Não é segredo para ninguém que o cinema nacional vive um ótimo momento, mas chega a surpreender o altíssimo nível que o cineasta José Henrique Fonseca alcançou com Heleno, a biografia do primeiro e mais intenso craque-problema do futebol brasileiro e, provavelmente, mundial. Só pelo fato do filme lembrar Touro Indomável de Scorsese ele já merece elogios, mas quando percebemos que ele nos oferece uma visão imparcial sobre a vida do biografado, que conta com a melhor atuação da vida de Rodrigo Santoro e que é dono de uma parte técnica invejável, com uma linda fotografia em preto e branco, além de uma direção que investe em uma abordagem artística do tema, podemos dizer que Heleno é uma obra-prima.
Desde a cena inicial somos sugados para o conturbado mundo de Heleno, o craque-galã. Ele era o cara que pegava a bola e resolvia os jogos. 235 jogos pelo Botafogo e 209 gols, algo digno dos maiores artilheiros do futebol mundial. O problema é que ao mesmo tempo em que ele estufava as redes adversárias, não media as palavras para reclamar dos companheiros por não jogarem bem ou por não darem o sangue nos jogos. O momento que melhor reflete a total entrega de Heleno para o Botafogo é a cena que mostra o desespero do craque após errar um penalti que valia o título. Rodrigo Santoro transmite de maneira assustadora os rompantes de Heleno, destruindo o vestiário e sua própria mão.
Fora do campo os problemas eram maiores ainda: envolvimento com drogas, uma arrogância proverbial, tabagismo, whisky, agressividade, esbanjamento, brigas e o excesso de relações nada sinceras.
O roteiro do filme intercala os momentos de Heleno jovem com o Heleno tomado pela neurossífilis em um hospital psiquiátrico. A caracterização da versão doente de Heleno por Santoro é impressionante. Não é só o trabalho de maquiagem que se destaca, mas as expressões do ator, a dificuldade de se movimentar e um olhar dos mais vazios já vistos em uma tela de cinema. Se isso não vale uma indicação ao Oscar fica difícil dizer o que vale.
Quando os créditos finais aparecem é possível sentir até um alívio, pois trata-se de uma experiência extremamente forte. Não tem como não buscar na internet mais informações sobre Heleno após assistir ao filme e isto me fez encontrar uma definidora frase escrita pelo já saudoso Armando Nogueira: “… Heleno de Freitas, o craque das mais belas expressões corporais que conheci nos estádios, morreu, sem gestos, de paralisia progressiva, e descansa, hoje, no cemitério de São João Nepomuceno, onde nasceu um dia para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça”
9/10