Crítica | A Orgia da Morte (1964)

A Orgia da Morte (The Masque of the Red Death) talvez seja a melhor adaptação que Roger Corman fez no seu famoso ciclo Edgar Allan Poe. Contando com uma memorável atuação de Vincent Price, o filme é uma experiência exagerada e inspirada do terror clássico. É difícil sentir medo, mas o desconforto é evidente graças as atitudes do sádico Príncipe Próspero e de outros personagens. A trama se passa na Idade Média e mostra um tipo de peste vermelha assolando a todos. Quem quer escapar da morte no castelo do Príncipe Próspero tem grandes chances de se arrepender. Um dos grandes destaques de A Orgia da Morte é a fotografia com cores pulsantes. A comparação com O Sétimo Selo é descabida e injusta, já que o filme de Bergman é uma obra prima indiscutível e tem uma abordagem diferente. Roger Corman conseguiu aqui criar uma competente experiência de terror e nada mais do que isso.

Nota: 7

Game of Thrones 8×06: The Iron Throne – Crítica

Fui assistir ao series finale de Game of Thrones com as expectativas moderadas e me surpreendi positivamente. Com cerca de 1 hora e 20 minutos, o episódio ofereceu muito daquilo que nos acostumamos ao longo dessas oito temporadas. Teve política, violência, humor e surpresas.

Muitos estão condenando as escolhas dos roteiristas. Há quem diga que personagens foram desconstruídos e que alguns tiveram atitudes que não condizem com o seu passado.

Não podem estar mais enganados.

A reclamação principal é obviamente a transformação de Daenerys em Rainha Louca. Os fãs da Mãe dos Dragões acham que isso surgiu do nada e portanto consideraram o episódio e a temporada uma merda colossal. Parece piada.

Indícios de que Daenerys poderia seguir por esse caminho estão em várias atitudes dela ao longo dos anos. Os roteiristas fizeram questão de colocar Tyrion falando com Jon sobre os atos condenáveis dela. Foi uma maneira
de fazer o público também entender. Pelo jeito, sem muito sucesso.

O fato é que Daenerys era uma tirana por natureza e uma sucessão de acontecimentos fizeram com que ela finalmente explodisse. E uma cidade inteira teve que sofrer as consequências de tamanha fúria. Ela sempre foi do sangue do dragão, no mau sentido.

As primeiras cenas de The Iron Throne revelam o tamanho da destruição perpetrada por ela e pelo dragão. A fotografia cinza realça o caos e a melancolia. A atmosfera é pesada demais. Tyrion, Jon e Arya ficam basicamente sem reação diante de tamanha barbárie.

Tyrion tinha uma pequena esperança de que Jaime tivesse sobrevivido, mas ele logo encontrou os seus dois irmãos unidos sem vida de baixo dos escombros. Uma cena tocante e grandiosa muito por causa da atuação de Peter Dinkalage.

Confesso que não esperava que Jon fosse o responsável por botar um fim na loucura de Daenerys. Parecia que Arya faria o serviço. Se pensarmos de maneira lógica, dificilmente Jon ficaria a sós com Daenerys, mas de qualquer forma, a cena foi bem executada e tanto Emilia Clarke como Kit Harington – sempre tão criticados – fizeram um bom trabalho.

E como foi triste ver Drogon diante do que estava acontecendo. Na sequência, a reação dele não poderia ser mais simbólica: destruir o trono
que impulsionou tudo isso. Espetacular.

A partir dai ficou a dúvida sobre quem comandaria os sete reinos. As coisas foram obviamente apressadas, mas interessantes. Sobrou tempo para uma inspirada piada sobre o sistema político de Westeros. Sam estava inventando a democracia e virou motivo de chacota. Coitado.

Bran, o Quebrado como o rei foi surpreendente de fato. Pelo menos dessa forma justifica-se toda a importância que era dada a ele ao longo das temporadas e faz com que o sacrifício de Hodor de segurar a porta tenha sido essencial. É uma pena que  o ator é bem fraco. E ele parecia promissor quando era um gurizinho.

E que belo final tiveram os Starks. Sansa evoluiu muito e jamais dobraria o joelho. Ela é a pessoa certa para  comandar o Norte. Eu esperava mais de Jon Snow, mas ele é o que é. Um homem justo e com poucas pretensões. No final das contas,ele escolheu um caminho semelhante ao do Meistre Aemon. Arya salvou Westeros do Rei da Noite e agora irá explorar o mundo. Acho que no final das contas, ela é a minha personagem favorita de Game of Thrones.

Vários epílogos para encerrar uma história e deixar claro que as coisas irão continuar.

Game of Thrones contou uma história extremamente ambiciosa, misturando política e fantasia e nos entregou episódios maravilhosos. As últimas duas temporadas foram apressadas e tiveram seus deslizes, mas no geral concluíram de maneira mais do que satisfatória tudo o que foi feito. É impossível agradar a todos. Temos que aceitar que nem todos os personagens terão finais felizes ou grandiosos. Isso está dentro do realismo que a série sempre buscou.

Sou do grupo de quem aprova o que foi feito e agora me despeço
de um dos melhores seriados de todos os tempos com uma salva de palmas e já com um ar nostálgico.

Nota: 9

Crítica | Vidro (Glass, 2019)

Saber que Fragmentado fazia parte do mesmo universo de Corpo Fechado foi algo empolgante. Essa empolgação aumentou ainda mais após o anuncio de um filme em que todos esses personagens iriam aparecer juntos. Vidro é o encerramento de uma inesperada trilogia que teve inicio em 2000, numa época em que achávamos que M. Night Shyamalan se transformaria em um grande diretor.

Infelizmente, o indiano tem colecionado mais erros do que acertos em sua carreira e Vidro é mais um filme que se junta ao grupo das decepções. Não há dúvidas de que havia potencial, porém ele foi desperdiçado com tantas escolhas erradas.

David Dunn vai confrontar Kevin Wendell Crumb após este sequestrar quatro garotas e ambos acabam em um hospital psiquiátrico. Quem faz companhia aos dois no hospital é Elijah Price, o Mister Glass. A psiquiatra Ellie Staple vai tentar convencê-los de que eles não possuem qualquer tipo de superpoder.

Shyamalan tenta emular aquela atmosfera de thriller psicológico de Corpo Fechado e falha feio. Quase nada aqui parece autêntico. Os diálogos que comparam o que estamos assistindo com histórias em quadrinhos soam extremamente artificiais.

Falando em artificial, o que dizer da atuação de Bruce Willis? Parece que ele não via a hora das filmagens terminarem para poder aproveitar o seu generoso salário. Nem mesmo ele conseguiu capturar a essência do seu próprio personagem de 19 anos atrás.

Talvez o único ponto positivo em Vidro seja mesmo James McAvoy e seu personagem com inúmeras personalidades. A capacidade do ator em transitar entre elas em questão de segundos é louvável. Ele pode soar ameaçador e monstruoso em um momento e no outro ser tão perigoso como uma inocente criança de 9 anos.

É uma pena que Shyamalan tenha feito decisões reprováveis que vão desde o roteiro até ângulos de câmera. E é claro que há uma reviravolta no final, não é mesmo? Pena que é mais uma daquelas que não fazem muito sentido se analisarmos o contexto da história.

Sinais, Sexto Sentido, Corpo Fechado e até mesmo A Vila foram o ápice de um diretor que aparentemente nunca mais irá de fato nos impressionar.

Nota: 5

Crítica | Game of Thrones 8×05: The Bells

Desde a primeira temporada aprendemos que não se deve esperar por finais felizes em Game of Thrones. Por que diabos as coisas iriam mudar agora?

Muita gente considerou este episódio ruim pelo fato de Daenerys ter sucumbido à loucura. Então quer dizer que se um personagem não faz exatamente o que o público quer o seriado inteiro é uma bosta e se perdeu? Isso é coisa de gente birrenta que não tem capacidade de analisar uma obra de maneira não passional.

Os indícios de que Daenerys poderia emular o pai foram espalhados ao longo das 8 temporadas de Game of Thrones. Daenerys sempre desejou o poder acima de tudo e praticou atos cruéis em sua jornada. Ela crucificou, traiu e queimou. E agora queimou tudo e todos em Porto Real.

A batalha já estava vencida, mas a torrente de emoções que sentia e fato de ser uma Targaryen levaram ela a destruir a capital de Westeros. Ela e o seu dragão trouxeram as chamas do inferno para a cidade e seus habitantes. Foi extremamente cruel.

Miguel Sapochnik conseguiu criar essa sequência com maestria. Foi um verdadeiro festival de fogo e sangue. A decisão por nos colocar no ponto de vista de Arya em meio ao caos foi muito acertado. Dessa forma conseguimos ter uma ideia melhor do tamanho da cagada que Daenerys fez.

The Bells teve outros bons momentos, como o muito esperado confronto entre o Cão e o Montanha, embate este que ficou conhecido por Cleganebowl. O miserável do Montanha estava fazendo jus ao lema dos Greyjoy ” o que está morto não pode morrer”. Que bela fotografia aqui.

Difícil ter outro final para Cersei que não esse. Ela aguentou firme até os últimos minutos, mas não havia mais o que fazer. Essa foi uma das melhores personagens de Game of Thrones e Lena Headey um dos grandes destaques do elenco.

Jaime Lannister teve um  arcos narrativos mais complexos da série e é óbvio que eu preferia vê-lo partindo de outra forma, mas o amor dele pela Cersei falou mais alto.

Resta saber agora o que Jon Snow e os demais vão fazer diante da loucura estabelecida de Daenerys. É um tanto difícil ela se redimir agora. Não me parece haver tempo.

Analisando essa curta temporada, não dá para negar que houve muita pressa principalmente para acabar com o Rei da Noite. Essa era a grande ameaça e tudo terminou em um piscar de olhos.

De qualquer forma, considero que as coisas estão se encerrando de maneira satisfatória.

The Bells é Game of Thrones na sua essência. Foi um episódio difícil de digerir por ser extremamente violento e melancólico. É uma pena que parte do público considere que os personagens são suas propriedades e que o roteiro tenha que fazer exatamente o que eles querem.

Nota: 9

Crítica | Game of Thrones – 8×04: The Last of the Starks

Fazia tempo que Game of Thrones não entregava um episódio tão intenso como este The Last of the Starks. Aqui a trama nos fez lembrar de grandes momentos do seriado ao investir em intriga, humor, diálogos inteligentes, reviravoltas e mortes realmente chocantes.

No final das contas a guerra contra o Rei da Noite e os Outros foi um mero empecilho para o que realmente importa: a guerra dos tronos. Nem os mortos conseguem ser mais cruéis que os seres humanos. Cersei já ultrapassou todos os limites e talvez justamente por isso esteja viva e com uma coroa na cabeça e uma taça de vinho na mão. Será que vai ser assim no final? Tudo é possível agora.

O povo em Winterfell soube aproveitar a vitória contra o Rei da Noite. Houve tempo para honrar os mortos, brindar e discutir o futuro.

Finalmente o modus operandi de Daenerys é questionado. A rainha dos dragões sempre foi arrogante, mas libertou escravos, matou vilões e trouxe justiça para o outro lado do Mar Estreito. Mas será ela a pessoa ideal para se sentar no trono de ferro? Por que ela quer tanto ser a Rainha dos Sete Reinos?

Varys sempre disse que busca servir o reino da melhor maneira possível e temos que levar em conta quando ele chega a conclusão de que Daenerys não é a melhor opção. Particularmente, gostei quando ele disse que talvez o melhor governante seja aquele não quer governar.

Há quem esteja criticando o episódio pela suposta desconstrução de Daenerys. Bom. Já haviam indícios de que isso seria possível e mesmo se não houvessem, qual o problema? Então todos os personagens precisam sempre evoluir e tomar as atitudes mais corretas? É assim na vida real? Não. Daenerys seguir os passos do Rei Louco não faz Game of Thrones ser ruim. E de qualquer forma, pode ser que isso nem aconteça.

O que aconteceu em The Last of Starks e chamou a atenção foi Brienne com Jaime. Deixem a Cavaleira dos Sete Reinos ser feliz e sofrer em paz. Ela sempre gostou de Jaime e agora que os dois se aproximaram é natural que sofra com a partida dele. Ou quer dizer que a mulher não pode chorar porque é desconstrução da personagem? Me poupem.

O episódio estava bom e aí ele melhorou absurdamente quando testemunhamos duas mortes difíceis de encarar. Que crueldade com o dragão Rhaegal. Confesso que eu não esperava essa morte antes da batalha que está para acontecer. E foi pesado, hein?

E quem achou por um segundo que Cersei aceitaria a proposta de paz? É óbvio que a resposta seria não e quando isso foi ficando cada vez mais evidente tememos por Missandei. Esses 10 minutos finais foram de extrema aflição, no melhor estilo Game of Thrones.

Triste saber que Verme Cinzento e Missandei não vão mais realizar o sonho de viverem juntos longe de Westeros.

O bicho vai pegar no próximo episódio. Será que Daenerys vai incorporar o Rei Louco e queimar tudo em Porto Real? Quero ver passar por aquelas bestas gigantes com flechas sedentas pelo couro do dragão.

E Jon… por quê diabos você não se despediu do Fantasma de maneira decente?

A expectativa para esses últimos episódios está enorme.

Nota: 9.8

Crítica | Rosetta (1999)

Rosetta é uma garota de cerca de 17 anos vivendo em uma Bélgica assolada pela desigualdade social. Após perder o emprego, ela precisa travar batalhas diárias para garantir um pouco de comida, água e um teto. A mãe alcoólatra e também desempregada é mais uma preocupação e fonte de desentendimentos.

A câmera tremida dos diretores costuma investir em ângulos fechados, muitas vezes acompanhando a personagem de costas e em movimento. Essas escolhas refletem bem o estado de espírito de Rosetta, sempre a um passo de entrar em ebulição. E não poderia ser diferente, já que o desespero de não conseguir se manter é cada vez maior.

A personalidade difícil de Rosetta é mais um obstáculo, mas é difícil julgar alguém cujo futuro tem poucas possibilidades de melhorar.

O filme não oferece uma história convencional com começo, meio e fim. Trata-se mais de um retrato de uma sobrevivente vivendo à margem da sociedade, como tantos outros. Essa abordagem diferente pode fazer com que parte do público torça o nariz, o que é uma pena.

Filmado de uma maneira quase que documental, Rosetta é dolorosamente real.

Nota: 8

Crítica | Game of Thrones – 8×03: The Long Night

Game of Thrones – 8×03: The Long Night

A batalha contra o Rei da Noite e o exército das mortos prometia bastante. O diretor Miguel Sapochnik já havia mostrado sua qualidade com os épicos ‘Hardhome’ e ‘Battle of the Bastards’, então nossa empolgação era compreensível.

Tudo começou da melhor maneira possível: uma trilha sonora espetacular adicionando tensão a cada nota, a disposição dos soldados e os rostos temerosos de nossos personagens preferidos. Aí tivemos a primeira investida com os dothraki e suas espadas flamejantes. Ouvir os gritos cada vez mais baixos e as espadas se apagando a uma a uma foram indícios de que sobreviver a Batalha de Winterfell seria basicamente um milagre.

Infelizmente, minha empolgação foi diminuindo graças a péssima qualidade da imagem da HBO HD. Minha nossa senhora. Por alguns momentos eu achava que estava assistindo a uma fita VHS em minha antiga televisão Sanyo de 20 polegadas. Foi extremamente frustrante me sentir perdido em várias cenas. A noite foi realmente escura e cheia de terrores. Onde estava o Senhor da Luz para nos ajudar um pouco?

Ainda bem que Melissandre e os dragões conseguiram iluminar um pouco o céu de Westeros.

Quando os mortos começaram a subir pelo muro tudo melhorou. A fotografia se revelou extremamente bonita e finalmente pude entender o que ocorria. A carnifica comeu solta. Alguns personagens foram se despedindo, quase sempre após algum sacrifício pessoal. A Lady Mormont levou um gigante junto com ela, Beric ajudou Arya e Edd ajudou Sam.

The Long Night não foi ‘apenas’ ação. Ver o povo escondido mas criptas de Winterfell remeteu a uma situação parecida vivida por Cersei e sua corte no episódio Blackwater. A coitada da Sansa esteve presente nas duas. O pavor era palpável ali dentro.

A intensidade da batalha foi aumentando. É claro que tudo foi bem grandioso, com uma porrada de figurantes, dragões, mortos, gigantes e todo o resto, mas os momentos mais épicos foram reservados para os minutos finais.

Novamente a trilha sonora embalou uma sequência que ganhou contornos grandiosos. Theon! Acho que agora podemos dizer que ele conseguiu sua redenção. Ele precisava disso mais do que ninguém.

E que tal o final? Era óbvio que o Rei da Noite não iria vencer a batalha, mas por um momento tudo pareceu perdido. Nada como um bom Deus Ex Machina para resolver tudo, não é mesmo? Não há outro nome para o que aconteceu. Arya surgiu do nada, matou o vilão e todo o exército morreu em definitivo. Isso me fez lembrar do exército dos mortos resolvendo a batalha em Senhor dos Aneis.

De qualquer forma, o caminho de Arya começou a ser trilhado para isso desde quando empunhou a Agulha pela primeira vez. As lições de Syrio Forel, o tempo que passou com o Cão e o treinamento em Braavos fizeram dela a pessoa certa para evitar o fim do mundo. Que belo arco narrativo, hein?

Agora são apenas mais três episódios e tudo pode acontecer.

Nota: 9.5

Resenha de livro | Vidas Secas

Vidas Secas foi o quarto romance escrito por Graciliano Ramos. Publicado no ano de 1938, o livro é classificado como uma obra regionalista da segunda fase do modernismo. Escrito em terceira pessoa com uma linguagem direta e objetiva, Vidas Secas nos apresenta a uma família de retirantes nordestinos que está em busca de dias melhores.

Fabiano, Sinhá Vitória, os filhos e a cachorrinha Baleia ganham vida nas páginas de Graciliano Ramos. As situações pelas quais passa a família exemplificam a desigualdade social e o massacre do homem comum pela classe dominante. A injustiça está presente por todos os cantos deste cenário árido, quente e com poucas esperanças. Mesmo curto, o autor consegue analisar o psicológico de cada personagem, expondo o interior deles de maneira tocante. É possível ler os capítulos fora de ordem que mesmo assim tudo fará sentido. É por isso que ele é chamado de um romance desmontável.

É sempre uma experiência enriquecedora reler a obra máxima de Graciliano Ramos. A cada leitura consigo perceber coisas novas e me impressionar com este que é um dos melhores livros já publicados em terras brasileiras. Poucas vezes a crítica social soou tão forte e verdadeira.

Crítica: Sonhos Imperiais (2014)

Após passar um tempo considerável na cadeia, Bambi terá pela frente o desafio de se reinserir em uma sociedade que tem pouco espaço para pessoas como ele. É no lado nada romantizado de Los Angeles onde Bambi tentará alcançar o sonho de publicar um livro. Esse objetivo parece ficar cada vez mais distante a medida que novos problemas surgem na sua frente. O dinheiro inexiste, a família pouco pode ajudar e um emprego está bem difícil de conseguir sem uma carteira de motorista. Para tirar a carteira ele tem que pagar 15 mil dólares de pensão, mas como conseguir isso sem um trabalho? E não é apenas de si próprio que ele tem cuidar, mas também do filho pequeno. Isso sem falar da violência por todos os lados. Pois é. Parece que todo o sistema quer empurrar Bambi para a vida do crime novamente. Sonhos Imperiais é um retrato honesto e emotivo sobre uma parcela marginalizada da sociedade. O diferencial de Bambi é que ele é capaz de transformar em palavras contundentes tudo aquilo que já viveu. Será o bastante para garantir um futuro para ele e para o filho? Além de um roteiro bem escrito que foca em um tema relevante, temos aqui uma performance extremamente competente de John Boyega. Vale a pena uma sessão dupla com Fruitvale Station.

Nota: 8

Sinais (Signs, 2002)

Mais do que um filme sobre invasão alienígena, Sinais é a história de um homem e sua fé. Após um acontecimento trágico, Graham Hess abandonou a batina e decidiu não perder mais tempo com orações. Ele levava uma vida tranquila com seus dois filhos e o irmão mais novo quando coisas misteriosas começam acontecer na sua fazenda e no mundo inteiro. Animais agem com agressividade e enormes círculos surgem em várias plantações. Quem ou o quê está por trás disso? As revelações são feitas aos poucos e com muito suspense. M. Night Shyamalan usa suas influências com sabedoria e constrói cenas que causam aflição. O diretor consegue criar uma atmosfera de medo quase palpável, quase sempre de um jeito mais sutil. São sons que ouvimos à distância, sombras passando pelo vão das janelas, videos caseiros de outro país e assim por diante. Acompanhamos essa situação apenas a partir da perspectiva da família de Graham Hess. O resto do mundo importa muito pouco aqui. Desde o início conseguimos nos conectar com os quatro. A qualidade dos atores obviamente colabora, mas os diálogos são muito bem escritos e a dinâmica entre eles propicia tanto momentos engraçados como situações com mais carga emocional. Em uma segunda assistida é possível notar pistas sobre quase tudo o que é visto no ato final. Tudo tem um porquê, desde o passado nos campos de basebol de Merrill, a asma de Morgan e a mania de Bo em relação a água. Seriam sinais ou coincidências? Ou como pergunta Graham para o irmão: estamos por nossa conta ou existe alguém nos ajudando?

Nota: 9

Game of Thrones – 8×02: A Knight of The Seven Kingdoms

A Knight of the Seven Kingdoms, segundo episódio da oitava temporada, foi basicamente perfeito ao que se propôs. Trata-se de um episódio de preparação extremamente eficiente. Além de trabalhar a tensão que antecede uma batalha com maestria, ele ainda colocou frente a frente diversos personagens e nos brindou com diálogos inteligentes e emocionantes. Houve tempo também para várias referências a acontecimentos passados, o que não deixa de ser uma bem vinda recompensa para os fãs.

Para quê acelerar as coisas? Outros seriados provavelmente nem se dariam ao trabalho de ter um episódio destes, mas isso é Game of Thrones.

Todos os 58 minutos se passam em Winterfell. Vemos os soldados treinando, as armas com vidro de dragão em fabricação, armadilhas preparadas e estratégias debatidas. Tudo muito verossímil. Não poderia ser diferente quando há um imenso exército de mortos chegando nos portões. Até quem nunca empunhou uma espada irá contribuir de alguma forma. Mesmo com o medo estampado nos olhos.

Eu achava que Jaime sofreria um pouco mais ao retornar a Winterfell, mas não foi bem assim. Graças a Brienne ele foi aceito por Daenerys. Como disse Jon, não dá para desperdiçar um soldado nessas horas.

Daenerys tem o costume de soar irritante quando questiona Tyrion. Todos sabemos do potencial do anão e ela parece esquecer disso às vezes. A Rainha dos Dragões dificilmente assume que cometeu um erro e prefere jogar a culpa na sua Mão. Jorah e Sansa talvez tenham a convencido a acreditar nele em definitivo.

Quando parecia que Sansa e Daenerys iriam se acertar de uma vez, eis que surge a dúvida sobre o que será feito com o Norte depois das batalhas que virão. Claro, essa discussão só existirá mais para frente se as batalhas forem vencidas, mas é algo a se pensar, ainda mais agora que Jon descobriu quem ele é.

Confesso que ainda não sei o que pensar sobre Arya e Gendry. Isso veio meio que do nada. De qualquer forma, é natural alguém buscar conforto (e prazer) em uma noite que antecede uma batalha.

Minha teoria sobre Theon provavelmente irá se concretizar. Gostei de vê-lo ser bem recebido por Sansa e ter o aval de Bran para protegê-lo. Duvido que ele sobreviverá ao próximo episódio e imagino que ele irá se despedir com um ato de bravura. Tomara. Ele merece a rendição agora.

Os melhores momentos de A Knight of the Seven Kingdoms se passaram na roda de conversa em frente da lareira. Brienne, Podrick, Tyrion, Davos, Jaime e Tormund. E vinho. Bastante vinho. Finalmente descobrimos como o selvagem Tormund ficou tão forte: ele mamou nos seios de uma gigante por três meses, óbvio. Atenção marombeiros! Isso é melhor que Whey Protein. Essa inesperada resenha não foi apenas de diálogos engraçados. Apreciamos o prodígio Podrick cantando uma bela canção e testemunhamos Brienne de Tarth receber o título de Cavaleira de Jaime Lannister e ser efusivamente aplaudida por Tormund. A quase sempre impassível Brienne sorriu e ficou com os olhos umedecidos. Nós também.

Este foi um episódio de preparação que beirou a perfeição e o cliffhanger não poderia ter sido melhor executado. Em meio a revelação que Jon fez para Daenerys a trombeta soou três vezes e agora não há mais como adiar: O INVERNO CHEGOU.

Nota: 9.8

Assunto de Família (Shoplifters, 2018)

Desde quando entrei em contato com o cinema de Hirokazu Koreeda pela primeira vez, faço questão de acompanhar todos os seus lançamentos. Em se tratando de cinema japonês, talvez ele seja realmente o nome de maior destaque. Assunto de Família é mais uma prova da qualidade superior do diretor. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o filme faz um retrato sensível e honesto de uma família peculiar. Mesmo empregados, o dinheiro está sempre no limite. O garotinho Shota já se transformou em um especialista na arte de praticar pequenos delitos. Ele rouba comida e shampoo. E assim esse pequeno grupo segue na batalha diária da sobrevivência. A menina Yuri foge da sua casa por sofrer maus tratos e é, digamos, adotada pela família. A trama se desenrola com sutileza e aos poucos conseguimos entender os anseios de cada um deles, assim como a estranha dinâmica em que vivem. Não se surpreenda se chegar ao final sentindo uma enorme conexão com cada um deles e talvez com os olhos levemente marejados.

Nota: 9