Mesmo com uma vasta quantidade de obras, Stephen King consegue evitar soar repetitivo na maioria das vezes. The Outsider oferece tudo aquilo que gostamos e esperamos do escritor, mas também nos surpreende pelo caminho.

Um crime brutal choca Flint City. Uma criança é encontrada morta com requintes de crueldade e tudo indica que Terry Maitland, o treinador do time infantil de beisebol, é o responsável por esse ato abominável. Testemunhas oculares, digitais e DNA são evidências mais do que suficientes para o detetive Ralph Anderson solucionar o caso e prender Terry publicamente durante um jogo.

O problema é que Terry apresenta um álibi irrefutável.

Como diabos isso é possível?

Nas páginas iniciais King captura a nossa atenção ao alternar narrativa convencional com depoimentos de testemunhas e pareceres de profissionais. Ele nos coloca no lugar dos detetives e nos faz chegar a mesma conclusão. Quando o álibi de Terry é apresentado ficamos tão surpresos quanto os investigadores.

De maneira inspirada King desenvolve personagens fáceis de se conectar. Ralph é um policial honesto e trabalhador que está abalado com o crime absurdo ocorrido na cidade. Mas ele é humano e não está livre de falhas. Ralph e o seu crível arco narrativo faz de The Outsider ainda mais especial.

Outro destaque vai para a presença de uma adorada personagem que pode ser vista em outros livros recentes de King. Prefiro não revelar quem.

A auto-referencia é um dos detalhes que enriquecem The Outsider, mas aí é exigido do leitor conhecer a obra do autor. O multiverso de King é amplo e nem sempre é possível se manter atualizado.

Existem também referências orgânicas a obras como Drácula e Frankenstein, além de outras que não tem tanta importância na narrativa, mas divertem mesmo assim. Sobrou até uma crítica respeitosa a Stanley Kubrick e outra contundente a Donald Trump.

The Outsider possui um empolgante equilíbrio entre drama policial, suspense e sobrenatural. O crime é descrito de forma visceral e envolve uma criança, então é bom ir preparado. É realmente difícil ler e imaginar tamanha violência. Apesar de que o mundo em que vivemos consegue ser ainda pior, não é mesmo?

A história é construída com sabedoria, com a tensão crescendo em um ritmo um pouco mais rápido do que o normal para King, mas jamais de forma apressada. Logo estamos totalmente conectados e sedentos para chegar no final.

Há um certo realismo na abordagem do sobrenatural, afinal muitos ali demoram para aceitar o que está acontecendo. Para situações impossíveis, às vezes o que resta é uma explicação mais impossível ainda.

Este já entrou no meu top 5 do escritor.