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A Separação, filme iraniano dirigido por Asghar Farhadi, é um dos trabalhos mais comentados e premiados do momento. Não é difícil entender os motivos para tal. Primeiro de tudo, é um filme que conta com um elenco que transmite a sensação de que estamos vendo algo real. Não parece que eles estão atuando, mas vivendo suas vidas. A edição também colabora, afinal os seus 120 minutos parecem durar a metade disso. Finalmente, o acontecimento chave do roteiro é uma situação universal. Não importa se você é brasileiro, americano, asiático, você vai se identificar com as inúmeras discussões e conflitos entre os personagens de A Separação. 

Tudo começa com um casal que inicia os processos legais de um divórcio. Simin quer partir para o ocidente, mas Nader não quer abandonar o pai que sofre de demência. Ainda existe o impasse de saber com qual dos dois a filha adolescente vai ficar.

Como Nader não tem o tempo necessário para cuidar do pai, ele contrata Razieh para fazer o serviço. E é um serviço dos mais complicados. Poucos filmes retratam de maneira tão realista as dificuldades de ter um parente com essa doença. Existe algo que deixa as coisas ainda mais difíceis para Razieh: a religião. Em um dado momento ela tem que ligar para alguém e perguntar se trocar a roupa de um senhor de 80 anos é pecado.

Quando Razieh precisa deixar a casa e consultar um médico, ela amarra o pai de Nader na cama para evitar que ele fuja. No momento em que Nader encontra o pai sozinho, caído no chão e com os braços amarrados, fica extremamente indignado. As coisas pioram quando Razieh retorna. Os dois discutem e ele acaba botando ela para fora de casa de um jeito não muito carinhoso.

O fato é que Razieh estava grávida e sofre um aborto, que, segundo ela, foi causado por um empurrão de Nader.

Este é o conflito central da história. O roteiro não define quem está certo ou errado, ele apenas apresenta os fatos e coloca cada personagem defendendo os seus pontos de vista, uns utilizando mais a razão e outros a emoção. São muitos os dilemas éticos e morais retratados aqui e cabe a nós concordar ou não com as atitudes de Nader, Razieh, Simin, Hodjat e Termeh.

Não faltam reviravoltas, sendo a maioria delas verossímeis, mas confesso que não consigo aceitar a escolha de Razieh em sustentar sua versão por tanto tempo, principalmente pelo fato de ser uma mulher tão religiosa. De qualquer forma, o filme retrata muito bem esse lado orgulhoso do ser humano, essa nossa dificuldade de admitir que estamos errados ou de admitir que não podemos viver sem uma pessoa que amamos. É inevitável pensar que as consequências da separação do título que levaram a essa situação.

É reconfortante saber que ainda hoje é possível assistir a ótimos filmes sobre relações humanas. Existe algo mais relevante do que isso?
8/10