Resenha de Livro: O Mundo Conhecido

O Mundo Conhecido foi premiado com o Pulitzer de ficção em 2004. Este foi o segundo livro do autor americano Edward P. Jones. A história se passa no período próximo a deflagração da Guerra Civil Americana e foca em algumas gerações de escravos e donos de escravos. Um livro que consiga transmitir um pouco de como era sofrida e absurda a vida dos escravos deve ser valorizado. O Mundo Conhecido faz isso de maneira contundente e respeitosa. Confesso que demorei um pouco para me acostumar com as idas e vindas no tempo e quase me atrapalhei com o excesso de personagens, mas assim que consegui absorver a essência do material percebi a sua grandeza. Mesmo que você se considere um conhecedor da escravidão no continente americano, é bem possível que descubra aqui situações que nunca havia imaginado antes. Infelizmente, a maior parte delas passa longe de ser agradável.

Nota: 7

Resenha de Livro: Ensaio Sobre a Cegueira

José Saramago é reconhecido como um dos maiores escritores da língua portuguesa e o livro Ensaio Sobre a Cegueira foi crucial para ele alcançar esse posto.

Em uma cidade grande qualquer as pessoas começam a ficar cegas. Não há uma explicação científica, mas o fato é que aos poucos a cegueira vai se espalhando como uma doença contagiosa. Inicialmente, os cegos ficam confinados em um manicômio, basicamente deixados à própria sorte. A única exceção é a mulher do médico. Não se sabe os motivos, mas ela mantém a capacidade de enxergar e vai servir como uma guia para os outros.

Nenhum personagem em Ensaio Sobre a Cegueira tem nome. Eles são chamados por características que os representam, como o médico, a mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o garoto estrábico e assim por diante.

José Saramago tem um estilo muito peculiar, algo que pode assustar inicialmente. Não há travessões. O discurso direto e indireto se misturam. Frases longas são esculpidas com verve poética. Há ironia e humor negro. E assim que nos acostumamos com o jeito de Saramago escrever não queremos largar o livro, apesar dos horrores que nos aguardam.

A perda da visão em Ensaio Sobre a Cegueira mostra o que os seres humanos são capazes de fazer. Para o bem e para o mal. Em um momento presenciamos uma horrível extorsão e em outro vemos pessoas se sacrificando em prol do próximo.

Com a progressão da cegueira, o mundo entra em colapso. Saramago detalha a situação caótica que toma conta da cidade. A comida torna-se escassa, a água está desaparecendo, tomar banho é um luxo, a sujeira transborda em diversos lugares. Não há muitas esperanças e sobram questionamentos.

Ensaio Sobre a Cegueira não é apenas uma história criativa repleta de momentos memoráveis. É também uma alegoria brilhantemente escrita por um gênio da literatura.

Não é à toa que na epígrafe está escrito: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

O Caçador de Pipas

Há uma chance para ser bom de novo. Será que Amir conseguirá a redenção?

Narrado em primeira pessoa por Amir, O Caçador de Pipas nos apresenta a um homem com a consciência pesada devido a erros cometidos no passado. Agora ele vive nos Estados Unidos e irá nos contar sobre os eventos ocorridos no Afeganistão dos anos 1970. Lá ele tinha um amigo e também serviçal chamado Hassan. Hassan era de um povo considerado inferior naquele região, os hazara. Eles jogavam baralho, empinavam pipa, assistiam filmes, comiam romã direto da árvore e muito mais. O laço de amizade era fortíssimo, mas um dia Amir covardemente não impede que algo de muito ruim aconteça com Hassan. Um tempo depois, Amir tem mais uma atitude totalmente condenável que faz com que Hassan tenha que se mudar.

Tudo isso acontece em meio a invasão russa do Afeganistão, algo que irá mudar completamente esse país.

O autor Khaled Hosseini é hábil ao descrever detalhes do cotidiano afegão, nos permitindo entender como as coisas funcionavam por lá. Ele merece ainda mais elogios pelo desenvolvimento dos relacionamentos entre Amir e Hassan e também de Amir e o seu pai, o baba.

Tudo o que Amir queria era que o seu baba se orgulhasse dele, o que era difícil, pois Amir era um garoto ‘diferente’. Ele preferia ficar lendo livros e escrevendo do que jogando futebol. Para baba, faltava algo a Amir.

Anos depois surge uma oportunidade para Amir tentar se redimir. Será que agora ele terá coragem para fazer o que é certo?

O Caçador de Pipas é um livro muito fácil de ler. Khaled Hosseini tem uma escrita acessível e dinâmica, mas não apressada. Em momentos derradeiros ele cria bastante expectativa. O forte são os relacionamentos entre os personagens principais, com direito a diálogos marcantes. Há um certo exagero nos acontecimentos do ato final, que soam quase que implausíveis, mas estamos tão conectados com a história que relevamos.

Podemos julgar Amir como alguém que não deu valor ao seu melhor amigo e o prejudicou. Mas o fato é que as pessoas cometem erros ao longo da vida, ainda mais em uma idade em que a maturidade ainda está longe de chegar. Todos tem direito a uma segunda chance. Como diz Rahim Kham: Há um jeito para ser bom de novo.