Quanto mais eu conheço Bergman, mais eu me fascino. A capacidade do diretor de discutir temas importantes e profundos impressiona e assusta na mesma medida. Através de um Espelho, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1962, é mais um exemplo de sua genialidade.

O filme tem quatro personagens e apenas uma locação. Karin, o irmão dela, o pai e o marido passam um dia juntos em uma ilha isolada. Karin sofre um sério transtorno psiquiátrico. A garota tem alucinações auditivas severas, que em alguns momentos são vozes de comando a obrigando a fazer certas coisas e em outros ela escuta Deus conversando com ela. Esse forte comprometimento da senso-percepção indica esquizofrenia. As coisas pioram quando ela lê no diário do pai que a doença é incurável e que ele pensa em utilizar o quadro clínico da filha como material para um próximo livro.

O que Bergman quer mostrar, a príncipio, é como toda essa situação de Karin afeta psicologicamente as três pessoas mais próximas a ela. Já adianto que é uma experiência difícil observar o ar blasé do pai em relação a filha e o amor exagerado do irmão. É impossível não ser afetado por este ótimo roteiro. A parte técnica também colabora para que o filme nos atinja. A fotografia se destaca pelas imagens poéticas e pela iluminação. Para completar, a trilha sonora de Bach soa melancólica e hipnótica, aumentando ainda mais o tom dramático do que vemos.

Isso tudo permite que o diretor discuta temas mais grandiosos, como um preocupante vazio existencial do ser humano e a presença ou não de um poder maior ao nosso redor. A última cena me deixou absolutamente sem palavras, tamanha a intensidade do diálogo e me fez entender porque muitos consideram Através de um Espelho um dos melhores trabalhos de Bergman.