Dentro do imenso catálogo da Netflix é possível encontrar algumas pérolas um tanto subestimadas. Se procurarmos bem, podemos aproveitar experiências que fogem do padrão comercial que insistem em nos empurrar goela abaixo. First Reformed é um exemplo.

Temos aqui o reverendo Toller, um homem com seus quarenta e tantos anos que leva uma vida quase espartana. Ele vive em um ambiente sem qualquer luxo, mas também não costuma dedicar atenção para a própria saúde. Todas as noites ele tem a companhia de uma garrafa de Whisky. E também de profundas reflexões que agora ganham as linhas de um diário.

Toller é o padre de uma Igreja com prestígio histórico, mas que tem poucos fieis atualmente. Um dia, uma jovem pede para o padre ajudá-la em um assunto delicado. Ela está gravida e o namorado dela quer que ela aborte. Para o rapaz, o mundo é um lugar condenado a destruição gracas a ação do homem. Aquecimento global, desmatamento, empresas que poluem os rios são alguns exemplos do mal provocado pelos seres humanos. É certo trazer uma nova vida a um ambiente hostil e com poucas esperanças?

Os diálogos bem escritos nos fazem pensar e nos proporcionam uma inevitável imersão nessa trama densa. Toller demonstra em suas relações ser calmo e ponderado, mas isso é superficialmente. Aos poucos percebemos suas angustias e tormentos psicológicos e até físicos. Inclusive, traumas do passado são revelados e adicionam mais camadas para esse intrigante personagem.

Fé Corrompida conta sua história em um ritmo mais lento e contemplativo, se beneficiando do ar melancólico da fotografia de tons neutros e de takes longos. Isso não quer dizer que essa é uma experiência monótona, longe disso. As atuações de qualidade e a sensação de que algo de ruim pode acontecer em qualquer momento garantem o nosso total interesse.

Talvez o roteiro tenha sido ambicioso demais ao querer abordar diversos temas. Talvez uma sequência específica lá para o terço final tenha soado fora de lugar. De qualquer forma, Fé Corrompida nos apresenta a personagens cujos dramas complexos nos deixam realmente envolvidos com tudo o que acontece e assim aguardamos com ansiedade o imprevisível desfecho.

Dono de uma carreira grandiosa como roteirista (Taxi Driver, Touro Indomável), Paul Schrader oferece aqui um trabalho que comprova que ele também pode ser um talentoso diretor.

Nota: 8.5