Ao perceber os primeiros sinais de Alzheimer no pai, a cineasta Kirsten Johnson resolve fazer um documentário pouco usual e num primeiro momento eticamente questionável. Como o título antecipa, As Mortes de Dick Johnson mostra um senhor boa praça e carismático morrendo algumas vezes, talvez para todos se acostumarem com o inevitável. A esposa de Dick faleceu com essa doença em um estágio bem avançado, então ninguém ali desconhece o sofrimento que isso acarreta. Mas é difícil mesmo assim.

A abordagem do documentário é inicialmente leve e divertida. Não foi concebida uma atmosfera depressiva e melancólica, muito também pela própria personalidade amigável de Dick Johnson. Apesar disso, vê-lo tendo que se aposentar e deixar de dirigir é de cortar o coração. E sabemos que isso é apenas o começo.

Kirsten se pergunta até onde vai o limite da decência neste projeto e talvez ela tenha sido ultrapassada em uma sequência específica. De qualquer forma, essa é uma experiência corajosa, sensível e inesquecível. Trata-se de um lembrete da efemeridade da vida e que o mais importante é cultivarmos bom relacionamentos com aqueles que merecem o nosso tempo.

Ainda que não seja tão manipulativo ou excessivamente melodramático, chega a ser um exercício de futilidade tentar ficar os 90 minutos sem derramar uma ou outra lágrima. Em uma das cenas mais inspiradas, Dick pergunta para a filha por que ela escolheu fazer documentários em vez de filmes. Eis que ela responde que geralmente a vida real é algo muito mais interessante do que a ficção. As Mortes de Dick Johnson é um exemplo disso.

Nota: 10