Título Original:
Lifeboat
Ano: 1944
Diretor:  Alfred Hitchcock

Se tem um filme de Alfred Hitchcock que merecia mais reconhecimento é este Um Barco e Nove Destinos. Não que ele seja subestimado, afinal vários críticos ressaltam sua qualidade e importância, mas o público em geral acaba se esquecendo dele no meio das obras-primas consagradas do diretor, como Psicose, Os Pássaros e Janela Indiscreta.

Uma das primeiras coisas que chama a atenção é o desafio em termos técnicos que o roteiro proporciona. O filme inteiro se passa em apenas um cenário: um bote no meio do oceano. A maneira com que Hitchcock consegue manter nosso interesse é digna de aplausos. Poderia ser algo tedioso acompanhar 8 personagens em um bote salva-vidas, mas Hitchcock comanda a situação com maestria, nos deixando angustiados em vários momentos e nos fazendo torcer para que as coisas deem certo para os náufragos.

A história se passa na Segunda Guerra Mundial. Tudo começa com um navio aliado afundando e várias pessoas entrando em um bote, sendo uma delas um alemão que estava no submarino responsável por afundar o navio. São personagens que representam várias classes sociais, o que causa vários tipos de conflitos, principalmente quando decisões precisam ser tomadas.

O conflito central é a presença do alemão no bote. Como agir com o responsável por afundar o navio em que você estava? Como agir com um representante da nação mais odiada daquele tempo? Hitchcock vai dando pistas sobre a real intenção do alemão e não demora muito para termos uma ideia do caráter dele, algo que os outros talvez descubram tarde demais. Um momento de gênio é quando Hitchcock usa a sombra criada pela vela do bote para cobrir o rosto do alemão, que observa a situação com um olhar penetrante e perigoso.

O diretor confia na sua habilidade de retratar cenas cruciais com sutileza, como uma amputação, um assassinato e o próprio naufrágio. É uma sutileza que perturba, pois acabamos imaginando as coisas mais tensas possíveis.

Muitos reclamam que o filme é maniqueísta e até mesmo racista. Maniqueísta porque o alemão é o típico vilão frio e calculista, mas temos que levar em conta que é um filme de 1944 e dificilmente um inglês retrataria um nazista de uma forma diferente. O suposto racismo é devido a certas situações envolvendo o único personagem negro, como quando ele pergunta surpreso se pode participar de uma votação ou quando alguém pede para ele fazer sua mágica, ou seja, roubar alguém. Também devemos levar em conta a época em que o filme foi feito e temos que ver que é um personagem que realiza ações dignas e importantes.

É um trabalho que esbanja qualidade técnica e que tem um elenco com a competência necessária para não deixar o ritmo se perder. O clima claustrofóbico criado pelo diretor e a incerteza de um final feliz são essenciais para o sucesso de Um Barco e Nove Destinos, um dos grandes trabalhos de Hitchcock. 8/10