A Mula (2018) | Crítica

Poucos diretores tem uma filmografia tão sólida como Clint Eastwood. Menina de Ouro, Sobre Meninos e Lobos, Gran Torino, Os Imperdoáveis, As Pontes de Madison, Cartas de Iwo Jimma e Um Mundo Perfeito são realizações de alguém que realmente sabe contar uma história envolvente e marcante. A Mula peca justamente por não ter essas virtudes essenciais para um filme.

Baseado em fatos reais, o filme nos mostra como um senhorzinho de 90 anos parou de trabalhar com flores e passou a colaborar com o cartel mexicano. É isso mesmo. Earl Stone é um homem de outro século e de bom coração que vê o seu negócio ir à falência. Nada mais natural do que servir de mula para narcotraficantes, não é?

Ele é bizarramente abordado por um homem na festa de noivado da neta com essa proposta. E ele aceita. Passamos a acompanhar Earl dirigindo sua caminhonete pelas estradas americanas carregando quilos de cocaína e passando por vários contratempos.

Além dessa linha narrativa principal, temos sequências com a família de Earl – quase sempre negligenciada por ele – e também o ponto de vista de dois agentes do DEA que estão tentando encontrar a tal mula que está batendo recordes.

Earl na estrada transportando cocaína como se fosse sacos de batata rende bons momentos, mas o drama familiar e as cenas com os policiais são irregulares. Eastwood se lembrou de seus tempos de cowboy do cinema e atirou para todos os lados. Só faltou acertar o alvo. Os diálogos expositivos e as situações forçadas também não colaboram.

Eastwood comanda o filme com segurança, mas sem qualquer brilho. Ainda que A Mula seja um entretenimento de relativa qualidade, a trama está bem longe de nos envolver. Não há impacto e nem clímax. Ficam apenas as divertidas imagens de um velhinho cantarolando músicas antigas e fazendo piadas politicamente incorretas enquanto executa o seu novo ‘trabalho’.

É pouco para alguém com uma carreira tão rica.

Nota: 6

 

Sorte no Amor (Bull Durham, 1988) | Crítica

Se fizermos um levantamento sobre filmes de esportes vamos perceber que a maioria tem uma qualidade duvidosa. Particularmente, sou apreciador do gênero, apesar de ele geralmente me decepcionar.

Sorte no Amor (que de agora em diante chamarei pelo título original) é um filme que tem um grande número de admiradores, principalmente americanos. Será que é porque eles amam baseball? Pode ser.

O fato é que pouco me envolvi com essa tresloucada mistura de comédia, romance, esporte e um tiquinho de drama. O diretor Ron Shelton foi jogador de baseball nas ligas menores, então há autenticidade em várias sequências. Pena que elas não são uma constante.

Nuke LaLoosh é o novo arremessador dos Durham Bulls, um time que participa de algo que seria equivalente a quarta divisão do futebol brasileiro. Ele é uma promessa, um verdadeiro diamante bruto. O braço tem a potência de um canhão, mas suas decisões são as piores possíveis e isso tanto dentro como fora de campo. A comissão técnica contrata um jogador experiente para servir de mentor para o jovem Nuke. Crash Davis chega ao time com uma boa bagagem. Agora tudo depende de os dois se darem bem.

Quem está dividida em relação a Crash e Nuke é Annie Savoy. Fanática por baseball, ela tem o costume de se relacionar com o melhor jogador do time por uma temporada, todos os anos. Quem ela irá escolher desta vez?

Bull Durham acerta em cheio ao nos coloca no do dia a dia de um time das ligas menores de baseball. O atleta enraivecido ao ser mandado embora, o lado supersticioso dos jogadores e a decepção por não ter aproveitado a chance na elite são algumas das situações que o filme aborda com qualidade.

Mas o brilho acaba aí.

O triângulo amoroso não é nada inspirado e bem caricatural. O objetivo era claramente esse, mas infelizmente isso me afastou bastante da trama. Os diálogos um tanto absurdos também não colaboraram. Às vezes achava que estava diante de um filme feito para TV.

O filme diverte com algumas piadas e acerta em alguns detalhes do esporte, mas a mistura de gêneros e o romance novelesco atrapalham bastante. Sinceramente, tenho dificuldade de entender a presença de Bull Durham no livro 1001 filmes para ver antes de morrer.

Na época do lançamento, criou-se uma boa expectativa para o diretor Ron Shelton. Ele até acertou a mão em Homens Brancos Não Sabem Enterrar, mas depois disso foi colecionando desastres. Bull Durham era um indício e muitos não sabiam.

Nota: 6

Crítica: O Preço de um Homem (1953)

A parceria entre o diretor Anthoy Mann e James Stewart rendeu cinco filmes e muitos apontam O Preço de um Homem como o melhor deles. Não é difícil de entender o porquê.

Este é um western que possui atrativos não tão comuns dentro do gênero. Há muito pouco de bang bang, nada de duelos, saloons ou jogos de pôquer. Mais do que investir em ação, a trama se concentra no dilema moral que o nosso herói deve enfrentar e toda a tensão entre os cinco personagens.

Howard Kemp está na caça do fora da lei Ben Vadergroat pela recompensa de 5 mil dólares. Com essa grana ele quer reaver a terra que perdeu durante a Guerra Civil Americana graças a traição da ex-mulher.

Kemp irá contar com a ajuda de um garimpeiro e de um soldado que foi expulso do corpo militar. Logo nas primeiras cenas o trio consegue capturar Ben, que estava na companhia da jovem Lina Patch.

A jornada pelas montanhas rochosas com Ben planejando maneiras de escapar é muito mais complexa que a captura. Cada um dos cinco tem suas motivações e o resultado final é imprevisível. O jogo psicológico se faz presente com certa qualidade.

Assim como Kemp somos estimulados a refletir se é justo tirar a vida de alguém para benefício próprio. O mundo do velho oeste não era fácil.

Ainda que o Preço de um Homem ofereça uma história mais densa e atuações inspiradas, ele acaba pecando em seu final abrupto e não tão verossímil se analisarmos todo o contexto.

De qualquer forma, o filme permanece como uma obra digna de nota para quem aprecia o gênero.

Nota:

Crítica: A Favorita (2018)

A Favorita é o filme mais acessível do diretor grego Yorgos Lanthimos, mas também é a sua obra menos impactante. Isso não quer dizer que trata-se de um filme ruim, longe disso. A trama nos mostra um triângulo amoroso entre a rainha Anne, a Lady Sarah e uma recém chegada na corte chamada Abigail. Aos poucos percebemos que Lady Sarah e Abigal são capazes de tudo para caírem nas graças da rainha. Ambas podem ser solicitas, manipuladoras ou vingativas. Tudo isso se passa no contexto de uma Inglaterra do Século XVIII enfrentando dificuldades políticas e sociais. Esse lado histórico fica em segundo plano, mas propicia momentos inspirados de um humor negro e satírico. Com uma recriação de época exemplar, uma fotografia que ajuda a transmitir o sentimento das personagens e atuações de primeira grandeza de Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Watson é óbvio que existe muita coisa para se admirar em A Favorita. É uma pena constatar a ausência de momentos realmente memoráveis. Faltou aquele algo a mais que fazem filmes como Amadeus e Bary Lyndon serem admirados por décadas.

Nota: 7

Crítica: Os Donos da Rua (1991)

A carreira do já saudoso diretor John Singleton não atingiu o nível que se esperava, mas ninguém irá tirar o mérito da pequena obra-prima chamada Os Donos da Rua. Este é um poderoso retrato do cotidiano de um bairro de Los Angeles em que a maior parte da população é negra. Pobreza, brigas, corpos apodrecendo nas vielas, tráfico e balas perdidas fazem da vida ali um absurdo desafio. Entramos nesse mundo a partir da perspectiva de Tre Styles, um jovem promissor que precisa dançar conforme a música, assim como todos. Ele e seus amigos não apenas se preocupam com as coisas normais dos jovens, mas precisam também pisar em ovos para não se tornarem mais uma estatística. A crítica social é forte e eficiente em Os Donos da Rua. Trata-se de um filme-denúncia cuja mensagem é cada vez mais relevante. O roteiro bem escrito e as atuações destacadas de Cuba Gooding Jr., Ice Cube e Tyra Ferrell foram essenciais para sua longevidade.

Nota: 9

 

Crítica | A Orgia da Morte (1964)

A Orgia da Morte (The Masque of the Red Death) talvez seja a melhor adaptação que Roger Corman fez no seu famoso ciclo Edgar Allan Poe. Contando com uma memorável atuação de Vincent Price, o filme é uma experiência exagerada e inspirada do terror clássico. É difícil sentir medo, mas o desconforto é evidente graças as atitudes do sádico Príncipe Próspero e de outros personagens. A trama se passa na Idade Média e mostra um tipo de peste vermelha assolando a todos. Quem quer escapar da morte no castelo do Príncipe Próspero tem grandes chances de se arrepender. Um dos grandes destaques de A Orgia da Morte é a fotografia com cores pulsantes. A comparação com O Sétimo Selo é descabida e injusta, já que o filme de Bergman é uma obra prima indiscutível e tem uma abordagem diferente. Roger Corman conseguiu aqui criar uma competente experiência de terror e nada mais do que isso.

Nota: 7

Crítica | Vidro (Glass, 2019)

Saber que Fragmentado fazia parte do mesmo universo de Corpo Fechado foi algo empolgante. Essa empolgação aumentou ainda mais após o anuncio de um filme em que todos esses personagens iriam aparecer juntos. Vidro é o encerramento de uma inesperada trilogia que teve inicio em 2000, numa época em que achávamos que M. Night Shyamalan se transformaria em um grande diretor.

Infelizmente, o indiano tem colecionado mais erros do que acertos em sua carreira e Vidro é mais um filme que se junta ao grupo das decepções. Não há dúvidas de que havia potencial, porém ele foi desperdiçado com tantas escolhas erradas.

David Dunn vai confrontar Kevin Wendell Crumb após este sequestrar quatro garotas e ambos acabam em um hospital psiquiátrico. Quem faz companhia aos dois no hospital é Elijah Price, o Mister Glass. A psiquiatra Ellie Staple vai tentar convencê-los de que eles não possuem qualquer tipo de superpoder.

Shyamalan tenta emular aquela atmosfera de thriller psicológico de Corpo Fechado e falha feio. Quase nada aqui parece autêntico. Os diálogos que comparam o que estamos assistindo com histórias em quadrinhos soam extremamente artificiais.

Falando em artificial, o que dizer da atuação de Bruce Willis? Parece que ele não via a hora das filmagens terminarem para poder aproveitar o seu generoso salário. Nem mesmo ele conseguiu capturar a essência do seu próprio personagem de 19 anos atrás.

Talvez o único ponto positivo em Vidro seja mesmo James McAvoy e seu personagem com inúmeras personalidades. A capacidade do ator em transitar entre elas em questão de segundos é louvável. Ele pode soar ameaçador e monstruoso em um momento e no outro ser tão perigoso como uma inocente criança de 9 anos.

É uma pena que Shyamalan tenha feito decisões reprováveis que vão desde o roteiro até ângulos de câmera. E é claro que há uma reviravolta no final, não é mesmo? Pena que é mais uma daquelas que não fazem muito sentido se analisarmos o contexto da história.

Sinais, Sexto Sentido, Corpo Fechado e até mesmo A Vila foram o ápice de um diretor que aparentemente nunca mais irá de fato nos impressionar.

Nota: 5

Crítica | Rosetta (1999)

Rosetta é uma garota de cerca de 17 anos vivendo em uma Bélgica assolada pela desigualdade social. Após perder o emprego, ela precisa travar batalhas diárias para garantir um pouco de comida, água e um teto. A mãe alcoólatra e também desempregada é mais uma preocupação e fonte de desentendimentos.

A câmera tremida dos diretores costuma investir em ângulos fechados, muitas vezes acompanhando a personagem de costas e em movimento. Essas escolhas refletem bem o estado de espírito de Rosetta, sempre a um passo de entrar em ebulição. E não poderia ser diferente, já que o desespero de não conseguir se manter é cada vez maior.

A personalidade difícil de Rosetta é mais um obstáculo, mas é difícil julgar alguém cujo futuro tem poucas possibilidades de melhorar.

O filme não oferece uma história convencional com começo, meio e fim. Trata-se mais de um retrato de uma sobrevivente vivendo à margem da sociedade, como tantos outros. Essa abordagem diferente pode fazer com que parte do público torça o nariz, o que é uma pena.

Filmado de uma maneira quase que documental, Rosetta é dolorosamente real.

Nota: 8

Sinais (Signs, 2002)

Mais do que um filme sobre invasão alienígena, Sinais é a história de um homem e sua fé. Após um acontecimento trágico, Graham Hess abandonou a batina e decidiu não perder mais tempo com orações. Ele levava uma vida tranquila com seus dois filhos e o irmão mais novo quando coisas misteriosas começam acontecer na sua fazenda e no mundo inteiro. Animais agem com agressividade e enormes círculos surgem em várias plantações. Quem ou o quê está por trás disso? As revelações são feitas aos poucos e com muito suspense. M. Night Shyamalan usa suas influências com sabedoria e constrói cenas que causam aflição. O diretor consegue criar uma atmosfera de medo quase palpável, quase sempre de um jeito mais sutil. São sons que ouvimos à distância, sombras passando pelo vão das janelas, videos caseiros de outro país e assim por diante. Acompanhamos essa situação apenas a partir da perspectiva da família de Graham Hess. O resto do mundo importa muito pouco aqui. Desde o início conseguimos nos conectar com os quatro. A qualidade dos atores obviamente colabora, mas os diálogos são muito bem escritos e a dinâmica entre eles propicia tanto momentos engraçados como situações com mais carga emocional. Em uma segunda assistida é possível notar pistas sobre quase tudo o que é visto no ato final. Tudo tem um porquê, desde o passado nos campos de basebol de Merrill, a asma de Morgan e a mania de Bo em relação a água. Seriam sinais ou coincidências? Ou como pergunta Graham para o irmão: estamos por nossa conta ou existe alguém nos ajudando?

Nota: 9

Assunto de Família (Shoplifters, 2018)

Desde quando entrei em contato com o cinema de Hirokazu Koreeda pela primeira vez, faço questão de acompanhar todos os seus lançamentos. Em se tratando de cinema japonês, talvez ele seja realmente o nome de maior destaque. Assunto de Família é mais uma prova da qualidade superior do diretor. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o filme faz um retrato sensível e honesto de uma família peculiar. Mesmo empregados, o dinheiro está sempre no limite. O garotinho Shota já se transformou em um especialista na arte de praticar pequenos delitos. Ele rouba comida e shampoo. E assim esse pequeno grupo segue na batalha diária da sobrevivência. A menina Yuri foge da sua casa por sofrer maus tratos e é, digamos, adotada pela família. A trama se desenrola com sutileza e aos poucos conseguimos entender os anseios de cada um deles, assim como a estranha dinâmica em que vivem. Não se surpreenda se chegar ao final sentindo uma enorme conexão com cada um deles e talvez com os olhos levemente marejados.

Nota: 9

Crítica | Creed II (2018)

É impressionante constatar como a história de Rocky ainda é capaz de gerar ótimas experiências. Essa seminal saga de boxe ganhou uma sobrevida com Rocky Balboa em 2006 e voltou para ficar com Creed em 2015. Fico contente em confirmar que Creed II é uma continuação extremamente competente.

Ainda que as cenas de luta não possuam a técnica apurada empregada por Ryan Coogler no filme anterior, elas conseguem transmitir toda a beleza brutal do esporte e a sua imprevisibilidade. No primeiro embate de Adonis e Viktor Drago fica claro o poder destruidor do boxeador russo. Podemos ter uma boa noção de quão pesada é a mão do filho do lendário Ivan Drago e assim tememos pelo nosso herói. Trazer a família Drago para a trama foi uma escolha mais do que acertada do roteiro, pois a luta ganha um significado ainda maior. Colabora também a louvável tentativa de humanizar os Drago. Se sobrasse um pouco mais de tempo para a dinâmica dos russos ser explorada, talvez o público ficasse indeciso na sua torcida.

A fórmula dos filmes de esporte é seguida quase que à risca em Creed II, mas isso não tira o seu brilho. Quando você vai assistir a Creed II você já espera por algumas coisas como dramas pessoais potencializados, cenas de treinamento intensas, sequências de luta que empolgam e uma trilha sonora que te deixa com vontade de virar um boxeador. A boa notícia é que isso tudo é oferecido com tanto vigor e sentimento que optamos por fazer vistas grossas aos inevitáveis deslizes do filme.

Nota: 9

TOP 10 – Melhores Filmes de 2018

2018 vai ficar marcado como um dos anos mais fracos da década em termos de cinema, mas teve coisa boa aí. Nota-se a ausência de obras-primas.

10 A Melhor Escolha

Os diálogos bem escritos e as atuações inspiradas de Bryan Cranston, Laurence Fishburne e Steve Carell como veteranos da Guerra do Vietnã fazem de A Melhor Escolha um pequeno diamante bruto.

9 Nasce uma Estrela

Além de boas músicas, há espaço para críticas ao mundo do show business.

8 O Sacrifício de um Cervo Sagrado

Um thriller psicológico que abraça o bizarro e nos pede para esperar o inesperado.

7 Viva – A Vida é uma Festa

Elementos da cultura mexicana, a música e o significado de se fazer parte de uma família fazem nossos olhos lacrimejarem.

6 Sem Amor

A frieza brutal e revoltante de dois pais resultam no desaparecimento de uma criança inevitavelmente afetada. Experiência dolorosa, melancólica e impactante.

5 A Taxi Driver

Grata surpresa do cinema coreano, A Taxi Driver mostra que em certos momentos sacrifícios pessoais são necessários para ajudar todo um povo.

 

4 Me Chame Pelo Seu Nome

Toda a sensibilidade de um inesperado amor de verão.

3 Western

Uma tensão palpável escancara as rusgas de dois povos .

2 Três Anúncios Para um Crime

Performances de alto nível em uma história de vingança que nos faz refletir.

1 Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi

Uma história sobre o racismo opressor no Mississippi da década de 1940 trabalhada com autenticidade e vigor.