A escritora bielorussa Svetlana Alexijevich faz de Vozes de Tchernobil uma obra essencial para quem busca entender como o desastre nuclear de Chernobyl afetou os povos da antiga União Soviética.

Ao utilizar o depoimento de centenas de pessoas que viveram de perto as repercussões do desastre, a autora consegue transmitir com clareza e honestidade os horrores daquela situação que abalou o mundo em 1986.

Trata-se de um painel amplo e democrático. Lemos os ‘monólogos’ de diversos envolvidos com Chernobyl e isso inclui políticos da época, físicos, liquidadores e até mesmo camponeses que se recusaram a abandonar as suas casas na zona proibida. E há tanto os ferrenhos defensores do partido comunista como os seus críticos.

É uma leitura fluida e acessível, como se estivéssemos de fato escutando uma conversa interessante. E dolorosa na maior parte.

São várias situações chocantes e difíceis de se esquecer. Alguns fatos já são conhecidos por muitos – ainda mais depois da ótima minissérie da HBO -, mas há bastante revelações no livro. São abordados detalhes da crueldade, da falta de informações e de conhecimento que mataram milhares ao longo dos anos.

Se você visita a casa de uma pessoa na zona proibida e ela te oferece alimento você irá comer numa boa? E que tal os procedimentos de lavar a casa várias vezes ao dia, evitar a relva e enterrar a terra para tentar driblar a radiação?

Isso sem falar nos homens que subiram no telhado do reator para limpá-lo, tarefa que nem os robôs conseguiram executar.

Meu respeito e admiração pelos liquidadores ficou ainda maior depois dessa leitura. Muitos foram simplesmente obrigados a enfrentar um perigo invisível e mortal para tentar salvar toda uma região e impedir que as coisas se alastrassem. Claro, havia um senso patriótico incutido em muitos, mas quem refletia um pouco entendia o absurdo de tudo isso.

O desastre de Chernobyl e este livro de Svetlana Alexijevich ajudam a entender alguns dos motivos que levaram à derrocada da outrora poderosa União Soviética.

Vozes de Tchernobil talvez seja o relato definitivo sobre aquele caos. Estamos diante de uma obra grandiosa.