Um fato curioso tem ocorrido comigo em minhas leituras mais recentes de Stephen King. Após cada novo livro do autor que leio eu preciso alterar o meu ranking dos preferidos. E com Sob a Redoma não foi diferente. Ao término das intensas e viciantes 950 páginas rapidamente constatei que a obra deveria entrar no meu top 5 dele. E agora Sob a Redoma faz companhia a A Dança da Morte, Novembro de 63, A Espera de Um Milagre e A Zona Morta.

Este livro se tornou um dos meus favoritos do mestre do terror graças a premissa intrigante, ao desenvolvimento impecável da história, aos personagens concebidos com zelo e a uma resolução memorável que nos deixa reflexivos e extremamente satisfeitos com toda a jornada.

Então, vamos a trama.

As coisas corriam normalmente na rotina de Chester’s Mill até que, do nada, uma imensa redoma surge ao redor de toda a cidade. No momento em que a redoma aparece alguns sangrentos acidentes acontecem e após o choque inicial os habitantes compreendem que ninguém pode sair ou entrar na cidade.

O ar atravessa a redoma e é possível ouvir quem está do outro lado. Se água é jogada pode-se sentir um leve vapor do lado oposto. Mas não há como passar. A redoma sobe por vários quilômetros e provavelmente possui o mesmo comprimento para baixo.

De forma natural queremos saber quem está por trás desse gigantesco mistério. Quem fez a redoma, como e por que.

A boa notícia é que haverá respostas para praticamente tudo. E respostas muito satisfatórias, eu diria.

Mas a melhor coisa do livro, aquilo que de fato faz ele ser especial, é acompanhar as ações dos personagens diante dessa situação absurda e extrema.

Essa premissa oferece a Stephen King a oportunidade perfeita para criar personagens repletos de nuances. A maioria é desenvolvida e aprofundada de forma que nutrimos emoções sinceras em relação a eles.

Jim Rennie é um político local que basicamente manda em toda a cidade. Ele é aquele tipo de pessoa que considera que seus atos, por mais reprováveis que sejam, estão justificados porque visam um suposto bem maior. Além disso, ele sempre procura colocar a religiosidade no meio de suas atitudes, inclusive usando passagens bíblicas para lhe respaldar.

O fato é que Rennie é um verdadeiro mestre da manipulação que comanda negócios escusos. O chefe de polícia inclusive está juntando evidências para incriminá-lo e essa era a intenção dele antes do caos tomar conta de Chester’s Mill.

Barbie é um ex-soldado que vive na cidade há pouco tempo e trabalha em um restaurante. Depois de se envolver em uma briga com valentões locais ele havia decidido pegar a estrada, mas seus planos foram cancelados com a chegada da redoma.

Agora ele está marcado por pessoas influentes do local e fugir não parece ser uma opção.

Temos também a jornalista Julia Shumway e o seu simpático corgi. Mesmo com a pressão política de Rennie ela jamais deixou de publicar o que considera certo, mas as coisas podem mudar diante dessa situação.

Stephen King aos poucos estabelece dois lados nessa trama de proporções épicas. Basicamente, um lado bom e o outro mau, mas nem tudo é preto no branco. Várias ações são imprevisíveis e para alguns pode haver oportunidades de redenção.

Cada subtrama cumpre um propósito maior. Os arcos narrativos vão tomando forma de maneira lenta, mas sem jamais deixar a leitura cansativa. Acreditem quando digo que essas 950 páginas são fáceis de ler e que ficamos ávidos para acompanhar a evolução da trama.

Às vezes algumas ações aparentemente sem importância de um ou outro personagem é relembrada mais para frente e tem consequências importantes. King tem tudo sob controle e perfeitamente estruturado.

Pelo caminho, nos deparamos com sequências capazes de causar uma torrente de sentimentos. Seres humanos quando estão diante do caos tem a tendência de reagir de maneira brutal e Under the Dome possui vários exemplos disso.

Não darei spoilers, mas sugiro ao leitor estar preparado para tudo.

Esse é uma leitura imersiva e realmente viciante. Nos sentimos presos ao lado dos habitantes de Chester’s Mill e assim como eles queremos respostas. E como já falei anteriormente, iremos ter.

Mas o melhor de tudo é aproveitar a maravilhosa progressão da trama e ser arrebatado por um desfecho dos mais impactantes da obra de King. A frase que encerra o livro remete a uma passagem anterior e engrandece uma experiência que já era extremamente poderosa.

Se você é fã do autor não pode deixar de conferir. Ah. E caso tenha assistido o seriado e torcido o nariz para a história, fique tranquilo. O material original é muito melhor.