Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, o dinamarquês Em Um Mundo Melhor é daqueles filmes que chocam e levantam diversas discussões sobre os temas abordados. Somos apresentados a Anton, um médico que exerce sua profissão em um acampamento de refugiados na África e ao garoto Christian, que acaba de perder a mãe, vítima de câncer. O médico presencia o sofrimento que um chefão local, conhecido como Big Man, imputa em mulheres grávidas e acaba recebendo o próprio malfeitor como paciente. Christian enfrenta a ausência da mãe e o distanciamento do pai de maneira rebelde, mas corajosa. Na nova escola faz amizade com Elias, um garoto vítima de bullying. Rapidamente, Christian mostra para Elias que ele tem que se defender e atacar antes de ser atacado. A ligação entre Anton e Christian está no fato de Elias ser filho do médico. Acompanhamos tudo isso na primeira parte do filme. O acontecimento central é a humilhação física que Anton sofre em uma rua da cidade e, ao invés de reagir, prefere aceitar os tapas de maneira passiva, justificando para os filhos que se ele bater no outro homem, também será um idiota. Pronto. Perceberam o quão rico é o material do filme e quantas discussões e debates ele nos permite fazer? No meu modo de ver, o roteiro não toma partido no sentido de que devemos oferecer o outro lado do rosto e também não diz que devemos reagir com fúria. O que ele quer mostrar é que ambas as atitudes estão acompanhadas de consequências, boas ou ruins. Pessoalmente, acho utópica a ideia de você reagir passivamente a uma agressão. Alguém consegue? Além disso, há o dilema ético enfrentado pelo médico quando está atendendo o Big Man. Uma das frases mais importantes da prática médica é a famosa “primum non nocere”, ou seja, primeiramente, não faça o mal. Mas será que isso se aplica a um ditador sádico e sanguinário, que faz piadas sobre as pessoas que matou? Quem é suficientemente frio parar relevar uma coisa dessas e tratá-lo como se estivesse tratando a melhor pessoa do mundo? Em Um Mundo Melhor nunca nos deixa de nos instigar e provocar, a não ser, talvez, em seu desfecho. Fiquei aguardando por um final arrebatador, que infelizmente, não ocorre. Só que isso não apaga todos os seus acertos anteriores.
8/10