Mike Flanagan está trilhando um belo caminho dentro do gênero do terror. É dele os ótimos A Maldição da Residência Hill e Doutor Sono, mas é Missa da Meia-Noite o seu trabalho mais maduro e melhor lapidado.

Essa é uma minissérie de terror de 7 episódios que aborda temas como fé, fanatismo religioso, intolerância, racismo e segundas chances. Flanagan acerta a mão tanto na concepção de uma atmosfera de medo como nas discussões profundas que se propõe a fazer.

Estamos diante de uma experiência que consegue nos assustar das mais variadas formas. Se sentimos medo do terror sobrenatural que ameaça a ilha, também é aterrorizante testemunhar como alguns personagens usam Deus e a bíblia para respaldar os seus atos mais absurdos e reprováveis.

A trama tem início com um acidente de carro no qual uma jovem perde a vida. Riley é o motorista responsável pela tragédia e ele estava sob o efeito de álcool. Após passar 4 anos preso ele retorna para sua terra natal. Trata-se da ilha Crocket, uma ilha decadente bem afastada do continente com menos de 200 habitantes. Quem também desembarca no local é o padre Paul. Ele chega para substituir o monsenhor Pruitt, que se recupera de alguma doença fora da ilha.

Tão logo o novo padre se estabelece coisas estranhas acontecem. Coisas estranhas e também milagres. Há alguma presença misteriosa na região e os sinais estão espalhados nos mais diversos lugares e situações. Um olhar atento do público vai captando as informações e começamos a nos questionar sobre qual é o perigo que está prestes a se revelar.

A Missa da Meia-Noite lentamente constrói o suspense e nos deixa inquietos. Longas cenas sem cortes, fotografia com planos abertos e uma trilha sonora repleta de sons evocativos estabelecem um clima carregado e sombrio. Mais peso é adicionado na narrativa também graças aos dramas pessoais de cada personagem, que são potencializados por prolongados diálogos que soam como verdadeiros monólogos.

Não demora muito e percebemos que a causa do terror é algo sobrenatural. São vários indícios espalhados pelos episódios, inicialmente de forma sutil e depois fica bem evidente do que se trata.

Além da quase palpável atmosfera de terror, Mike Flanagan também gosta de nos dar uns sustos de vez em quando. Ele sabe exatamente o ângulo de câmera, a iluminação e o momento certo para mostrar detalhes assustadores. Inicialmente, ele mostra bem pouco do ser que aterroriza a Ilha e depois o revela em sua mais completa glória terrorífica.

Em relação as discussões religiosas de Missa da Meia-Noite considero que o diretor não faz julgamentos. Ele teve seus problemas com a fé e se declara ateu, mas ele não tem a intenção de ser o dono da verdade e de forma alguma desrespeita os que creem. O que ele faz de maneira bem contundente é criticar aqueles manipuladores que interpretam os ensinamentos religiosos em benefício próprio e para justificar atrocidades. Poucas coisas são tão mortais como o fanatismo religioso. Na História do mundo a religião já foi responsável por inúmeras desgraças e continua sendo. A inquisição e o 11 de Setembro são só alguns exemplos disso.

Missa da Meia-Noite caminha para o desfecho aumentando a intensidade a cada episódio e culmina em algo grandioso e até poético. Tudo o que vimos antes se encaixa de maneira brilhante tornando essa minissérie uma das melhores produções da Netflix.

Estou bem curioso para ver o que Mike Flanagan vai fazer daqui para frente. Para mim, ele atingiu um nível difícil de ser alcançado. Que continue assim!