Como acontece todos os anos, a ilha Amity está de braços abertos para receber os turistas no verão. Os proprietários de hotéis e pousadas, os lojistas, os donos de restaurantes e, principalmente, o prefeito, estão empolgados em fazer a economia da cidade girar. Eis que bem nesta época um tubarão resolve aterrorizar a área.

Pelo menos, é o que as investigações preliminares do policial Brody levam a crer. Ele recebe a ajuda de um biólogo marinho chamado Hooper, que chega nessa mesma conclusão usando o seu conhecimento técnico e fazendo atentas observações.

O problema é que nem todos se convencem que há um devorador de pessoas no mar. Quando Brody quer fechar as praias por um dia, os comerciantes entram em polvorosa. Fechar as praias e perder oportunidade de lucrar? E quem disse que existe mesmo um tubarão?

O negacionismo e a falta de empatia são evidentes em Tubarão. Pois é. O filme de Steven Spielberg se revela mais atual do que nunca ao permitir uma triste analogia com o que vivemos hoje no contexto da pandemia.

Só faltou alguém falar que era só um tubarãozinho, que ele prefere velhos e doentes e que a baleia mata mais!

Mas além da crítica social, Tubarão é cinema da mais alta qualidade. É incrível pensar que um diretor de menos de 30 anos criou um fenômeno que foi assistido por milhões. É graças a esse filme que o termo blockbuster foi inventado, pois as filas dos cinemas davam voltas nas quadras.

Spielberg concebeu sequências do mais puro suspense. Quanto menos ele mostra o tubarão, mais as coisas são assustadoras. Ele chega até a brincar com o público quando apresenta três vítimas em potencial: um garotinho que quer ficar mais 10 minutos na água, uma senhora obesa e um cachorrinho brincalhão. Quem será estraçalhado pela voraz criatura? Existe um pouco de humor aí, mas é uma situação de extremo suspense. Spielberg conduz tudo com muita classe e sem pressa. A trilha sonora de John Williams é essencial para deixar a tensão lá em cima.

Quando todos aceitam que existe um inimigo no mar e que é preciso fazer algo a respeito, sobra para o policial Brody, o biólogo Hooper e Quint, um velho lobo do mar que tem um desejo de vingança no melhor estilo capitão Ahab. E enquanto os três criam um laço de camaradagem momentos antes do confronto final, Quint conta sua terrível história que é baseada em fatos reais. Pesquisem sobre o USS Indianapolis e vejam por vocês mesmo.

O inspirado simbolismo do barco ‘entrando’ na arcada dentária de um tubarão exposto no museu é um prenúncio de um árduo combate. E é isso que nos é oferecido no angustiante e memorável ato final.

Mais do que uma divertida e tensa experiência nos mares, Tubarão é atemporal e mais político do que muitos podem pensar.

Nota: 9